Descrição de chapéu Perspectivas

Computação quântica transformará cultura digital, afirma autor

Para pesquisador, artistas são fundamentais para decifrar mudanças tecnológicas

Marcos Cuzziol

Uma boa maneira de perceber melhor nosso tempo é acompanhar o que se produz em arte. Muitos trabalhos artísticos apontam brechas, possibilidades e mesmo desconfortos que, via de regra, passam despercebidos na aparente solidez de nossa cultura. Obras de arte são como janelas que nos permitem perceber aspectos da realidade sob outros pontos de vista e ganham, por esse motivo, especial importância em momentos de mudanças.

Penso especificamente na cultura digital, onipresente, embasada em dois pilares. Primeiro: nela, todo dado —absolutamente todo— é composto por números. Por isso o termo “digital”. Uma imagem, por exemplo, é composta por números que armazenam valores de cor de seus pixels. Um arquivo de música é formado por uma sequência de números que define a forma de sua onda sonora. Num arquivo de texto, números representam caracteres e sua formatação gráfica. Um programa de computador também é formado por números, que definem instruções, variáveis, posições de memória etc.

Segundo: os dados que compõem arquivos digitais podem ser computados. Por exemplo, para aumentar ou diminuir a saturação de cor de uma imagem digital, multiplicam-se os valores dos pixels por fatores numéricos. De modo similar, altera-se o volume ou a frequência de um som. É uma característica simples, mas de importância fundamental: qualquer dado digital pode ser computado por programas.

Já nas décadas de 1960 e 1970, quando grandes e caros computadores eram usados principalmente para processar tabelas simples de dados, como folhas de pagamento, Waldemar Cordeiro criou obras artísticas digitais. “A Mulher que Não É B.B.” (1973) é um bom exemplo.

Nota-se que computadores da época, como o IBM 360 do Instituto de Física da USP, não tinham sequer monitores: os resultados dos programas, invariavelmente listagens numéricas ou textuais, saíam em folhas contínuas de papel, a partir de barulhentas impressoras matriciais. Cordeiro digitalizava manualmente fotografias, transcrevia os dados para cartões perfurados, e o programa criado computava valores numéricos de claro e escuro: quanto mais escuro, mais caracteres eram impressos uns sobre os outros.

Como resultado, aquele equipamento, originalmente projetado para emitir listagens apenas numéricas ou textuais, imprimia imagens de inegável poética.

Atualmente, computadores muito menores e mais baratos trabalham com imagens de alta resolução de modo corriqueiro. Há, porém, várias outras fronteiras exploradas por artistas.

Obra "Deep Meditation" (2018), do artista Memo Akten
Obra "Deep Meditation" (2018), do artista Memo Akten - Divulgação

Por exemplo, algoritmos de “aprendizado de máquina”, que identificam padrões em grandes volumes de dados, são cada vez mais utilizados em nosso dia a dia. Esses algoritmos estão em ação quando recebemos sugestões de vídeos ou produtos com base em nossas escolhas anteriores, quando usamos um tradutor ou conversamos com a assistente de nosso celular, e em muitas outras situações das quais, normalmente, não nos damos conta.

Em trabalhos artísticos como “Deep Meditations” (2018), de Memo Akten, algoritmos similares interpretam imagens e sons, criando novas relações —não como mera ferramenta para uma pessoa ou para uma empresa, mas de forma autônoma. E cabe a nós, seres humanos, reinterpretar o que foi processado pelo algoritmo.

Como qualquer sistema digital, as obras citadas aqui como exemplos baseiam-se nos pilares mencionados anteriormente: dados numéricos e computação. Porém há motivos para crer que essa base será abalada nos próximos anos. A computação digital clássica, que estrutura boa parte de nossa cultura atual, pode ser substituída em breve pela computação quântica.

Na computação digital, qualquer número assume um único valor por vez. Esse é o padrão com que estamos acostumados. Uma letra deste arquivo de texto é representada por um número, a letra seguinte, por outro, e assim por diante. Não é assim em um computador quântico.

Uma variável formada por bits quânticos assume, simultaneamente, todos os valores possíveis. É difícil até imaginar, mas um arquivo de texto formado por bits quânticos não armazena um único texto: ele é a sobreposição de todos os textos possíveis para aquele mesmo número de caracteres. Todos. De sequências incompreensíveis até textos que ainda nem foram escritos. Uma versão assustadora de “A Biblioteca de Babel”, conto de Jorge Luis Borges, num único arquivo.

Outra característica diferente: quando um algoritmo quântico age sobre variáveis, o faz sobre todos os valores possíveis simultaneamente —não é preciso processar valores um depois do outro, como na computação clássica.

Ora, se tanto o conjunto de valores numéricos quanto sua computação são tão radicalmente diferentes, o que esperar de um futuro próximo, em que computadores quânticos provavelmente substituirão os digitais? É difícil prever, pois não se trata apenas de um aumento de velocidade, como vem ocorrendo até agora. Estamos diante de uma forma muito diferente de processamento de dados.

De qualquer modo, para que possamos vislumbrar possíveis perspectivas do que está por vir, acredito ser fundamental acompanhar o trabalho de artistas que, certamente, desbravarão essas novas fronteiras do conhecimento com sua arte.


Marcos Cuzziol, engenheiro, doutor em artes e desenvolvedor de games, é gerente do Núcleo de Inovação do Itaú Cultural e idealizador da mostra “Consciência Cibernética [?] Horizonte Quântico”.

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