Atirei com uma arma e me saí bem, mas não faria de novo

Repórter da Folha relata sua primeira visita a um clube de tiro em São Paulo

Magê Flores
São Paulo

​Nunca tinha visto uma arma de perto. Recusei as (poucas) ofertas que me foram feitas. Minha simpatia por projéteis é nula, pra não dizer negativa. Mas, diante do reaquecido debate sobre porte e posse de armas, surgiu a proposta de experimentar, para reportar, atirar pela primeira vez. O relato faria parte de um episódio sobre armamento do novo podcast da Folha e do Spotify, o Café da Manhã. A tensão me pegou imediatamente.

Saquei o telefone e comecei a contatar clubes de tiro. Esclareci que seria minha primeira vez, e que gravaríamos tudo. No dia seguinte, partimos para a pacata Vila Prudente, na zona leste de São Paulo.

A casa, apenas com um símbolo na porta, não dava sinais do que abrigava. Os dois portões de ferro, no entanto, evidenciavam a segurança reforçada. Ao subir as escadas, uma loja com todo tipo de acessório para atiradores —e a descoberta de que “shampoo bélico” é feito para limpar armas, e não para tirar a pólvora do cabelo. O espaço para venda de armas era reservado, discreto até mesmo lá dentro.

Engatamos em uma conversa com o proprietário do clube. Foi importante para deixar a experiência um pouco mais tranquila. O espaço para a prática de tiro ficava em uma espécie de porão, também protegido por um portão de ferro. Depois de conhecer a pistola ainda sem munição, descemos.

Cheiro forte de pólvora e muitos estampidos. O coração disparou naquele ambiente que, apesar de controlado, parecia ameaçador.

Mão suando e respiração difícil, segurei a pistola. Ouvi as regras e a sugestão: “Pensa no seu inimigo”. Não tenho inimigos, respondi. “É uma santa?” Não, só não tem alguém no mundo em quem eu atiraria, pensei. A lógica do inimigo não fez sentido. Preferi me agarrar à do tiro ao alvo. Aparentemente funcionou. Os dez tiros (que pareciam não acabar nunca) foram no alvo. A grande maioria na “cabeça”. O instrutor se animou, deixou o alvo mais distante e depois o colocou em movimento. Aceitei os desafios e, modéstia à parte, me saí bem. “Está na profissão errada”, cheguei a ouvir.

Depois tive que responder se gostei da experiência e se faria de novo. Encabulada com a animação alheia, tentei escapar das respostas. Mas não, não faria de novo. De qualquer forma, já posso dizer que peguei em armas pelo jornalismo.

Ouça o episódio:

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