Escultura misteriosa substitui busto furtado no largo do Arouche, em SP

Feita em pedra-pomes, obra com cabeça de homem careca foi fixada por anônimo

Gustavo Fioratti
São Paulo

No lugar onde antes havia um busto do poeta, crítico e ensaísta Guilherme de Almeida, no largo do Arouche, centro de São Paulo, apareceu uma escultura misteriosa: a cabeça de um homem careca, com maxilar bem marcado e parafusos que saltam de seu queixo e dos olhos.

O busto de Almeida sumiu em 2004. Fazia parte do Jardim das Esculturas, série criada pela Academia Paulista de Letras para homenagear cinco membros mortos, entre eles o parnasiano Vicente de Carvalho (1866-1924).Em 2001, já havia desaparecido o busto vizinho, de José Augusto Cesar Salgado. Sobrou ainda José Pedro Leite Cordeiro, mas sem os óculos.

Segundo o Conpresp, órgão de preservação do município que tombou a série, houve registro de boletim de ocorrência para os furtos, mas as obras não foram recuperadas.

Moradores e comerciantes da região dizem que a nova intervenção apareceu há cerca de três meses. Ela está fixada com argamassa e é feita com pedra-pomes, um material que não tem valor no mercado de recicláveis, ao contrário do bronze utilizado nos bustos.“Foi do dia para a noite que apareceu”, conta o estudante Levy Douglas, 24, frequentador da praça, onde moradores não só da região costumam confraternizar ao cair da noite. Ele compara a ação com as do britânico Banksy, grafiteiro conhecido por não ter sua identidade revelada.

​Douglas acha, pelas feições da figura criada, que se trata da representação de um homem negro —a cor da peça é clara, quase branca. Enquanto ele falava, um passante se aproximou para opinar. Os dois concluíram que os parafusos no queixo simbolizavam um estilo que contesta a expressão artística dos bustos vizinhos: imagens de homens brancos e de terno, com cabelos e bigodes bem aparados.

Em uma casa que vende artigos de candomblé a cinco quarteirões dali, um vendedor que viu uma fotografia da escultura mostrada pela reportagem apontou semelhança entre os olhos da imagem e os de uma máscara nigeriana de madeira que ele vendia em sua loja: o globo ocular em relevo, as pálpebras saltadas e um pequeno orifício bem no centro do olho. Realmente parecida.

A Folha conversou com moradores e comerciantes da região em diferentes ocasiões nas últimas semanas, em diversas faixas de horário.

Ouviu ambulantes africanos na região da República, tatuadores e vendedores da galeria do Rock, hippies que comercializam artesanato na rua 7 de Abril, mas ninguém soube responder quem era o autor do trabalho.

Estacionado na porta da galeria do Rock, na rua 24 de Maio, Carlos Henrique, que vendia colares, anéis e outros artesanato, ofereceu: “se quiser, faço uma igual”.Na noite de terça (7), o bancário Wagner Xavier, 28, estava no Arouche de bate-papo com um amigo e topou dar uma interpretação para a obra.

Para ele, a figura representa alguém que quer ser aceito pela sociedade. “Ele quer fazer parte de algo ao qual ainda não pertence”, arrisca. “Se existe um parafuso é porque o queixo dele é solto”, complica-se, “então, para fazer parte daquilo, coloca-se um parafuso”. O amigo se admira com a explicação ouvida e, econômico, exclama: “Arrasou!”

Na quarta (8), um garoto de programa perguntou se haveria recompensa para quem apresentasse o verdadeiro autor da peça. Como não havia, ele se negou a falar mais.

Ele também contou que havia passado a noite rodando o centro, bebendo e usando cocaína. Às 11h, pediu R$ 5 para comprar um vinho. Na floricultura que há ao lado do Jardim dos Escritores, um dos sócios, João Fernando Salgado Filho, 60, diz que entende a intervenção como uma crítica aos bustos da Academia Paulista de Letras. “O pessoal [no Arouche] tomou [a nova escultura] como uma brincadeira, como uma sátira”, diz o homem de bigodes e barbas e fala pausada.

“Na minha opinião, não tem nada a ver terem colocado esses outros bustos aqui na praça”, diz, em referência ao Jardim dos Escritores. “Eles [os bustos] criam conflito com as esculturas de autores consagrados que já estavam aqui antes”, diz, apontando a obra “Depois do Banho”, do modernista Victor Brecheret (1895-1955), com a qual a nova escultura de fato guarda semelhanças, pelas formas não realistas.

Salgado Filho também dá uma explicação possível para o desaparecimento de bustos do Jardim dos Escritores. Ele trabalha há mais de 25 anos ali e conta que já roubaram as grelhas de ferro usadas na entrada de sua loja. “O que tem de metal, não fica, eles levam”, atesta, atribuindo a ação a homens e mulheres viciados em crack.

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