Descrição de chapéu Folha Verão

Paraíso das selfies, Capitólio atrai milhares ao 'mar de MG'

Cidade melhorou infraestrutura e recebe turista de todo o país em seu lago

Intenso movimento de lanchas que levam os turistas em passeios na represa de Furnas, em Capitólio, MG Ricardo Benichio/folhapress

Capitólio (MG)

A lancha, ancorada a um cais no lago de Furnas, comporta 12 pessoas. Mas 16 aguardavam o embarque naquele sábado de manhã. Num ponto próximo dali, novo overbooking (venda de passagens além da capacidade) era registrado em outro barco em Capitólio (MG).

Filas de pessoas para embarque nas lanchas, congestionamento de embarcações na represa de Furnas e espera superior a uma hora para fazer uma selfie nas belas paisagens viraram rotina na cidade mineira que deve novamente bombar neste verão.

Capitólio se tornou a principal cidade turística do lago nos últimos anos ao conseguir atrair turistas o ano todo. Isso ocorre devido à sua localização geográfica no lago de Furnas, que faz com que, mesmo em tempos de seca, a água “permaneça” no município. Ela deslanchou a partir dos anos de crise hídrica no país, em meados da década.

Em outros locais, como Alfenas e Areado —que também integram o lago—, quando o nível da água baixa em épocas de estiagem ela chega a ficar até três quilômetros distante de atrativos como hotéis e restaurantes.

“Em Capitólio isso não acontece, tem água o tempo todo”, disse Fausto Costa, secretário-executivo da Alago (Associação dos Municípios do Lago de Furnas) e vice-presidente do comitê da bacia hidrográfica de Furnas.

Com isso, o município de 8.648 habitantes chega a receber 5.000 turistas em finais de semana normais e até 30 mil em feriados, segundo a prefeitura, prioritariamente de turistas saídos de Belo Horizonte (282 Km), São Paulo (439 km) e Rio de Janeiro (555 Km).

Eles não só superlotam os leitos disponíveis na cidade, 4.000, como casas de aluguel e municípios vizinhos, em busca de sua água verde esmeralda, cânions, cachoeiras, lagoas e bares flutuantes. E selfies, muitas selfies.

“Não precisa nem de filtro”, disse a estudante Thais de Carvalho Tavares Silva, 24, de Barra Mansa (RJ), que viajou com Alef Tavares Ferreira Pereira, 22 pela primeira vez para a cidade. “As paisagens são maravilhosas”, disse. 

Ela fugiu de uma fila de mais de uma hora para fazer imagens num mirante alternativo às margens do lago. Tão “instagramável” quanto.

Já a educadora Crislaine Rodrigues, 30, de Belo Horizonte, também estreante em Capitólio, alugou uma casa com outras 11 pessoas por R$ 1.300 por duas noites e disse ter encontrado um ambiente muito “receptivo e lindo”. 

“Amo fotos das coisas, de tudo”, disse ela após fazer uma selfie com o reservatório de Furnas ao fundo.
Nos últimos quatro anos, a cidade ganhou mais de 200 empresas ligadas ao turismo, que representa 60% da economia da cidade, de acordo com a Secretaria do Desenvolvimento Econômico Sustentável do município.

“Não há desemprego e existe uma demanda gigante por mão de obra”, disse Andréa Rodrigues, secretária da pasta.

Segundo ela, os prestadores de serviço hoje são 100% regularizados em relação a barcos, pilotos e segurança náutica. Embora haja coletes a bordo em todos os barcos, a maioria dos turistas não os utiliza —em alguns pontos do lago, a profundidade chega a 70 m.

A hidrelétrica de Furnas teve as obras da barragem concluída em 1963 e foi responsável pelo desenvolvimento do turismo nas 34 cidades banhadas pelo lago, conhecido como o “mar de Minas”. Além de atividades turísticas, os municípios recebem royalties devido à área alagada pela represa.

Próximo à ponte do Turvo, em Capitólio, operam cerca de 50 empresas náuticas, segundo a empresária Francielle Soares Costa, uma das responsáveis pelo agendamento de turistas em uma delas.

Nos dois dias em que a Folha esteve no local ela já não tinha vagas nos passeios, que percorrem pontos do lago três vezes ao dia e transportam de 12 a 15 pessoas em cada viagem, que custa R$ 90.

“A procura está muito alta e deve ser assim o verão todo”, disse. Em outras oito empresas consultadas pela reportagem também não havia disponibilidade para os próximos dois dias.

Dono de três embarcações, Orildo Goulart, o Paraná, 55, afirmou que o cenário melhorou nos últimos anos a partir do estabelecimento de regras a serem seguidas por todos. 

“Três anos atrás não havia segurança, hoje é uma realidade e, de dois anos para cá, melhorou muito a qualidade dos barcos e dos hotéis e a estrutura turística.”

Com as melhorias, mudou também o perfil dos turistas, segundo ele. “Antes, tinha muito turista fuleiro, depredador. Hoje o olhar deles é diferente. O lago vivia sujo, mas hoje conseguimos mante-lo em boas condições”, afirmou ele, há sete anos no ramo.

Além das rotas náuticas, a cidade reúne centenas de pessoas em cachoeiras, muitas em áreas privadas, que cobram a partir de R$ 20 pela visitação.

Nos dois casos flagrados pela Folha de venda por agências de mais passagens que o limite comportado pelos barcos, os empresários que os administram propuseram ampliar a duração do passeio em meia hora, levando os turistas em grupos a cada um dos atrativos. 

Quando desembarcava uma parte, voltava ao ponto anterior para buscar os demais.

“Não é o ideal, mas ao menos não prejudicou os excedentes, que ninguém sabe exatamente quem é, já que o barco não tem lugar marcado”, disse o comerciante Tarcisio Soares, de São Paulo, outro a viajar pela primeira vez à cidade mineira.

Nível baixo da represa não afasta turista, mas gera temor

O baixo fluxo de chuvas dos últimos meses fez com que o reservatório de Furnas iniciasse o mês de dezembro com apenas 12,7% de sua capacidade, conforme dados do ONS (Operador Nacional do Sistema). Em 2018, estava em 20,66% no mesmo período.

Se para os turistas que vão a Capitólio isso não é motivo de preocupação, a baixa no nível do reservatório gera receio nos empresários do setor e no comitê da bacia hidrográfica da região.

Quanto mais distante a cidade é da barragem de Furnas —e há casos de municípios que ficam a mais de 100 quilômetros de distância—, mais afetada ela é pelo baixo nível do lago.

“A água está 14 m abaixo do nível máximo enquanto o ideal seria estar de 6 m a 8 m nessa época do ano”, afirmou Fausto Costa, secretário-executivo da associação dos municípios e vice-presidente do comitê da bacia hidrográfica de Furnas.

Mesmo que fique 6 m abaixo do nível máximo, nesse patamar já é possível retomar o turismo e outras atividades econômicas que dependem da água em todos os municípios.

No cenário atual, a água não chega como deveria a regiões do lago em municípios como Alfenas, Varginha, Fama, Três Pontas e Areado, prejudicando hotéis, marinas e restaurantes que vivem da represa.

“É preciso que chova de forma uniforme na região Sudeste toda para aliviar o sistema de hidrelétricas e permitir que o nível de Furnas suba. Estamos à espera das chuvas, precisamos muito”, disse Costa.

Embora baixo, o nível do reservatório de Furnas já apresentou períodos piores. Mais recentemente, chegou a 10,6% do total, em fevereiro de 2015, o pior índice desde 1999, quando atingiu apenas 6,28%.

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