Pedaços de parede da mina em Barão de Cocais (MG) se desprendem, diz Vale

Há semanas, população da cidade mineira vive na expectativa do rompimento

Belo Horizonte

Pedaços da parede interna ao norte da mina Gongo Soco, em Barão de Cocais (MG), caíram na madrugada desta sexta-feira (31), segundo a mineradora Vale, responsável por administrar a estrutura. 

A parte desprendida mede 20 metros por 30 e equivale a menos de 1% do tamanho total da estrutura, de acordo com a Defesa Civil de Minas Gerais. O chamado talude —uma encosta íngreme— tem 192 metros de altura e 500 de largura. 

A barragem da mina Gongo Soco, da Vale, em Barão de Cocais (MG)
A barragem da mina Gongo Soco, da Vale, em Barão de Cocais (MG) - Leonardo Benassatto - 23.mai.2019/Reuters

Os pedaços da parede que caíram se esfarelaram e escorregaram como areia para o centro da mina. Segundo o major Marcos Pereira, o deslizamento pode ajudar a estabilizar a estrutura a partir de agora, porque tira a tensão da base. 

“É natural que de agora em diante, segundo os técnicos da empresa, esse movimento vá acontecendo dentro do que era esperado. Ou seja, um movimento de assentamento, de escorregamento do talude”, afirma o major. 

O movimento desta sexta-feira afasta a possibilidade de uma queda brusca e única do material da parede, o que poderia provocar vibrações no solo e ser gatilho para o rompimento da barragem Sul Superior. 

Há semanas, os moradores de Barão de Cocais, que fica a 80 km da capital Belo Horizonte, vivem na iminência de uma queda da estrutura, para descobrir quais seriam as consequências dela e se ela poderia provocar o terceiro rompimento de barragens em três anos e meio em Minas Gerais.

Segundo a Vale, avaliações confirmam que o material está tendo deslizamento gradual. Na terça-feira (28), a mineradora divulgou um comunicado, com análises técnicas, apontando que a queda da estrutura não deveria interferir na situação da barragem Sul Superior, a 1,5 km de distância. 

Parte da parede da mina vinha registrando deslocamento de 15 a 20 centímetros ao ano, desde 2012, segundo manifestação que a Vale entregou à Justiça de Minas Gerais. A Agência Nacional de Mineração havia divulgado que seriam 10 centímetros ao ano. Desde o fim de 2018, porém, o deslocamento total foi de dois metros, segundo a ANM. 

Na quinta-feira, a parte inferior do talude estava com velocidade de deformação de 24,6 centímetros por dia. Em pontos isolados, já havia atingido 29,1 centímetros por dia. 

Em fevereiro, cerca de 440 pessoas foram retiradas da zona de auto salvamento, a primeira a ser atingida em caso de rompimento, quando a barragem teve nível de risco elevado para 2. No final de março, o nível de risco aumentou para 3 —o último grau, que significa ruptura iminente ou em curso. 

Mesmo que a queda do talude não cause o rompimento, a situação da barragem de rejeitos ainda preocupa. A Vale diz que continua monitorando a estrutura. 

Segundo a Defesa Civil de Minas Gerais, cerca de 10 mil pessoas estão em áreas que podem ser inundadas em Barão de Cocais, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo. Destas, 6.000 vivem em Barão de Cocais, onde a lama chegaria dentro de 1h12.

O "dam break" (estudo de hipóteses de rompimento) aponta que as inundações se estenderiam até 72,5 km, sendo mais expressivas nos primeiros 52 km. 

Os moradores vinham tendo reuniões com a Vale sobre segurança antes de acontecer o rompimento da barragem na mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. A tragédia, ocorrida no dia 25 de janeiro, deixou 245 mortos e 25 desaparecidos.

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