Longe da meta, vacinação tem dia D neste sábado contra sarampo e pólio

Campanha é para crianças de 1 a menos de 5 anos, inclusive as já imunizadas antes

Natália Cancian
Brasília

A duas semanas do fim da campanha nacional de vacinação contra sarampo e poliomielite, a adesão ainda está abaixo do esperado, apontam dados do Ministério da Saúde: balanço divulgado pela pasta aponta que cerca de 1,8 milhão de crianças já foram vacinadas.

Na tentativa de aumentar a adesão, o governo federal realiza neste sábado (18) o chamado dia D de mobilização para vacinação pelo país. Com a medida, mais de 36 mil postos de saúde devem estar abertos durante todo o dia. Após o dia D, a campanha segue até 31 de agosto.

O total, no entanto, corresponde a somente 16% do público-alvo, composto por 11,2 milhões de crianças de 1 ano a menores de 5 anos. A meta é vacinar pelo menos 95% desse público até o fim da campanha —inclusive crianças que já foram vacinadas anteriormente.

A exceção são crianças imunodeprimidas, como aquelas submetidas a tratamento de leucemia e pacientes de câncer, para as quais a vacina é contraindicada. 

Já crianças alérgicas a protína lactoalbumina, presente no leite de vaca, devem informar o quadro às equipes de saúde. Neste caso, elas recebem outra vacina contra sarampo, produzida pelo instituto BioManguinhos.

“É de extrema importância que todos os pais e responsáveis levem suas crianças para serem vacinadas e assim ficarem devidamente protegidas”, afirma, em nota, a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde, Carla Domingues.

Segundo a coordenadora, o objetivo da campanha de vacinação “indiscriminada” —voltada para reforçar a vacinação até de quem já foi imunizado no passado— é criar uma barreira de proteção contra o sarampo, doença que vem registrando avanço no país.

“Desta forma, criamos uma imunidade de grupo. Rapidamente teremos a oportunidade de garantir que, mesmo que os vírus da pólio e sarampo entrem no país, eles não encontrem uma fonte de infecção”, afirma Domingues.

MORTES

Desde fevereiro até a última terça (14), foram confirmados 1.237 casos da doença. Outros 5.731 ainda estão em investigação. Também foram registradas ao menos seis mortes.

O avanço do sarampo ocorre menos de dois anos após o país ter recebido um certificado de eliminação da doença pela Opas (Organização Pan-americana de Saúde).

Os casos ocorrem em meio a uma queda recorde nas taxas de coberturas vacinais. Em 2017, o Brasil teve o mais baixo índice de vacinação de crianças em mais de 16 anos, conforme antecipou a Folha.

A situação tem elevado o risco de retorno de doenças já eliminadas. A taxa de vacinação contra a pólio, por exemplo, caiu de 98,2%, em 2015, para 77%, em 2017.

Isso significa que cresce o risco de o país voltar a registrar casos de paralisia infantil caso ocorra uma reintrodução do vírus e contato com não vacinados —uma situação que não ocorre desde 1990.

Durante a campanha, a aplicação das doses terá esquemas diferentes dependendo da situação vacinal de cada criança.

Crianças que nunca tomaram nenhuma dose de vacina contra a polio, por exemplo, devem receber uma dose da VIP (vacina injetável).

Já aquelas que já tiverem tomado uma ou mais doses recebem a VOP (vacina oral), conhecida como gotinha. A ideia é reforçar a imunização contra a doença.

Contra o sarampo, a campanha prevê que todas as crianças recebam uma dose da vacina tríplice viral. A exceção são aquelas que já foram vacinadas nos últimos 30 dias.

SÃO PAULO

Em São Paulo, balanço da secretaria estadual de Saúde aponta que 40% do público-alvo já foi vacinado.

campanha no estado começou dois dias mais cedo que no restante do país, em 4 de agosto, data em que ocorreu também o primeiro dia D.

A diretora de imunizações de São Paulo, Helena Sato, atribui o índice maior de cobertura no estado ao fato de a campanha ter começado mais cedo e em razão de parcerias com sociedades médicas e especialistas.

Segundo ela, a campanha é uma forma de reforçar a proteção contra as duas doenças no país e corrigir possíveis falhas vacinais —quando a proteção é menor do que a esperada. Nestes casos, afirma, uma nova dose pode completar a proteção.

Ainda de acordo com Sato, não há riscos para a criança devido à aplicação de uma nova dose. “O fato de tomar de novo não aumenta a chance de ter eventos adversos”, diz.

Ela cita a importância de completar o esquema vacinal. “A proteção da primeira dose, por exemplo, é de 95%. Isso indica que 5% podem não estar protegidas adequadamente. Por isso temos uma segunda dose”, afirma a coordenadora, que lembra que a última campanha de vacinação indiscriminada ocorreu há quatro anos. 


Perguntas e respostas sobre o sarampo e a vacina

Até quando vai a campanha de vacinação? Até 31 de agosto

Quem deve ser vacinado? Crianças com idade a partir de 1 ano e menor que 5 anos, ainda que já tenham sido vacinadas contra essas doenças

Quais as vacinas oferecidas? As crianças que nunca tomaram nenhuma dose da vacina contra poliomelite receberão a vacina injetável; as que já tiverem tomado uma ou mais doses receberão a vacina oral. Quanto ao sarampo, todas receberão uma dose da tríplice viral, que protege também contra caxumba e rubéola, exceto as que tomaram essa vacina há menos de 30 dias

Vacinei meu filho há uma semana. Preciso levar ao posto de saúde? Sim, mas o esquema de vacinação varia. Caso a criança tenha sido vacinada há 30 dias com a vacina tríplice viral, ela não precisará tomar uma nova dose. Mesmo assim, deve ser vacinada contra a poliomielite novamente. Objetivo é reforçar a proteção. Não há riscos para a criança

Adultos podem ser vacinados? Para adultos, a vacinação é indicada na rotina dos postos de saúde, e varia conforme a situação vacinal. Adultos não são o foco dessa campanha, que é específica para crianças

O que é o sarampo? É uma doença infecciosa, causada por um vírus. É grave e extremamente contagiosa. Suas complicações são maiores em crianças menores de um ano de idade e desnutridas.

Quais são os sintomas? Manchas avermelhadas na pele, manchas brancas na parte de dentro das bochechas, febre alta (acima de 38,5°C), tosse, coriza e conjuntivite.

Como ela é transmitida? Pelo contato direto com a secreção do doente (ao espirrar, tossir ou falar), pela mão (tocando objetos infectados e depois levando-a à boca ou nariz) e pelo ar, em ambientes fechados como escolas, creches e clínicas.

Por quanto tempo a transmissão ocorre? De quatro a seis dias antes e até quatro dias após o aparecimento das manchas na pele. O maior risco ocorre dois dias antes e dois dias depois.

Como me prevenir? A única maneira é tomando a vacina.

O que devo fazer se sentir sintomas do sarampo? Procure uma unidade de saúde e evite usar medicamentos por conta própria.

Como funciona o tratamento? Não existe tratamento específico. Crianças podem ser recomendadas a tomar vitamina A para evitar casos graves e fatais. Se não houver complicações, é importante se hidratar, comer comidas leves e manter a febre baixa.

Quem não deve tomar a vacina? Gestantes, bebês com menos de seis meses, pessoas com suspeita de sarampo e imunocomprometidos. Quem já teve a doença também não precisa se imunizar

O que devo fazer se ficar grávida e não estiver vacinada? Espere para ser vacinada após o parto. Caso esteja planejando ter um filho, assegure-se de que está protegida fazendo um exame de sangue e, se não estiver, tome a vacina ao menos quatro semanas antes de engravidar

Quanto tempo a vacina leva para fazer efeito? De duas a três semanas

Não me lembro se fui vacinado, o que devo fazer?  Se tiver até 49 anos de idade, tome a vacina. A partir dessa idade, a imunização deve ser avaliada caso a caso

Por que quem tem 50 anos ou mais não precisa se imunizar? Considera-se que pessoas com essa idade já tiveram contato com o vírus antes. Por isso, reservam-se as doses a quem tem mais risco de contrair a doença

 

Fontes: Ministério da Saúde, Secretaria de Estado de Saúde do RJ e o infectologista Renato Kfouri

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