Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

O Córrego do Feijão precisará de muita ajuda para se reerguer

Rubens Valente e Pedro Ladeira chegaram a Brumadinho 11 horas após rompimento da barragem

Brumadinho (MG)

​Quando eu e o repórter-fotográfico Pedro Ladeira chegamos às pressas de Brasília à comunidade do Córrego do Feijão, um dos pontos mais atingidos pela avalanche de lama, haviam se passado apenas 11 horas desde o rompimento da barragem de Brumadinho (MG).

Encontramos uma comunidade perplexa, zonza, ainda tentando entender o que acontecera. Nas próximas horas, ficaria claro que ela perdeu, entre mortos e desaparecidos, pelo menos 22 de um total estimado de 400 habitantes.

As pessoas se dirigiram ao centro comunitário desse bairro rural distante cerca de 10 km do centro da cidade para passar a noite, alguns em colchonetes, outros sentados em tocos de madeira. Elas afirmavam não imaginar que tamanha devastação um dia ocorreria. Diziam que parecia um filme, um pesadelo.

De fato, a vida no Feijão até a semana retrasada era absolutamente pacata. A noite terminava cedo, às vezes com uma missa na igrejinha do século 18 com o profético nome de Nossa Senhora das Dores, depois de um dia de muito trabalho em duas mineradoras, MIB e Vale, na pousada Nova Estância ou em sítios. Nos finais de semana, uma pelada na quadra de esportes e uma cerveja no bar do seu Nilo ou no mercadinho do Tóti. Praticamente todos se conhecem; são primos, sobrinhos, avós.

Quando se descortina a teia dos parentescos, a dimensão humana da tragédia se torna ainda MAIOR. Uma das moradoras, por exemplo, me disse que perdeu nada menos que sete parentes. Muitos sentiram pelos amigos e vizinhos. É uma comunidade inteira mergulhada no luto. Mesmo assim, atendeu com gentileza jornalistas e documentaristas de todo o mundo que brotaram de todos os cantos.

Em busca de internet, por exemplo, fui orientado a procurar um morador que estava disposto a abrir sua casa para o trabalho dos jornalistas. No momento de me conectar, vi que o nome da rede wifi era o de uma das mulheres desaparecidas sobre a qual eu havia escrito no dia anterior. Só aí me dei conta de que a casa em que eu trabalhava era a casa da família dela, e quem havia oferecido ajuda era seu neto, desesperado por notícias sobre o paradeiro da amada avó —e nem por isso menos solidário.

O desastre ocorrido na mina da Vale jogou pessoas comuns para o centro de acontecimentos extraordinários que alteraram suas vidas de tal forma que provavelmente nunca mais serão as mesmas. Porque o choque brutal, a dor, a perplexidade com as mortes ainda são o começo da série de desafios que a comunidade terá que enfrentar, incluindo uma batalha judicial contra a gigantesca Vale, na base do Davi contra Golias.

E como lidar com a dor? Em um dos enterros, no sábado (2), eu vi quatro pessoas passando mal, duas das quais desmaiaram. Haverá vida econômica sem a mineradora, ou seja, salários dignos, qualidade de vida? Que será de suas crianças e jovens, vão embora tentar a sorte na cidade grande? E os que ficarão para trás?

O Córrego do Feijão foi destruído de muitas maneiras e precisará de muita ajuda para se reerguer.


 

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