Descrição de chapéu Rio de Janeiro

Pequena África recebe turismo que resgata história negra do Rio

Passeios ocorrem na zona portuária, que abriga cemitério de pretos novos, descoberto em 1996, e berço do samba

A guia Dandara Vianna durante tour pelo barracão da Grande Rio, na Cidade do Samba Raquel Cunha/Folhapress

Rio de Janeiro

Esqueça Cristo Redentor, Pão de Açúcar ou praia de Ipanema. Deixe de lado a zona sul, a imagem dos morros refletidos na Baía de Guanabara e a ideia dos corpos sarados correndo sob o sol. Se vire mais ao norte, para a região central do Rio de Janeiro

É ali que mora a história da segunda capital do país, e um setor do turismo vem tentando mudar a forma como ela é contada. Já são diversos tours que circulam a pé por lá e desenterram, quase literalmente, a trajetória e herança dos africanos que ali passaram.

Eles acontecem apenas algumas ruas “para dentro” do famoso Museu do Amanhã, na área portuária chamada de Pequena África. O nome vem da grande quantidade de negros que, com o fim da escravidão, se instalaram no local, onde já existia uma comunidade africana.

Mas não é qualquer um que pode narrar essa história, diz o guia de turismo Well Rodrigues, 26, “negro, gay e periférico com muito orgulho”, enquanto anda pelas ruelas de pedra. “Me incomoda quando pessoas usam esse lugar apenas com interesse comercial. Um guia alemão fazendo esse tour não faz sentido.”

Ele e seus colegas da agência Rio by Foot criaram seu roteiro —batizado de Carnaval, Samba e Resistência— há dois anos. Mas só os três guias negros, de um total de 15 na empresa, levam os turistas nesse trajeto.

É o mesmo sentimento de Damiana Florêncios, 54, da Florêncios Turismo. “A gente consegue passar além da história. A memória, a vivência, as dores, a invisibilidade desde criança. Nos livros didáticos, a nossa história parou na abolição. Saiu o negro, entrou o imigrante e construiu o Brasil”, critica.

A sensação de pertencimento faz Well, nascido na favela Cidade de Deus, falar sobre os escravizados (e não “escravos”, palavra que segundo ele ignora o processo de escravização) na primeira pessoa.

 

“Simplesmente fomos soltos, sem nenhuma política de reparação”, conta ao chegar no Largo da Prainha, onde funcionou o mercado de escravos a partir da década de 1770.

Ali ele para por alguns minutos em um dos seus pontos favoritos, uma estátua da bailarina negra Mercedes Baptista (1921-2014), figura importantíssima para a difusão da cultura afro no Brasil, naquela época criminalizada como vagabundagem.

Os percursos variam de tour para tour, mas no geral passam por alguns locais principais, muitos deles com ares de abandono. O Cais do Valongo, por exemplo, é parada obrigatória, por ter sido o maior porto de entrada de escravizados da América Latina no início do século 19. 

Ele foi considerado patrimônio cultural da humanidade pela Unesco em 2017, porém corre o risco de perder o título pela falta de investimentos. Um museu para explicar a importância do lugar, prometido na época da candidatura, até hoje não existe.

A alguns metros dali, o enorme (não em tamanho, mas em número de corpos) Cemitério dos Pretos Novos já abrigou cerca de 50 mil ossadas de africanos jovens que morriam logo após a viagem nos navios. 

Esse local ficou por mais de 160 anos escondido. Só foi descoberto em 1996, quando uma família resolveu fazer uma obra em seu quintal. Depois de muita escavação arqueológica, eles resolveram criar o Instituto Pretos Novos (IPN), que recebe visitantes e faz o tour para escolas e turistas até hoje. O roteiro foi oficializado por um decreto municipal e uma lei estadual.

Também não pode faltar no circuito da Pequena África a famosa Pedra do Sal, queridinha até dos turistas e cariocas desavisados. É que muitos não sabem que as rodas de sambas que bombam às segundas-feiras foram criadas bem ali, por nomes de peso como Donga e Pixinguinha.

Pela Rio by Foot ainda é possível esticar o passeio até a Cidade do Samba, onde as escolas do grupo especial passam quase um ano preparando seus desfiles para a Sapucaí. “Tentamos mostrar para o turista que Carnaval não é só festa, é um ato de resistência”, defende Dandara Vianna, guia da Carnaval Experience, da Acadêmicos do Grande Rio.

Well termina o roteiro a pé em frente ao gigante mural Etnias, do grafiteiro Eduardo Kobra, que representa cinco tribos, uma de cada continente. Para ele, é o único lugar que ainda preserva alguma memória da África na área portuária que foi revitalizada para a Olimpíada de 2016.

Não é qualquer um que se interessa por essa história. “Para mim o maior cemitério ainda é o mar, para onde foram muitos africanos de que nem sabemos. E é triste ver que o brasileiro não conhece essa história, a maioria dos que vêm aqui são estrangeiros”, diz Rafaelle Anjos, que tinha 11 anos quando sua mãe fez a obra no jardim dos pretos novos.


Alguns tours na Pequena África

Instituto Pretos Novos (IPN)
Quando: Com reserva, de segunda a sábado
Quanto: R$30
Contatos: (21) 2516-7089 e www.pretosnovos.com.br

Casa da Tia Ciata (centro de cultura)
Quando: Com reserva
Quanto: R$ 30
Contatos: (21) 96780-1710 e www.tiaciata.org.br

Rio by Foot
Quando: Todo sábado, às 14h15
Quanto: Contribuição voluntária
Contatos: (21) 97001-8590 e contact@riobyfoot.com

Alma Carioca Turismo e Educação
Quando: Toda sexta
Quanto: A partir de R$ 50
Contatos: (21) 99889-4467 e almacariocaturismo@gmail.com

Florêncios Turismo
Quando: Com reserva
Quanto: R$ 60
Contatos: (21) 99366-0938 e damiana@florenciostour.com.br

Etnias Turismo e Cultura
Quando: Com reserva
Quanto: A partir de R$ 60
Contatos: (21) 96666-7636 e contato@etniasturismo.com.br

Carnaval Experience (visita ao barracão da Grande Rio)
Quando: De segunda a sábado, às 11h e às 16h
Quanto: R$ 75
Contatos: (21) 97953-4140 e carnavalexperience@pimpolhos.org.br

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.