Descrição de chapéu dinossauro

Répteis que viviam em árvores ajudam a desvendar origem dos pterossauros

Pesquisa na Nature aponta que grupo pouco conhecido de répteis chamados lagerpetídeos completa o álbum de família

São Carlos (SP)

A origem dos pterossauros, mais espetaculares animais voadores da história da Terra, acaba de ficar um pouco menos misteriosa. Novas informações sobre a época em que esses répteis alados estavam surgindo indicam um parentesco próximo entre eles e pequenos quadrúpedes que comiam insetos e viviam em árvores em diversas regiões do globo —inclusive no Brasil.

Os fósseis de tais bichos, conhecidos como lagerpetídeos, começam a aparecer há 237 milhões de anos, no período Triássico, e suas características sugerem que eles seriam o “grupo irmão” dos pterossauros — algo como primos de primeiro grau, no jargão empregado pelos paleontólogos. Ou seja, embora os répteis voadores não descendam diretamente dos lagerpetídeos, ambos os grupos compartilham um ancestral comum muito próximo, o que deve trazer informações cruciais sobre como criaturas desse tipo desenvolveram a anatomia necessária para o voo.

Novas informações sobre o álbum de família dos animais estão em artigo na edição desta semana da revista científica Nature. O trabalho é assinado por uma equipe internacional de cientistas que inclui Martín Ezcurra, do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, e os brasileiros Max Langer, da USP de Ribeirão Preto, e Sergio Cabreira, da Associação Sul Brasileira de Paleontologia.

Trata-se de um avanço importante porque o surgimento dos pterossauros ainda é um bocado enigmático. Seus fósseis surgem inicialmente em rochas de 220 milhões de anos de idade, praticamente “prontos” — ou seja, com asas claramente desenvolvidas e outras características indispensáveis ao voo, sem formas ancestrais intermediárias que só pudessem planar, digamos.

Com isso, era difícil encaixar direito os bichos no contexto mais amplo da evolução dos répteis, embora estivesse claro que, de maneira geral, eles faziam parte do grande grupo dos Archosauria (que abrange ainda crocodilos, dinossauros e aves — que são, na verdade, um subgrupo dos dinos carnívoros – e exclui tartarugas, serpentes e lagartos).

É aqui que entram os lagerpetídeos, os quais, assim como os pterossauros mais primitivos, também eram membros pequeninos (em geral, com menos de 1 m) do grupo dos Archosauria. Até poucos anos atrás, eles eram pouco conhecidos, mas novas descobertas em locais como o Rio Grande do Sul, a Argentina, os EUA e Madagáscar trouxeram informações importantes sobre o crânio, os dentes e as patas da frente dos lagerpetídeos, permitindo uma comparação detalhada com outros Archosauria.

Foi então que as semelhanças com os pterossauros começaram a se encaixar. Entre elas, Langer cita o alongamento dos ossos do antebraço e das mãos; os dentes tricuspidados (ou seja, com três saliências ou cúspides), ideais para o consumo de insetos; e modificações no cérebro e nos canais auditivos que são importantes para o equilíbrio e a precisão dos movimentos.

Nos pterossauros, essas modificações cerebrais ajudaram os bichos a viajar pelo ambiente aéreo, mas a presença delas nos “primos” lagerpetídeos poderia ser vista como uma adaptação inicial ao ambiente arbóreo, junto com a presença de garras recurvadas, as quais ajudariam os bichos a trepar em árvores.

Os biólogos costumam chamar esse tipo de característica de pré-adaptação ou exaptação —elas são úteis para uma espécie nas condições em que ela vive no momento, óbvio, mas podem ser redirecionadas com alguma facilidade para outros propósitos conforme a evolução de seus descendentes prossegue.

“Um pequeno arborícola quadrúpede poderia dar origem ao voo num esquema ‘tree down’ [das árvores rumo ao solo], e não ‘ground up’ [do chão para cima]. Teríamos então voos florestais, e não em ambientes abertos, para a origem dos pterossauros”, explicou Langer à Folha.

Embora os novos estudos com lagerpetídeos tenham diminuído o abismo de anatomia que existe entre os pterossauros e outros répteis do Triássico, fósseis que sejam intermediários nos detalhes ligados ao voo ainda não apareceram. O mesmo, aliás, acontece na evolução dos morcegos. Isso estaria ligado ao fato de serem animais de floresta fechada, pequenos e de esqueleto delicado, o que dificulta a preservação dos fósseis?

“Faz algum sentido. Floresta é o pior tipo de ambiente para fossilização, e são animais de ossos frágeis. Por outro lado, temos o caso dos ictiossauros, que também ‘aparecem prontos’, mas são bichos robustos de ambiente marinho”, pondera Langer.

Para Taissa Rodrigues, paleontóloga da Universidade Federal do Espírito Santo e especialista em pterossauros, existe também um elemento de sorte quanto a esse tipo de fóssil. A transição dos dinossauros carnívoros rumo ao voo das aves também demorou para ser documentada. “Foi preciso descobrir dois ou três lugares com condições excepcionais de fossilização para que isso fosse elucidado”, pondera ela.

Para a pesquisadora, o trabalho é uma amostra de como descobertas no Triássico estão mudando significativamente o que sabíamos sobre a história dos vertebrados. Segundo Rodrigues, os dados apresentados no estudo da Nature agora vão permitir que outros paleontólogos testem a nova hipótese sobre o parentesco dos pterossauros usando informações sobre mais fósseis do grupo.

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