Assassinato de Marielle mobiliza Planalto para reduzir desgaste

Ordem de Temer é ecoar discurso de que presidente atua para resolver crime o quanto antes

Marina Dias
Brasília

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) e de seu motorista, Anderson Gomes, colocou em xeque os benefícios políticos que o governo esperava obter com a intervenção no Rio, e mobilizou o Planalto a tentar reduzir o desgaste com o caso.

A ordem dos auxiliares de Michel Temer é ecoar o discurso de que o presidente atua para resolver o crime o quanto antes e que a morte da vereadora não abala a credibilidade da intervenção.

O governo avalia que é preciso mostrar resultado rapidamente —ou seja, os investigadores têm que encontrar os culpados pelo assassinato de Marielle em pelo menos 48 horas— para que uma crise não se instale definitivamente no coração do governo.

“Precisamos continuar atuando para mostrar que estamos combatendo o crime. Não vai haver recuo”, disse à Folha o ministro Moreira Franco (Secretaria-Geral).

A ideia é manter uma postura rígida para blindar a mensagem de que o governo atua contra a violência no Rio, além de impedir que a intervenção seja desmoralizada.

Isso porque o projeto de reeleição de Temer tinha na intervenção no Rio o seu principal foco. Os mais entusiasmados integrantes do governo acreditavam que, se bem-sucedida, a ação poderia render reflexos eleitorais positivos para o presidente.

Eles calculavam que, em julho, quando é preciso registrar as chapas na Justiça Eleitoral, sua popularidade poderia ter aumentado um pouco —hoje os índices chegam a 6%—, com a melhora dos índices econômicos e a possível ressonância positiva das ações no Rio de Janeiro.

Agora, o temor no governo é que a repercussão dos assassinatos de Marielle e de seu motorista coloquem em dúvida a eficácia da intervenção e, mais do que isso, causem prejuízo político à imagem de Temer. Na manhã desta quinta-feira (15), após algumas horas de indecisão sobre como reverter o quadro negativo, o presidente convocou uma reunião no Palácio Planalto e deu início à estratégia para tentar salvar o cunho político da intervenção.

Na presença de seus principais conselheiros, Moreira Franco, Eliseu Padilha (Casa Civil) e Sergio Etchegoyen (Gabinete de Segurança Institucional), além do ministro da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, Temer decidiu enviar ao Rio Raul Jungmann (Segurança Pública) e o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro. Gustavo Rocha, titular de Direitos Humanos, já tinha uma reunião marcada na capital fluminense e se juntou ao grupo.

Em seguida, Temer fez um discurso em que comunicou a viagem dos ministros e disse que é preciso “acabar com esse banditismo desenfreado que se instalou por forças das organizações criminosas”. “Estamos no Rio para restabelecer a paz”, completou.

Desde a noite desta quarta-feira (14), o presidente queria mostrar ação prática e havia informado, via redes sociais, que colocaria a PF à disposição para auxiliar nas investigações do crime.

Na tarde de quinta, as informações que chegaram ao Planalto apontavam para a hipótese de envolvimento de milícias no assassinato de Marielle e seu motorista.

A orientação, porém, era não divulgar informações que pudessem prejudicar, na avaliação dos investigadores, as apurações sobre o caso.

VIOLÊNCIA NO RIO

Marielle Franco, 38, foi morta na noite de quarta, junto do motorista Anderson Pedro Gomes, 39, quando voltavam de uma roda de conversa intitulada “Jovens Negras Movendo Estruturas”. O carro em que estavam foi atingido por nove tiros. A polícia trabalha com a hipótese de execução. Uma assessora que estava no banco de trás, sobreviveu.

O assassinato da vereadora ocorreu dois dias antes de a intervenção federal na segurança pública do estado completar um mês. A medida, inédita, foi anunciada pelo presidente Michel Temer (MDB) em 16 de fevereiro, com o apoio do governador Luiz Fernando Pezão, também do MDB.

Temer nomeou como interventor o general do Exército Walter Braga Netto. Ele, na prática, é o chefe das forças de segurança do estado, como se acumulasse a Secretaria da Segurança Pública e a de Administração Penitenciária, com PM, Civil, bombeiros e agentes carcerários sob o seu comando.

O Rio de Janeiro passa por uma grave crise política e econômica, com reflexos diretos na segurança pública. Desde junho de 2016, o estado está em situação de calamidade pública e conta com o auxílio das Forças Armadas desde setembro do ano passado. Não há recursos para pagar servidores e para contratar PMs aprovados em concurso.

Policiais trabalham com armamento obsoleto e sem combustível para o carro das corporações. Faltam equipamentos como coletes e munição. A falta de estrutura atinge em cheio o moral da tropa policial e torna os agentes vítimas da criminalidade. Somente no ano passado 134 policiais militares foram assassinados no estado. Policiais, porém, também estão matando mais.

Após uma queda de 2007 a 2013, o número de homicídios decorrentes de oposição à intervenção policial está de volta a patamares anteriores à gestão de José Mariano Beltrame na Secretaria de Segurança (2007-2016). Em 2017, 1.124 pessoas foram mortas pela polícia.

Em meio à crise, a política de Unidades de Polícia Pacificadora ruiu —estudo da PM cita 13 confrontos em áreas com UPP em 2011, contra 1.555 em 2016. Nesse vácuo, o número de confrontos entre grupos criminosos aumentou. Apesar da escalada de violência no Rio, que atingiu uma taxa de mortes violentas de 40 por 100 mil habitantes no ano passado, há outros estados com patamares ainda piores.

No Atlas da Violência 2017, com dados até 2015, Rio tinha taxa de 30,6 homicídios para cada 100 mil habitantes, contra 58,1 de Sergipe, 52,3 de Alagoas e 46,7 do Ceará, por exemplo.

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