Plantas alimentícias não convencionais rendem prêmio para brasileira

Pesquisadora quer retomar conhecimento ancestral sobre esses frutos que podem virar suco, sobremesa, geleia ou serem comidos direto do pé

São Paulo

Araçá-do-mato, cambuí e jenipapo. Esses frutos podem ser estranhos para muita gente, mas fazem parte da dieta de comunidades tradicionais dos arredores de Maceió —e poderiam estar na mesa de todo mundo.

É para isso que trabalha a Patrícia de Medeiros, da UFAL (Universidade Federal de Alagoas). Coordenadora de um projeto de pesquisa para a popularização das Pancs (plantas alimentícias não convencionais), ela foi a única brasileira premiada na edição deste ano do prêmio For Women in Science, promovido pela empresa francesa L’Oréal em parceria com a Unesco.

Escolhida para a categoria International Rising Talents ao lado de 14 pesquisadoras, ela receberá uma bolsa-auxílio de R$ 75 mil, que se soma aos R$ 50 mil que ela já havia recebido em 2019 pela edição nacional do prêmio.

Patrícia de Medeiros, etnobotânica professora da Universidade Federal de Alagoas.   Patrícia estuda as plantas alimentícias não convencionais como araçá, cambuí e maçaranduba. Seu objetivo é auxiliar pequenos agricultores do Nordeste do Brasil a identificar, divulgar e comercializar novos produtos
Patrícia de Medeiros, etnobotânica professora da Universidade Federal de Alagoas. Patrícia estuda as plantas alimentícias não convencionais como araçá, cambuí e maçaranduba. Seu objetivo é auxiliar pequenos agricultores do Nordeste do Brasil a identificar, divulgar e comercializar novos produtos - Divulgação

Ela conta que o dinheiro permitirá idas a campo e a compra de equipamentos. “Temos um desafio ainda maior porque estamos com pouca verba pelos órgãos públicos para pesquisa.”

Medeiros quer cobrir a lacuna entre o conhecimento ancestral sobre as Pancs na população. O araçá-do-mato, aliás, pode ser consumido in natura e em sucos e sobremesas. O cambuí também pode ser comido direto do pé, assim como o jenipapo, que ainda pode virar geleia.

Além de reconhecer talentos em ascensão, o prêmio homenageia cinco cientistas, uma de cada continente, por suas pesquisas e sua trajetória profissional. Elas recebem uma bolsa-auxílio que equivale a R$ 520 mil.

Em 2020, a representante da África e do Oriente Médio é a libanesa Abla Sibai, que estuda envelhecimento saudável em países de renda média a baixa. Ela atuava como farmacêutica, mas, durante a guerra civil do Líbano (1975-1990), decidiu dar uma guinada na carreira e se doutorar em saúde pública. “Era impossível ficar parada e ficar atrás do balcão da farmácia enquanto o conflito impactava a população.”

Patrícia de Medeiros conta que o dinheiro do prêmio permitirá idas a campo e a compra de equipamentos
Patrícia de Medeiros conta que o dinheiro do prêmio permitirá idas a campo e a compra de equipamentos - Divulgação

Sibai passou a trabalhar para garantir que a população idosa, que cresce no mundo todo, possa ter mais oportunidades de se manter intelectualmente estimulada, socialmente engajada e fisicamente ativa.

Ela fundou um centro para o desenvolvimento de políticas públicas voltadas ao envelhecimento e a University for Seniors, um projeto na Universidade Americana de Beirute, capital do Líbano, para que pessoas acima de 50 anos compartilhem conhecimento e aprendam novas habilidades.

Para ela, é importante que a premiação reconheça mulheres cientistas e os desafios que elas enfrentam. “Nós precisamos de mais financiamento de pesquisa, de políticas melhores e de mais equilíbrio entre a vida profissional e pessoal”, diz.

No Brasil, uma iniciativa que busca dar mais visibilidade ao trabalho de mulheres cientistas foi lançada neste ano. É o Open Box da Ciência, que elenca 250 pesquisadoras de destaque no país.

Para Giulliana Bianconi, diretora da Gênero e Número, que elaborou a plataforma, o cenário da ciência está longe de ser o ideal para as mulheres, mas há sinais positivos, como a maior presença de mulheres em áreas antes dominadas por homens, como as ciências exatas. “Já existe, entre essas protagonistas, um discurso sobre precisar ser referência [para outras mulheres] e querer trabalhar para isso.”

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