É um problema ser a única negra, diz brasileira convidada para conferência da Apple

Ana Carolina da Hora, 24, de Duque de Caxias (RJ), viajou para fora do país pela 1ª vez para participar de evento

Jefferson Barbosa
Rio de Janeiro

Sentada na primeira fila, Ana Carolina da Hora, 24, exibia o mesmo sorriso de todos os outros jovens na foto que registrava a realização de um sonho. Nina, como é chamada, era a única negra entre os 350 jovens de vários países selecionados pela Apple para participar da Conferência WWDC18, que dá a desenvolvedores a oportunidade de aprender a criar novas experiências em plataformas da empresa. 

“O maior problema é ser a única em muitos lugares”, resume a estudante de computação, que pela primeira vez viajava para fora do Brasil. 

Ana Carolina da Hora, 24, aluna de ciência da computação de Duque de Caxias (RJ)
Ana Carolina da Hora, 24, aluna de ciência da computação de Duque de Caxias (RJ) - Ricardo Borges/Folhapress

Nina conta que tem cinco mães: a mãe biológica Ana Cláudia, 50, que é professora desempregada; a avó Maria Solange, 79, e três tias. Desde pequena recebe incentivo das matriarcas: “No meu aniversário de 15 anos elas se juntaram para me dar de presente um Arduino [placa de linguagem de programação]”, conta ela, se lembrando do esforço que elas fizeram para comprar o presente.
 
Na adolescência, Nina se interessou pela ideia de ser cientista, ainda que não tivesse ninguém em quem se espelhar. Com o tempo, o gosto por tecnologia e por educação foi se misturando.

Ela diz que, assim que terminar a faculdade em 2020, pretende seguir na vida acadêmica. Quer voltar para o campus da PUC-Rio, como professora. “Pretendo fazer mestrado e doutorado na Universidade Stanford, no Estados Unidos, e na Nigéria.” 

Nina é a terceira mulher negra a se formar em Ciência da Computação da PUC-Rio, desde que o curso surgiu, há dez anos. Fala que os olhares das pessoas a incomodam e que é cansativo ter o tempo todo que se reafirmar, buscando ser a melhor. “São incômodos que, pelo fato de ser negra, não vou deixar de ter; por isso preciso trazer outras meninas.” 

Sua história de dificuldades é semelhante à de milhares de jovens da Baixada Fluminense, onde nasceu. “Ter que dormir tarde e acordar muito cedo é uma coisa complicada”,  afirma ela, que tem de enfrentar trânsito e tiroteios e gasta a maior parte de seu dinheiro com transporte.

Durante a semana, acorda às 4h, o que permite que tome café com a avó. Leva quase três horas entre sua casa, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e a PUC, na Gávea, na zona sul carioca. "Basicamente trabalho para me locomover", mas, brinca, "pelo menos desenvolvi a ‘arte’ de me equilibrar no trem lotado e o hábito da leitura nos trajetos”.

Para chegar ao evento da Apple, na Universidade Estadual de San José, na Califórnia, a estudante teve que desenvolver um jogo. Nele, o objetivo da usuária era chegar ao encontro, a partir do uso de geolocalização e da identificação de mulheres programadoras. “As programadoras viam os rostos de outras meninas tristes, quando se encontravam ficavam felizes e formavam uma fila para o WWDC.”

Durante o processo, ela teve o apoio de amigos que traduziram suas cartas de recomendação. Nina chegou a se matricular em um curso do idioma, mas o preço se tornou insustentável. A professora, no entanto, continua lhe dando aulas.

Dezenas de jovens, sentados e em pé, alguns com medalhas no peito, posam para uma imagem em conjunto
Ana Carolina da Hora, 24, em meio a parte da turma em conferência da Apple, na Califórnia - Divulgação

Virou noites aprendendo a linguagem Swift, exigida pela empresa, e finalizando o aplicativo. Concentrada, ouviu do quarto quando a família cantava os parabéns para a mãe. “Sozinha não consigo vencer esses desafios.”

Ricardo Veneris, mentor do Apple Developer Academy PUC-Rio, laboratório onde ela estagia, tem sido uma das pessoas importantes para suas conquistas. Nesse estágio, ela trabalha com pesquisa científica e software para solucionar desafios. Também recebe treinamentos de programação e liderança. “A Nina se propõe a trabalhar a computação de uma forma que a avó dela entenda”, diz Veneris. Atualmente ela cria um aplicativo que utiliza robótica e realidade aumentada.

Para Veneris, a ciência da computação precisa ser explorada como uma nova linguagem essencial para todos e a cientista de Caxias “tem o talento de deixar isso mais próximo da pessoa comum”. 

As mulheres são apenas 13,3% dos alunos nos cursos de computação do país, segundo o Censo da Educação Superior de 2016. Dos que estão fazendo algum curso superior relacionado à computação e tecnologia, 15,53% são mulheres, de acordo com o levantamento feito pelo Inep/MEC em 2013.

Segundo pesquisa do Pew Research Center realizada nos Estados Unidos em 2017, 62% dos homens e mulheres das áreas de Ciência, Tecnologia, Matemática e Engenharia afirmaram ter enfrentado discriminação no trabalho por sua raça ou etnia. 

“As minhas expectativas são baixas, não sei como vai estar a situação quando eu me formar, depende dos incentivos públicos e privados. A universidade ainda é um privilégio, não sei se vou conseguir seguir carreira no Brasil, mas certamente quero voltar para cá depois”, diz Nina.

Ela acredita que a computação não tem que estar separada de outras áreas: “quem está se formando precisa misturar engenharia com música, física com ciência política.” A partir de uma receita de bolo ela conseguiu explicar para a avó o que é programação, por exemplo.

Nina atualmente preside o ramo estudantil do IEEE (Instituto de Engenheiros Eletrotécnicos e Eletrônicos) na faculdade e se reveza entre o estágio no Apple Developer Academy PUC-Rio e o trabalho no Computação sem caô, projeto criado por ela no qual simplifica questões da ciência da computação no YouTube e no Instagram.

No canal no YouTube, os vídeos curtos vão desde explicações sobre como a Netflix sabe o que você quer assistir a questões ligadas ao fato de trabalhar com computação sendo uma mulher e negra.

Com o apoio que conseguiu da Instituto Serrapilheira, quer transformar o Computação sem caô em uma rede nacional, e até internacional, de pesquisadores e estudantes para outras pessoas aprenderem computação. ​

Para Sil Bahia, coordenadora da ONG Olabi, Ana Carolina da Hora é alguém que tem construído o futuro. “A gente trabalha para que o futuro seja mais inclusivo, um futuro menos hostil, que tenha a alegria que a Ana tem, a gente olha pro futuro e não consegue vê-lo sem o protagonismo de meninas como ela.”

Veneris, entretanto, lamenta que ela pode vir a ser mais um cerébro brasileiro rumo ao exterior. “Infelizmente, a partir das coisas em que ela vem se aprimorando, ela não deve se encontrar oportunidades no Brasil. Para ela explorar todo o potencial que tem, com certeza deve sair do país.”

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