Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Dependente da Vale, Brumadinho teme desemprego após desastre

Cidade receia perder verbas para manter serviços básicos como saúde e educação

Carolina Linhares
Brumadinho (MG)

"O que a Vale nos deu, tomou em dobro. Você não vê uma casa que não tenha gente chorando", diz Solange Leni, 42, moradora de Brumadinho (MG).

Ao pensar no futuro, brumadinhenses tentam sopesar a preponderância da Vale para os empregos da região e a responsabilidade de uma empresa que colocou funcionários e moradores em risco.

Como mostrou a Folha, o plano de emergência da mineradora já previa que um rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, como ocorreu na sexta (25), destruiria áreas como o refeitório e a administração.

Até a tarde de sábado (2), o rompimento já deixou 121 mortos e contabiliza ainda 226 desaparecidos.

Entre os moradores, há quem diga que a cidade acabou. Outros tentam dissociá-la do rompimento.

"O correto é falar tragédia da Vale, não tragédia de Brumadinho, para não ficar o estigma. Foi um crime", diz Mário Brito, 64, primo da secretária municipal e professora de direito Sirlei de Brito Ribeiro, que era crítica à mineração e morreu soterrada.

Para Brito, a mineração na cidade deveria incorporar novas técnicas, livres de perigo e de danos ao meio ambiente. A Vale já anunciou que descaracterizará todas as suas barragens construídas pelo método de alteamento a montante.

Outra solução seria apostar mais no turismo do que na mineração, mas, segundo o prefeito Avimar de Melo Barcelos (PV), a atividade não é significativa para a economia do município, mesmo com Inhotim --que não foi atingido, mas está fechado por tempo indeterminado.

A tragédia também traz reflexos para pousadas. Na Estrada Real, por exemplo, reservas do fim de semana foram canceladas. A gerente do local perdeu sua casa, enquanto os proprietários se ocupam de enterrar conhecidos.

Moradores estão descrentes em relação ao turismo. Dizem que o Inhotim emprega muitas pessoas de fora da cidade e tem salários piores que os da Vale. Também temem que, por medo, turistas não queiram visitar Brumadinho.

Brito faz a avaliação inversa. "O turismo deve aumentar por conta dos curiosos. A pessoa aproveita que já vai até o Inhotim, que é referência mundial", diz.

Hoje, a Vale responde por 35% da arrecadação de Brumadinho. "Somos uma cidade mineradora. Sem isso, não mantemos serviços essenciais, saúde, educação. Vai falir a cidade, o comércio, não sabemos como andar daqui para frente", diz o prefeito Avimar.

A Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), taxa que as mineradoras devem pagar aos municípios, representa 60% da verba da cidade. A Vale se comprometeu a continuar fazendo o repasse, mesmo com as atividades interrompidas.

No total, a empresa pagará R$ 80 milhões em dois anos a Brumadinho –medida que não foi tomada em Mariana (MG), onde o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, matou 19 e espalhou rejeitos de mineração por 650 km do rio Doce. Ali, a paralisação da Samarco já dura mais de três anos, impondo crise e desemprego ao município.

Justamente pela experiência de Mariana há o medo de que a ajuda fique só na promessa.

O estado de Minas Gerais, por exemplo, em situação de calamidade financeira, não vinha pagando nem os repasses obrigatórios aos municípios.

Segundo Avimar, o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, assumiu compromisso de instalar uma fábrica de leite em pó na cidade. "Uma hora a gente vai ter que ter rendas de outras formas, sem ser mineração. Mas ainda não conseguimos pensar nesse plano", disse.

A Vale, maior empregadora particular de Brumadinho, tem cerca de mil funcionários, além de outros mil terceirizados. A cidade tem cerca de 40 mil habitantes, sendo quase 9.000 ocupados.

Aldinei Pereira Sobrinho, 34, comerciante e presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Brumadinho, diz que a queda nas vendas na última semana foi de 90%.

"O comércio reabriu a partir de terça (29), mas alguns funcionários não têm condição de trabalhar porque perderam tio, primo, pai. Hoje eu fui em três velórios", diz.

A entidade não tem uma projeção de quanto as vendas devem cair no futuro, mas trabalha com a certeza de que haverá crise e desemprego.

Embora Brumadinho esteja imersa em uma tragédia humana, a lama não varreu o centro cidade. Apenas dois bairros, mais afastados e rurais, tiveram casas destruídas: Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão.

Numa oração para as vítimas na última terça (29), moradores exaltaram o município e reclamaram que as notícias, ao falar em “cidade de Brumadinho”, dão a entender que estão todos debaixo da lama.

O mesmo aconteceu com Mariana, onde os habitantes têm a mesma reclamação até hoje: precisam esclarecer que distritos rurais foram atingidos, mas a sede não.

Muitos brumadinhenses receberam ligações e até visitas de parentes que não viam há muito tempo, preocupados em saber se suas casas estavam de pé. “Todo mundo de fora imagina que foi a cidade toda”, diz Sidney Adão, 43, funcionário de um supermercado.

Mauro Soares, 75, que lembra do Paraopeba “claro e com peixe para danar”, não se deixa abater pela nova cor enlameada do rio que atravessa a cidade. “Muita gente acha que aqui acabou, mas a vida continua.”

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