Sem-teto usam de casarões históricos a prédios altos pelo país

Em Salvador, Rio e BH, déficit habitacional se reflete em ocupações em situações precárias

Ocupação Carolina Maria de Jesus, em Belo Horizonte - Alexandre Rezende/Folhapress
Rio de Janeiro , Salvador e Belo Horizonte

Assim como São Paulo, onde a queda de um edifício no largo do Paissandu tornou evidente os problemas do déficit habitacional, diversas capitais do país vivem a mesma situação de falta de habitações para as camadas mais pobres. Invasões de prédios ociosos são opções em tempos de ganhos achatados e aluguéis altos no Rio, Belo Horizonte e Salvador.

O déficit habitacional no Brasil tem crescido. De acordo com dados da Fundação João Pinheiro, responsável pelo cálculo oficial, a partir de microdados da Pnad (pesquisa nacional de domicílios do IBGE), o índice subiu ligeiramente em 2015, para 9,3%, ante 9% em 2014 e 2013, atingindo 6,35 milhões de domicílios. E especialistas estimam que pode ter havido novo aumento nos últimos dois anos.

O reflexo, no Rio, pode ser visto em ocupações que se multiplicaram pelo centro, espontâneas ou organizadas por movimentos. Em Salvador, casarões coloniais e cortiços são alternativa a dormir ao relento no centro histórico.

Em Belo Horizonte, um prédio de 18 andares de um fundo de pensão faz as vezes de lar para 200 famílias em região nobre da capital mineira.

Entenda o que já se sabe sobre o desabamento de prédio em SP

A Folha visitou nove ocupações nas três capitais. Em todas prevalece o sentimento de luta pelo direito a uma moradia digna. Para evitar riscos de incêndios ou outros acidentes, moradores cuidam dos locais como se fossem seus.

A auxiliar de serviços gerais Raquel Pinheiro dos Santos, 36, deixou o Piauí aos 14 anos e partiu de carona para o Rio, escondida dos pais. Em 2007, ela morava em frente a uma boca de fumo e pagava R$ 400 de aluguel. Vivia com orçamento apertado e medo de que se tornasse inviável pagar por um teto.

Hoje, mora na ocupação Manoel Congo, no centro do Rio, organizada pelo MNLM (Movimento Nacional de Luta Por Moradia), em um prédio que já foi do INSS e atualmente está em processo de reforma por meio do programa Minha Casa Minha Vida Entidades.

Divide um apartamento de 40 metros quadrados com a família, hoje acrescida de mais um filho. O prédio de dez andares abriga 43 famílias. Sem energia, os elevadores não funcionam. Os moradores dividem custos e tarefas de limpeza e portaria.

"Estou melhor do que meus parentes que deixaram o Piauí e até hoje vivem na favela, pagando aluguel caro e em meio à violência. Tenho hoje meu apartamento no coração do Rio", diz Raquel.

Também no centro, há uma ocupação de duas décadas em um prédio abandonado da UERJ (Universidade do Estado do Rio). Não tem movimento social por trás, tampouco programa do governo federal.

Antigas salas de escritórios são hoje pequenas habitações de um quarto. Os banheiros ficam no fim do corredor de cada um dos três andares. Tapumes fazem as vezes de paredes e dividem as habitações de 32 famílias.

A cuidadora Carmem Rezende, 60, é uma das fundadoras. Apesar de orgulhosa com o que conseguiu nos últimos 20 anos, ressente-se do abandono do poder público. "A gente não quer morar aqui, mas não temos para onde ir, nem dinheiro para pagar o aluguel do Rio", diz.

Não existe estimativa de quantas ocupações existem na capital fluminense. Segundo Elizete Napoleão, 52, coordenadora estadual do MNLM, há pelo menos 20 imóveis abandonados ocupados por famílias de baixa renda no Rio.

Para Edineia Ribeiro dos Santos, 36, a ocupação Carolina Maria de Jesus, na avenida Afonso Pena, endereço nobre de Belo Horizonte, "foi pai e mãe". Ela se mudou quando engravidou pela terceira vez e, para evitar críticas da família, chegou a viver em abrigos.

"Eu vivia de favor numa favela, um lugar sem dignidade, com meu pai. A gravidez tirou meu chão. Queria fugir e fui perdendo minha identidade".

Agora, ela e os filhos são uma das 200 famílias que moram desde setembro no prédio de 18 andares, onde funcionava a secretaria estadual de Saúde de Minas Gerais. Para ela, "a ocupação é oportunidade onde não se tem".

O Movimento de Luta dos Bairros e Favelas organiza o local. Os moradores pagam R$ 10 ao mês para bancar os custos de manutenção.

Outros dois imóveis abandonados abrigam famílias no centro da capital mineira —uma antiga sede do INSS e o prédio de um banco falido.

No bairro do Castelo, 28 famílias de migrantes, desempregados e catadores invadiram um prédio residencial inacabado de oito andares.

As crianças brincam em meio a entulhos, e as janelas são improvisadas com tapumes. As escadas não têm proteção. "Não existe alternativa habitacional [para os pobres na cidade]", diz Isabella Gonçalves, militante das Brigadas Populares e coordenadora de uma ocupação no centro.

Em Salvador, 32 famílias moram no edifício Rajada, na região do Comércio. Um único banheiro serve a todos e água só costuma ter à noite. Um emaranhado de fios cobre o teto feito teias de aranha. Placas finas dividem as famílias e formam um escuro corredor.

Vivendo há 11 anos nessa invasão, Joelza Gonçalves Araújo, 47, é uma das moradoras mais antigas do Rajada. O espaço em que ela vive é pequeno, com cerca de 20 metros quadrados, mas limpo e arrumado. Ali, ela criou seu filho Jean, hoje com 17 anos, prestes a concluir o ensino médio.

Mesmo com tantos anos no prédio, ela segue sua batalha por uma casa própria: "Ainda vamos conseguir um canto só nosso", diz Joelza, confiante.

A pedagoga Aidinalva Barbosa, 59, mora no subsolo, onde predominam mofo e infiltrações. Ali, divide o espaço atulhado de pilhas de sacolas, papéis e móveis antigos com seu filho Pedro, 21, uma cachorra e outras três famílias.

"Não é o espaço ideal para criar nossos filhos. Mas aqui é o nosso espaço de luta. A ocupação é o que dá sentido a nossa causa", diz.

O centro histórico é região fértil para invasões. A prefeitura estima que existam cerca de 500 casarões que não estão ocupados por seus proprietários. Pelo menos 266 têm risco alto de desabamento.

Os movimentos organizados sabem dos riscos, mas alegam que, com famílias morando, os imóveis históricos tendem a ser cuidados.

"Os casarões que estão de pé permanecem assim por causa das ocupações. Quem está dentro procura cuidar do imóvel", afirma Maura Cristina, 60, que mora em um sobrado no bairro do Carmo.

DÉFICIT HABITACIONAL DOS ESTADOS

São Paulo - 1,34 milhão de habitações

Minas Gerais - 575 mil habitações

Bahia - 461 mil habitações

Rio de Janeiro -  460 mil habitações ​​​ 

Carolina Linhares , João Pedro Pitombo e Lucas Vettorazzo
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