Descrição de chapéu Tragédia em Brumadinho

Mãe de vítima de Brumadinho sonha com ossos para enterrar

Seis meses após barragem da Vale romper, 22 pessoas não foram encontradas

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

Iolanda de Oliveira Silva, 49, caminha por cima da lama despejada no rompimento da barragem B1, na mina Córrego do Feijão. Vê homens de branco, que não são bombeiros, fazendo buscas, como ela. 

De repente, ela para e grita: “Aqui tem osso, olha um ossinho, achei a camisa dele”. Mais um dos sonhos que teve nos últimos seis meses esperando notícias do filho Robert Ruan Oliveira Teodoro, 19. 

“[Minha família disse] que um dia desses eu danei a gritar à noite: achei ele, achei ele, ele está aqui!”, conta ela. Mesmo tomando remédios, o sono não é mais de descanso. “Eu não sei nem como eu estou…Estou esperando ele voltar”. 

Robert está entre as 22 pessoas ainda desaparecidas na tragédia de Brumadinho. Os “sem contato” para a Vale. 

Trajédia em Brumadinho completa seis meses

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À esquerda, lama invade casas no Parque da Cachoeira em 26 de janeiro; um semestre depois, o local permanece tomado pelo barro - Eduardo Anizelli/Folhapress

Além dele, as famílias esperam notícias de Angelita, Aroldo, Carlos Henrique, Cristiane, Elis Marina, João Marcos, João Paulo, João Tomaz, Juliana, Lecilda, Luciano, Luis Felipe, Maria de Lurdes, Max Elias, Miraceibel, Nathalia, Noel, Olímpio, Renato, Tiago e Uberlândio. 

O cruzamento de dados feito pelos bombeiros, com entrevistas, sinais de celular e objetos já resgatados, dá uma ideia aproximada do lugar onde cada um estava na hora do rompimento. Não há previsão para o fim das buscas. 

Falando do filho, volta e meia Iolanda olha para o portão da garagem. Foi ali que viu Robert pela última vez, em 25 de janeiro. Ele estava mexendo no telefone quando bateu o portão e foi pegar o ônibus. 

Dois meses e quatro dias antes, o jovem tinha vivido uma  tragédia. O irmão gêmeo, Richard, foi assassinado pelo namorado da sogra. Robert encontrou o irmão caído na rua, cinco tiros nas costas, um na cabeça. 

Eram inseparáveis. Jogavam bola juntos em Melo Franco, distrito de Brumadinho. Tinham o mesmo grupo de amigos. Dividiam as roupas, correntes, bonés. Frequentavam a mesma igreja evangélica com a mãe. Conseguiram o primeiro emprego juntos na Preserves, terceirizada da Vale, em 2018, e iam juntos para a mina Córrego do Feijão. 

A notícia da gravidez de gêmeos para Iolanda, que já era mãe de três, foi um susto. Mas os dois meninos não deram muito trabalho, diz ela. Quando tinham cinco anos, a família sofreu um golpe duro: a morte do filho mais velho, Michael, 16, por leucemia. 

Mais tarde, sem Richard, Robert entrou em depressão. Começou a tomar remédios, pediu para a mãe para deixarem a zona rural e mudarem-se para Brumadinho. Tudo lembrava o irmão. Ela atendeu. 

Três dias antes da sexta-feira do rompimento, Iolanda tinha conseguido crédito para ajudar o filho a comprar um carro. Robert estava fazendo autoescola. “Como saiu a esmola que eles deram, de R$ 100 mil, eu fui lá e comprei esse carro para a realizar o sonho dele. Já que eu não pude realizar em vida, realizo depois de morto”, diz ela, mostrando um Fiat Adventure na garagem.

Pelo carro, ela foi criticada. Iolanda conta que as pessoas acham que ficou rica, que está bem. Apareceram no portão de sua casa oferecendo casa para comprar. Ela nem foi atrás da indenização trabalhista a que tem direito pelo acordo entre a Vale e o Ministério Público do Trabalho. 

A Vale foi engolindo os trabalhadores todos vivos. Já tinha feito a contagem dos valores, para poder levar cada um, que não valia nada para ela”, diz se referindo ao estudo para caso de rompimento. 

“Eu, se pudesse não fazer [acordo], não fazia, mas a Vale acabou comigo e com muitas famílias. Ela merece ser penalizada. Se eu pudesse tirar tudo dela, eu tirava”. 

Iolanda diz que, 20 dias antes da tragédia, o filho chegou em casa contando que estava vazando água da barragem. Funcionários da Vale também relataram vazamentos para a CPI da Assembleia Legislativa de MG. 

No dia 25, às 13h, Iolanda, que é empregada doméstica, estava trabalhando na casa dos patrões. Às 17h, iria até a rodoviária para entregar a sacola de lona preta do filho, que ele levaria para a casa da namorada no fim de semana. 

O telefone tocou com a filha avisando que a barragem havia rompido. “Falei: o Robert foi embora. Foi o horário que ele foi almoçar. Acaba tudo para a gente, o mundo acaba”. 

A mãe correu atrás de notícias. Quando via ônibus chegando com funcionários da Vale, achava que ia ver o rosto do filho. Pegou um segurança, que estava todo arranhado, pela camisa, e pediu, por favor, qualquer notícia. 

A espera já leva seis meses. Iolanda não sai de casa à espera do aviso de que o filho foi encontrado. Sofre pensando que não vai poder vê-lo no caixão, como foi com os outros dois. 

Conta com dor sobre conhecidos que enterraram apenas partes dos familiares —braço, perna, mão— o que mostra a violência da onda de lama. Os caixões leves, quase vazios, são comuns nos enterros ali. Segundo a Polícia Civil, só 79 corpos foram encontrados intactos —são 248 mortos além dos 22 desaparecidos. 

Iolanda quer enterrar o filho e ir embora. A mãe dela, Efigênia de Oliveira Silva, 69, ainda vive lá. Todos os fins de semana ela vai para a casa da filha para cozinhar e fazê-la comer. “Em casa, eu fico lá e não tenho expediente de mexer com nada. Lavo uma roupa, saio lá fora e só penso que tristeza que está o lugar”, diz. 

O filho dela, tio de Robert e funcionário da Vale, largou o turno às 7h naquele dia e escapou. Robert brincava de pedir o uniforme dele, com a logomarca da empresa, para tirar foto, diz Iolanda. Ele pensava em estudar engenharia de mineração para um dia trabalhar lá e dar uma vida melhor à mãe. 

O celular, onde guarda as fotos do filho, Iolanda não larga. Fica olhando para uma delas, em que ele está feliz, um dia antes da morte. Na angústia da espera prolongada, sobre os homens de branco do sonho, ela diz: “Tomara que sejam anjos que apareceram para encontrar ele, né?”.

94 famílias estão em residências temporárias ou casas de parentes 

Entre 6 e 7 milhões de m³ do material que vazou da barragem está no trecho 1, onde ficava refeitório e setor administrativo

2.300 bombeiros de MG, de outros 14 estados e de Israel já passaram pela operação
164 bombeiros trabalham por dia nas buscas 

24 frentes trabalham cobrindo 4 milhões de m²

80% dos segmentos de corpos foram encontrados pelos 62 cães e tutores da operação

79 corpos foram encontrados intactos

699 casos de corpos e segmentos foram contabilizados

499 segmentos já foram identificados ou solucionados

121 segmentos ainda esperam identificação

Fonte: Vale, PCMG e CBMMG


Perguntas ainda sem resposta

Quem investiga o caso? 
A investigação sobre o rompimento da barragem B1 da mina do Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadiinho, é feita em inquéritos da Polícia Federal, em colaboração com o Ministério Público Federal, e em uma força-tarefa entre Polícia Civil e Promotoria de MG. Também foram formadas comissões parlamentares de inquérito no Senado, na Câmara e na Assembleia Legislativa. 

O que causou o rompimento da barragem? 
Extraoficialmente, há consenso que ele se deu por liquefação —quando o material sólido passa a se comportar como líquido. A dúvida é qual foi o gatilho. A possibilidade de que a causa seja a elevação de um lençol freático, embaixo da barragem, foi levantada na CPI da Assembleia Legislativa de MG. Nas imagens do vídeo do rompimento, no canto esquerdo, é possível identificar uma cachoeira de água saindo por baixo, junto com a lama. 

Por que a Vale não trocou o local do refeitório e da área administrativa? 
A empresa diz não haver impedimento para construções em zona de autossalvamento. A onda chegou aos edifícios em 28 segundos e a rota de fuga, conforme estudo, levaria no mínimo 6 minutos para evacuação total. O mapa da mancha de inundação mostra que eles seriam atingidos. A Vale estima hoje que entre 6 e 7 milhões de metros cúbicos de rejeito estejam nessa área.

Por que as sirenes não tocaram? 
Nenhuma sirene da região foi afetada pela lama e, menos de dois dias depois do rompimento, elas funcio-naram. As sirenes são acio-nadas no Centro de Controle Emergencial e Comunicações, em Itabira, a 115 km. Sete meses antes da tragédia, elas teriam apresentado falha, segundo a Defesa Civil de MG

A barragem era estável? 
A dúvida é a validade da Declaração de Condição de Estabilidade feita pela Tüv-Süd em 2018. A empresa teria considerado a estrutura dentro do padrão aceitável com fator de segurança 1,09 —a meta seria 1,3. Se comprovado crime, a Tüv-Süd pode responder por falsidade ideológica por criar documento falso, e a Vale pelo uso de documento falso junto a órgãos de fiscalização. 

Quem são os culpados? 
Segundo a CPI da Assembleia mineira até agora, é possível afirmar que havia ciência da situação de risco da B1 até o nível 3 de hierarquia —o diretor de planejamento Lúcio Cavalli e o diretor de Operações Sul-Sudeste Silmar Silva. Acima deles estavam apenas os níveis 2 e 1: o diretor-executivo de Ferrosos e Carvão, Peter Poppinga, e o diretor-presidente, Fabio Schvartsman. A CPI do Senado pediu o indiciamento dos quatro e de mais 10 pessoas. Entre os crimes apontados está homicídio com dolo eventual —quando o agente assume o risco de matar.

Fontes: Vale, PF, Assembleia Legislativa de MG, Senado 

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