Acre tinha rede densa de estradas entre aldeias antes da vinda de europeus

Achados parecem estar ligados a outro mistério arqueológico, os grandes desenhos geométricos no solo visíveis do alto

São Carlos (SP)

Pouco antes da chegada dos europeus à América do Sul, as florestas do Acre eram cortadas por uma rede relativamente densa de estradas, que podiam alcançar alguns quilômetros de extensão e conectavam aldeias construídas em cima de pequenos morros artificiais.

A descoberta, feita por cientistas do Brasil, do Reino Unido e da Finlândia, reforça a ideia de que a Amazônia pré-cabralina contava com população considerável, formada por sociedades que já alteravam a mata de maneira significativa naquela época. No caso acreano, os achados parecem estar ligados a outro mistério arqueológico da região, os célebres geoglifos —grandes desenhos geométricos no solo que vêm sendo identificados por observações aéreas nas últimas décadas.

“Em alguns casos, as aldeias e estradas estão localizadas literalmente ao lado dos geoglifos. Existe alguma interpolação entre as duas coisas”, conta Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Contudo, enquanto a rede de estradas e aldeias tem idades que ficam entre 700 anos e 400 anos, os geoglifos são mais antigos, tendo sido traçados entre 3.000 anos e 1.000 anos atrás.

“Eles [os construtores das estradas] provavelmente sabiam que estavam ocupando paisagens que resultavam de processos mais antigos e centenários”, diz Neves, que é um dos autores do estudo descrevendo as descobertas, publicado recentemente no periódico científico Latin American Antiquity.

Também assinam o trabalho Francisco Pugliese, da Universidade de Brasília, Sanna Saunaluoma, da Universidade de Turku (Finlândia), e Justin Moat, dos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres.

Usando uma combinação de escavações tradicionais, análise de imagens de satélite e exploração do terreno com ajuda de drones, a equipe identificou, por enquanto, 18 sítios arqueológicos conectados pela rede de estradas na região do rio Iquiri (veja infográfico). Em geral, as aldeias têm área de até três hectares, ocupando uma área plana e com formato circular ou elíptico.

Esses círculos ou elipses são formados por algo entre 15 e 25 tesos —montículos artificiais, formados pela acumulação de terra—, que podem medir até 25 metros de comprimento e 2,5 metros de altura. No centro da área delimitada pelos tesos ficava uma espécie de terreiro. Cada aldeia antiga é cortada por múltiplas estradas retas, com largura de até 6 metros, e os trechos mapeados até agora sugerem que elas serviam não apenas para ligar um assentamento ao outro como também para facilitar o acesso da população pré-histórica aos cursos d’água da região.

Além disso, parece haver certa conexão entre as estradas das aldeias e as que passavam pelos geoglifos. A diferença entre os dois tipos de construção provavelmente tem a ver com suas funções. As escavações feitas até hoje nos geoglifos encontraram pouquíssimos restos de cerâmica, o que faz os arqueólogos postularem que os desenhos geométricos (quadrados, círculos, losangos etc., demarcados com fossos e valetas) tivessem função ritual, desempenhando o papel de espaços sagrados na região.

Já as áreas marcadas pelos tesos e pela rede de estradas possuem uma diversidade bem maior de cerâmica, em geral para uso doméstico, bem como machados de pedra polida. Tais artefatos vêm dos tesos propriamente ditos, enquanto o terreiro central não costuma trazer achados arqueológicos. Curiosamente, diz Neves, a equipe ainda não achou buracos de estacas ou outros indícios diretos de que os montículos artificiais abrigassem casas ou malocas.

Há certa urgência em documentar essas áreas porque os donos das terras, por acharem que elas serão totalmente embargadas após as descobertas, às vezes acabam optando por destruir os sítios arqueológicos. Além disso, embora vastas regiões do Acre já tenham sido desmatadas, ainda é difícil saber se estruturas ainda mais amplas não estariam ocultas debaixo das áreas que ainda têm mata densa.

Para intensificar a coleta de dados, os pesquisadores pretendem trabalhar em parceria com o projeto Earth Archive (“Arquivo da Terra”, em inglês), liderado pelo arqueólogo Chris Fisher, da Universidade do Estado do Colorado (EUA). O Earth Archive pretende mapear áreas como a Amazônia com a ajuda da tecnologia do “Lidar”, que usa pulsos de laser, disparados de aviões, para captar detalhes do relevo que normalmente são difíceis de enxergar.

É a mesma técnica que ajudou a revelar ruínas da civilização maia ocultas pela floresta fechada na América Central, e ela pode se tornar uma ferramenta importante também para a arqueologia amazônica. ​

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