Descrição de chapéu Alalaô

De figuras locais a super-heróis, bonecos atraem foliões a Atibaia

Oito meses antes da folia, oficinas de artistas ensinam a criar os personagens

Roberto de OIiveira
Atibaia

Cada um carrega  o super-herói que merece. Ladybug, Batman, mestre Yoda ou até mesmo, numa licença criativa típica desses dias de folia, o abestalhado Chaves.

Esses são alguns dos personagens incorporados pelos bonecões gigantes do tradicional desfile carnavalesco de Atibaia, no interior paulista. Ninguém pode negar: a ala dos bonecos é eclética e democrática, como defendem  seus foliões. Ela abre espaço a conhecidos da região e também a nomes que ajudaram a construir a história e até mesmo os costumes da cidade.

Pegue como exemplos,  a travesti Maria do Carmo, o representante da colônia nipônica e os integrantes que fazem alusão às congadas, um patrimônio cultural e religioso de Atibaia. Também são contempladas personalidades que tiveram, em algum momento, ligação com o município paulista.

Um boneco foi erguido para o cantor e compositor carioca Sílvio Caldas. Ícone da MPB, ele se consagroucomo uma das maiores vozes do cancioneiro nacional. O artista  faleceu ali na cidade, no dia 
3 de fevereiro de 1998.

Outro que se despiu de nós naquela terra cercada por montanhas foi Mário de Souza Marques Filho. Assim batizado, ganhou fama com a alcunha de Noite Ilustrada. Cantor, compositor  e violonista, morreu em 2003. Também é figura do Carnaval.

Os bonecões são uma tradição por lá desde a segunda década do século passado, conta Galvão Filho, 39, artesão da Caabem (Casa de Apoio Amigos do Bem), uma ONG que promove ações culturais e de inclusão social, à frente do Folia dos Bonecões. 

“O desfile com esses personagens vem sendo moldado ao longo do tempo para dar cara a uma festividade familiar, voltada para as crianças”, explica o criador. Daí o elenco ser composto por personagens de desenho animado.

O cortejo segue até a terça-feira gorda (25), sempre a partir das 16h. Ele parte do centro da Atibaia, cidade distante cerca de 60 km de São Paulo. É aberto ao público e integra as ações de Carnaval da prefeitura, que informa ter investido R$ 480 mil na festa. Estima-se que um público, de 20 mil pessoas aproximadamente, siga os bonecos.

Acompanhado por uma banda de marchinhas, o cordão sai da praça da Matriz, segue no meio da multidão até a igreja Nossa Senhora do Rosário e retorna para o coreto da praça, num trajeto de 1 km.

Ao todo, 56 bonecos, inspirados nos gigantes de Olinda (PE), desfilam. Na madrugada de sábado (22), eles integraram uma ala do desfile da Acadêmicos do Tatuapé, em São Paulo, escola que prestou uma homenagem a Atibaia.

A receita de elaboração dessas criaturas parece simples, mas o processo exige boa dose de paciência e tempo (em média, cada boneco demora oito meses para ganhar forma).

Veterano ou iniciante, o artesão precisa de cola, polvilho azedo, jornal e papel machê para dar cara ao personagem.

A armação é feita de tela de arame —dentro dela, o condutor terá a visão do trajeto. A vestimenta exige mais esforço. Leva tecido com bordados, aplicações de adesivos e fitas. Algumas figuras usam capas, adornadas de plumas e paetês. As mãos são preenchidas por bolinha de isopor. Pronto, a bonecada está  arrumada para o desfile.

Ela mede de 1,65 m a 2,50 m. Pesa entre 15 kg e 25 kg. O custo de cada boneco completo, incluindo aí a estrutura, assim como o traje, pode chegar a R$ 1.500.

“Foi muito cansativo deixá-los prontos, mas me encho de orgulho ao vê-los na aglomeração”, conta a costureira  Conceição Barros, 74, que criou  a roupa de todos os bonecos.

Durante os últimos três meses, ela não soube muito bem distinguir o dia da noite. “Passei madrugas inteiras em claro costurando”, recorda-se.

A peça de Malévola foi, nas palavras de Conceição, a mais exaustiva, por exigir detalhes em demasia. Interpretada no cinema por Angelina Jolie, a jovem querida da criançada, protetora do reino dos Moors, tem chifres e asas —e assim a costureira a fez igualzinha.

Já na criação do garoto órfão Chaves, o estudante Gabriel Lozano Pelegrino, 11, diz que ficou feliz com o resultado, já que é fã do mexicano desde que se entende por gente.

“Olhem, não ficou perfeito?”, gaba-se o jovem, momentos antes de sair com a sua própria obra no sábado (22), na praça Matriz, após desfilar por quatro Carnavais consecutivos com uma fantasia emprestada. “Queria tanto ter o meu próprio boneco.”

Gabriel participou de uma oficina, aberta aos moradores de Atibaia, que acontece de seis a oito meses antes da festa do reinado de Momo. 

O último workshop reuniu artesãos dos 7 aos 82 anos. Exemplo? A aposentada Neyde Gaspar. Ela não desfilou, mas aprendeu a confeccionar e trabalhou duro na organização do desfile. “Dar origem aos bonecos mexe com nosso lado lúdico e criativo.”

Para a artista plástica Márcia Silveira, 60, professora da oficina de bonecos, é natural que os filhos levem os pais e os avôs para os cursos. “Um puxa o outro”, brinca. “Com muita paciência, a gente segue na missão de transformar notícia ruim de jornal em arte.”

Aqui se faz necessário um triste registro: depois que o Carnaval passar, os bonecos vão ficar esquecidos dentro de um galpão —não em um espaço aberto à visitação. O sonho de quem faz e carrega os bonecões de Atibaia é que sua fantasia seja eterna.

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