Moradores de Manaus se aglomeram em fila por cilindro de oxigênio; veja vídeo

Capital do Amazonas enfrenta escassez de insumos e colapso no sistema de saúde com vanbaço de casos da Covid-19

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Manaus

Um formigueiro de gente se formou e não arreda o pé de uma esquina do distrito industrial de Manaus.

Em volta de um típico galpão de aspecto deteriorado, a concentração de pessoas que se protegem da Covid-19 apenas com máscaras no rosto busca, numa fila interminável, o ar que os seus familiares já não têm — seja nos hospitais ou em casa.

Veja neste vídeo:

A cena é dramática e dá os contornos da crise pela qual passa a gestão da saúde na capital do Amazonas no momento em que o coronavírus ganhou força e não para de fazer novas vítimas.

Todas essas pessoas aguardam na fila por um cilindro cheio de oxigênio da empresa Nitron da Amazônia. O produto também é muito disputado em outras fábricas do setor.

Moradores fazem fila para abastecer cilindros em fábrica de oxigênio hospitalar no distrito industrial de Manaus - REUTERS/Bruno Kelly

O objeto que entrou de forma forçada no cotidiano dos manauaras é caro —só o vasilhame de 10 metros cúbicos custa pouco mais de R$ 4.000.

A maioria dos que ocupam um lugar na fila adquiriram o cilindro por conta própria. Mas há casos em que as próprias unidades de saúde cedem o equipamento para a família do paciente arcar com o abastecimento.

Para aguentar o calor à espera do oxigênio engarrafado, muito guaraná e a solidariedade do vizinho de fila que, vez ou outra, oferece água e até uma cadeira para um descanso rápido.

Michele Alves, 37, empresária do ramo gráfico, buscava encher um cilindro para levar oxigênio ao cunhado, que se recupera em casa da Covid-19 e não quis enfrentar os percalços de uma unidade hospitalar da cidade.

“Nem que eu saia amanhã, mas só deixarei essa fila com o oxigênio para ele” disse a empresária.

A Folha passou algumas horas na fila e percebeu que ela andou para as pessoas que tinham o receituário de uma unidade pública recomendando a compra do produto.

Como em toda fila que se preze, os rumores de “o oxigênio acabou” eram constantes e deixavam os ânimos exaltados.

A Polícia Militar do Amazonas estava no local para manter a segurança das pessoas e controlar uma possível invasão da fábrica que já disse operar acima de sua capacidade.

Ao acompanhar os cilindros em fila indiana, a Folha notou que todos eles têm um nome e um contato telefônico.

A nomeação do cilindro faz sentido: para o abastecimento avançar, eles são empilhados e levados numa carroceria para dentro da fábrica. Ao final do processo, os donos certificam do abastecimento, fazem o pagamento e os levam para o uso.

O engenheiro Josiney Vicente, 49, busca oxigênio para a mãe, de 69 anos, que está com Covid-19. “Minha mãe ficou 16 horas esperando atendimento no hospital”, lembra.

Vicente estava na fila e buscava encher um cilindro de 1 metro cúbico. “Mas não pense você que porque é um cilindro menor que a vida é mais fácil. Não é”, disse.

A Folha deixou o local por volta das 19h, início do toque de recolher imposto pelo governo do Amazonas, e nem Josiney nem Michele tinham conseguido abastecer seus cilindros.

Uma equipe de policiais militares percorreu a fila e avisou: o toque de recolher começaria logo em seguida, e não seiaá mais disponibilizado oxigênio nesta sexta-feira.

“Caso os senhores não deixem o local, serão conduzidos à delegacia”, disse um policial.

COLAPSO DA SAÚDE

A explosão de novos casos da Covid-19 fez com que a demanda por oxigênio chegasse a 76 mil metros cúbicos diários no Amazonas.

Por outro lado, a produção diária de White Martins, Carbox e Nitron, que são as três fornecedoras do insumo para o governo do Amazonas, é 28,2 mil metros cúbicos por dia. A White Martins tenta importar o produto da Venezuela.

Na madrugada dessa sexta-feira, a Força Aérea Brasileira desembarcou em Manaus uma carga de 6.000 litros de oxigênio líquido da empresa White Martins, fornecedora do Governo do Estado.

A carga veio de São Paulo, transportada em seis isotanques de mil litros, e vai ser distribuída nos hospitais da rede estadual.

A previsão é que um total de 22 mil metros cúbicos de oxigênio sejam encaminhados ao longo da semana para Manaus, em operação a partir de Guarulhos, cidade da Grande São Paulo.

Com o apoio da FAB, o governo do Amazonas iniciou nesta sexta-feira a transferência de pacientes com Covid-19 para hospitais de outros estados.

Em uma mudança do plano previsto inicialmente, apenas nove pacientes que estavam internados na rede pública estadual foram transferidos para Teresina, no Piauí. A expectativa era que fossem enviados 30.

De acordo com o governo do Amazonas, quatro pacientes apresentaram instabilidade e, por isso, não puderam ser embarcados. Outro paciente desistiu.

Estes foram os primeiros pacientes 235 que serão enviados para cinco estados brasileiros. Um segundo grupo de 15 pacientes deve ser encaminhado para São Luís, no Maranhão, também nesta sexta-feira.

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