Descrição de chapéu Seminário Água e Energia

Disponibilidade hídrica deveria entrar na conta de termelétricas

Pesquisa propõe inserir nos cálculos do setor elétrico o custo da água para prever riscos de escassez hídrica

São Paulo

As bacias dos rios São Francisco e Jaguaribe têm um aspecto em comum com o rio Xingu, no trecho em que a usina de Belo Monte foi construída: as três áreas reúnem casos de disputas pelo uso da água entre a geração de energia elétrica e outras atividades, como abastecimento urbano e a irrigação da agricultura.

Os casos foram analisados em um estudo elaborado pela consultoria PSR para o Instituto Escolhas, que estimou o valor da água no setor elétrico do país —e da sua falta. Os resultados e as recomendações da pesquisa foram apresentados nesta quinta-feira (28) em São Paulo em debate promovido pela Folha.

Rafael Kelman, diretor da PSR, uma consultoria especializada em mercado de energia e recursos hídricos, defendeu que a água deve ser tratada como um insumo na geração de eletricidade e, assim, a regulação deveria determinar o pagamento pelo seu uso.

Rafael Kelman (esq.), diretor da consultoria PSR, Mário Menel, presidente do Fase (Fórum das Associações do Setor Elétrico), Solange David, vice-presidente do CCEE (Conselho da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), e Shigueo Watanabe Jr, coordenador de pesquisas do Instituto Escolhas, em debate no auditório da Folha - Keiny Andrade/Folhapress

"O custo da água precisa ser considerado no planejamento da expansão e da operação do setor elétrico, olhando dois fatores: o nível de criticidade [hídrica] da área onde a usina termelétrica vai se localizar e se o sistema de resfriamento vai consumir mais ou menos água", argumentou.

Usinas termelétricas produzem eletricidade a partir da queima de combustíveis como carvão mineral, gás natural e óleo diesel.

Em debate no auditório da Folha, Solange David, vice-presidente do Conselho da CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), apresentou dados que indicam que os custos atuais de produção de energia termelétrica são até 68% maiores que em usinas hidrelétricas, a fonte mais barata.

"Em custo de contratação, as termelétricas já são as mais caras, mas quando há operação, elas ficam ainda mais caras. O que está sendo sugerido é que se inclua um custo novo. Como ficaria a competitividade das fontes na matriz energética?"

Hoje, a geração em hidrelétricas responde por 66,6% da matriz elétrica brasileira.

Para Solange David, a valoração do uso da água já é uma realidade na produção elétrica brasileira. "A água como insumo precificado está prevista nos modelos matemáticos que o setor elétrico utiliza no cálculo dos custos", disse.

​Kelman, no entanto, defendeu que a proposta não busca criar uma nova despesa para a geração térmica, mas reconhecer os custos a que as usinas já estão submetidas. Em sua avaliação, a medida criaria previsibilidade aos investimentos, já que cenários de restrição hídrica e disputa por uso da água vêm se tornando mais frequentes.

"Não é um valor desprezível [encargo emergencial], mas não alteraria a competitividade relativa das fontes. É um valor que induziria as usinas a ter soluções que consumissem menos água ou as levariam a se instalar em locais mais adequados, com maior disponibilidade hídrica", afirmou.

O engenheiro questionou o uso da série histórica de afluência de água nas bacias, iniciada em 1931, como parâmetro de operação do setor elétrico. Na década de 1970, quando foram criados os modelos de estimação do nível futuro dos reservatórios, foi preciso inferir uma quantidade enorme de dados, já que é impossível calcular o volume exato de água em um determinado rio e a quantidade que se perde pela retirada para a irrigação e a evaporação, por exemplo. A única alternativa era usar os dados das décadas anteriores.

Vista aérea do reservatório Castanhão, no Ceará - Danilo Verpa/Folhapress

Para Kelman, os dados das últimas quatro décadas são mais consistentes e apontam, no Nordeste, uma diminuição da vazão dos rios onde as barragens estão localizadas. Em sua avaliação, usar dados mais antigos eleva as previsões e, com isso, frustra constantemente os resultados observado de geração de eletricidade nas hidrelétricas.

Mário Menel, presidente do Fase (Fórum das Associações do Setor Elétrico), ponderou que o setor elétrico ficou mais complexo e que é preciso articular melhor os agentes envolvidos com a gestão dos recursos hídricos.

"Nós conseguimos criar um setor robusto, com uma das maiores malhas interligadas do mundo. Fizemos com muita competência, mas os tempos mudaram. A fonte hídrica está declinando e isso significa que temos que conviver com novos agentes."

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