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Análise de cocô de mais de mil anos mostra como nossa flora intestinal mudou ao longo do tempo

Fezes antigas são similares às de populações não industrializadas; estudo mostra como genes resistentes a antibióticos são mais comuns hoje

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São Paulo

Ao analisar amostras de fezes de mais de mil anos de idade, um grande grupo de cientistas (dos EUA, México, Canadá, Itália, Dinamarca e Alemanha) conseguiu remontar o genoma de microrganismos do passado que habitam o interior do corpo humano, mapear a diversidade deles e mostrar como nossa flora intestinal mudou ao longo do tempo.

O resultado, publicado nesta quarta (12) na revista Nature, mostra que a flora intestinal (ou também microbiota, como é mais chamada pelos cientistas hoje) registrada nas paleofezes é mais similar à das populações não industrializadas. Um dos micróbios “perdidos” com a industrialização é o Treponema succinifaciens.

Nos cocôs antigos há ainda uma grande quantidade de enzimas capazes de digerir quitina, um tipo de carboidrato que é usado por insetos para construção de seu exoesqueleto e que também está presente em cogumelos e outros fungos. O achado é indício de como era a dieta das pessoas no passado.

Em uma outra análise, foram comparadas enzimas produzidas pelos micróbios e que são ativadas por carboidratos. Antigamente e em populações não industrializadas, é mais fácil encontrar enzimas capazes de digerir amido, provavelmente devido à uma maior ingestão de carboidratos complexos (como grãos integrais e certos tubérculos).

O mesmo raciocínio vale para genes de resistência a antibióticos nos micróbios —em populações industrializadas eles são muito mais presentes, denunciando o abuso no uso desses medicamentos, tanto em humanos quanto para a produção de carne.

Um dos maiores desafios foi reconstituir a informação genética desses micróbios. Um genoma íntegro de bactéria pode ter centenas de milhares de pares de bases, ou “letras” genéticas (humanos, para comparação, têm 3 bilhões de pares). Na amostra, o material genético estava tão danificado que, em média, os pedaços de DNA tinham 174 pares de bases.

Outra preocupação foi ter a certeza de que o DNA das amostras antigas não estava contaminado com DNA mais recente, o que poderia nublar as conclusões.

Ao todo foram utilizadas oito amostras de cocô entre 1.000 e 2.000 anos, encontradas em cavernas no sudoeste dos EUA e no México.

Os cientistas conseguiram, no fim, reconstruir 498 genomas de micróbios, sendo que 181 têm origem no intestino e, desses, 61 (39%) representam espécies ainda não conhecidas. O passo seguinte foi comparar esses achados com a microbiota de populações “industrializadas” e aquelas que hoje vivem de forma isolada, “não industrializada”, como certas tribos na Amazônia ou na ilhas Fiji.

“Um conceito importante que surge de nosso trabalho é que, se a teoria do desaparecimento do microbioma humano estiver correta, então para reduzir a carga de doenças crônicas, simplesmente comer bem e fazer exercícios não é suficiente —precisamos de alguma forma semear novamente o microbioma humano moderno com as espécies que perdemos”, disse à Folha Aleksandar Kostic, autor sênior do estudo e professor de microbiologia da Universidade Harvard.

Já existe grande interesse da indústria farmacêutica e biotecnológica na produção de novas terapias com base nesses conhecimentos. Por exemplo, a infecção resistente pela bactéria Clostridium difficile, pode ser tratada com transplante de fezes, e com alta taxa de sucesso. Existem investigações de tratamentos para doenças inflamatórias intestinais e também para terapias combinadas em oncologia.

Mas essa ideia de alterar o microbioma ao estado "original", que vem sendo defendida por muitos cientistas, pode ser uma tarefa um tanto inglória, segundo Emmanuel Dias-Neto, pesquisador do A.C.Camargo Cancer Center e estudioso do microbioma humano, que não participou do estudo.

Uma das maiores dificuldades é ter a dimensão exata do que é saudável. “Ainda não temos uma referência do que seria uma microbiota saudável para o brasileiro. Não tem como fazer um exame e dizer que a quantidade de uma determinada bactéria está baixa”, diz.

De todo modo, já é possível fazer algo a respeito da saúde da sua microbiota: a dieta é um dos fatores que mais influenciam essa composição.

O consumo de fibras, carboidratos complexos (como aveia e inhame e pão integral) e frutas in natura está associado a uma melhor saúde gastrointestinal e ao menor risco de câncer de cólon; o consumo excessivo de carne, por sua vez, nos leva na direção oposta.

Mas existem outros fatores que são mais difíceis de controlar, como nível de exposição à poluição e a ingestão de microplásticos, presentes até na água. Dessa forma, a recomposição da microbiota nunca seria absoluta.

Como muitos desses fatores são nocivos aos microrganismos, a tendência é que outros rapidamente ocupem esses nichos. Um exemplo, cita Dias-Neto, são os micróbios que sobrevivem ao consumo de álcool e tabaco e que acabam colonizando a boca do indivíduo. Esses mesmos organismos produzem substâncias cancerígenas, como o acetaldeído, sendo, portanto, danosos à saúde.

“Potencialmente trabalhando com esse tipo de microbioma mais antigo, você poderia ver bons resultados. Talvez se eles pudessem ser reintroduzidos em algum nível, poderíamos começar a ver uma diminuição nesta epidemia de doenças crônicas que se tornou tão problemática e continua a crescer em todo o mundo, especialmente se você olhar para a obesidade e diabetes tipo 2 e doenças alérgicas em crianças pequenas”, diz Kostic.

“Eu estou particularmente interessado em desenvolver essas ideias em modelos animais, como camundongos que têm diabetes tipo 1 ou tipo 2. Um primeiro passo é transferir um microbioma ‘ocidental’ para esses animais e, em seguida, tentar enxertar um microbioma ‘tradicional’ neles e observar o curso da doença e se há algum efeito inesperado e outros aspectos de segurança importantes.”

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