Livraria vende obras sob medida e promove 100 eventos artísticos por ano

Local, que fica na zona oeste de SP, é tocado há 37 anos por livreiro que resiste a modismos literários

São Paulo

Lúcio Zaccara diz que “a livraria é uma página em branco e todos os dias nós escrevemos esta história da melhor maneira possível”. 

O livreiro, que faz isso há 37 anos, tem o raro hábito de ler tudo aquilo que vende em sua loja, nas Perdizes, zona oeste de São Paulo, para recomendar títulos ao gosto do freguês, sob medida, ouvindo cada cliente com muita paciência.

Como se fosse o dono de uma velha alfaiataria, não é um bom comerciante. Não sabe quantos títulos tem nas estantes, nem quantos livros vende por mês. Na livraria dele não entram autobiografias de youtubers nem livros de autoajuda.

Só sabe que criou os dois filhos e tira seu sustento vendendo livros e discos espalhados no térreo da casa onde também mora. E nunca teve empregados.

Lucio Zaccara, proprietário da Livraria Zaccara, em Perdizes - Bruno Santos/ Folhapress

No andar superior, com pé direito de sete metros, onde promove cerca de cem eventos por ano (música, teatro, exposições, lançamentos de livros, cursos e mesas literárias), depois de subir uma escada de pastilhas, chega-se a uma sala de visitas com sofás, poltronas e muitas obras de arte e antiguidades, algumas delas também à venda.

Tudo ali, do teto de madeira corrida aos móveis, foi feito com as próprias mãos, dele e da mulher Cris, 60, uma discreta goiana formada em economia, mas também carpinteira, marceneira, pedreira, tapeceira, boleira, artesã —e livreira, claro.

“Se alguém faz, eu também faço”, Cris costumava dizer ao convocar o marido, durante a reforma do sobrado comprado em 1997 para instalar a livraria.

O relicário fica na rua Cardoso de Almeida, 1356, a um quarteirão da lojinha de discos que abriram no início dos anos 1980, quando começou a aventura literária-conjugal. A reforma levou quase dez anos.

Avessos a marketing, promoções, badalações, fotografias e entrevistas, resolveram abrir uma exceção ao receber a reportagem da Folha.

“A gente gosta mais de fazer do que de falar. O importante é o trabalho, não a gente”, afirma o livreiro.
Cada cantinho daquela casa tem uma história, cada livro tem um motivo para estar ali. Aos 62 anos, o paulistano Lúcio conta tudo de memória, não tem nada anotado. 

Livreiro não sabe ao certo quantos livros dispõem; local existe há 37 anos - Bruno Santos/ Folhapress

O jovem Lúcio, que conheceu Cris na PUC, também nas Perdizes, largou o curso de Direito para se dedicar só à sua paixão pela literatura e pela música, e também por todas as formas de arte e cultura.

A inspiração veio do avô, Leonardo, que era músico e ator do Circo Piolim, um dos berços do teatro paulistano, onde foi colega de Mario Lago. 

“Meu avô era pobre, mas naquele tempo os pobres tinham mais acesso à cultura. Ele assistia a todos os espetáculos do Teatro Municipal de graça”.

Após abrir a loja de discos, com 50 vinis usados de MPB, rock, jazz e música clássica, seus gêneros musicais preferidos, Lúcio começou a desenvolver sua arte para descobrir o gosto de cada cliente e orientá-lo sobre o que tinha na prateleira. 

“A gente precisa aprender a ouvir antes de falar, conhecer as histórias das pessoas”. Vai ver que por isso os clientes acabam voltando e ficando seus amigos. Conhece a maioria pelo nome e recebe-os à porta.

Em seu peculiar método de vendas, o livreiro dá mais atenção a obras de “fundo de catálogo”, que já não são reeditadas, do que aos best-sellers das listas de revistas e jornais.

Mas ele não é radical. “Não é porque o livro vende muito que é necessariamente ruim, mas é preciso oferecer ao leitor outras opções de qualidade”. Na última semana, por exemplo, a Zaccara tinha à venda “Prólogo, Ato e Epílogo”, de Fernanda Montenegro, o grande sucesso da estação. “Só está aqui porque o livro é bom...”

Por isso, procura manter nas estantes muitos títulos, mas poucos exemplares de cada —nada daquelas pilhas de livros das grandes redes.

Sem usar relógio nem celular, também não quer saber de redes sociais para divulgar seu estoque e os eventos. “Para que? As pessoas vêm aqui e eu ofereço o que tenho. Gosto do olho no olho. Se por acaso não tiver um livro, encomendo, e logo o cliente recebe”.

Detalhes de títulos dispostos em estante da livraria de Lucio Zaccara, proprietário da Livraria Zaccara, em Perdizes - Bruno Santos/ Folhapress

No seu catálogo particular, seus livros preferidos são “Mary Ventura e o Nono Reino”, de Silvia Plath, uma americana que morreu com 30 anos, e “Sumchi”, do escritor israelense Amos Oz. Na nova geração de autores nacionais, Lúcio destaca André Nigri, escritor mineiro, que ele apresentou à editora Reformatório.

“A livraria é um espaço de encontro entre leitores, autores e editores, onde as ideias e os projetos circulam. A única coisa que não podem nos tirar é o nosso raciocínio, a capacidade de criar”.

Lúcio já chegou a ler 20 livros num mês quando foi jurado do Prêmio de Literatura de São Paulo, promovido pelo governo do Estado.

Quando não estão lendo ou atendendo à freguesia, o casal gosta de ir a espetáculos de música, dança e teatro. Além dos pocket-shows que promovem em sua própria sala de visitas, com 24 lugares, também há leitura de peças de teatro, avaliadas por curadores para fazer parte da grade de programação do Sesc.

De textos de Shakespeare a “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, com Dino Galvão Bueno ao violão, já teve de tudo um pouco por lá.

Com dois filhos de 34 e 31 anos, que não se interessam muito pela livraria, agora a esperança do casal para encontrar a quem deixar esse legado, é a neta Helena, de um ano.

“Daqui a 20 anos, quem sabe, você vem aqui para entrevistar a Helena”, diz este livreiro atípico, um inveterado otimista, que só faz o que gosta e se diverte com o que faz.

Livraria  Zaccara - Rua Cardoso de Almeida, 1356, Perdizes

De segunda a sexta-feira, das 10h às 19h
Sábados das 10h às 18h
Fone: 3384 0908

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