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Morte de policial durante operação no Jacarezinho é prenúncio de medo para os próximos dias

Ação mais letal da polícia na história do Rio deixou ao menos 25 mortos nesta quinta (6)

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Pedro Paulo dos Santos da Silva

Bacharel e mestrando em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É pesquisador do Centro se Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) e do LabJaca - Laboratório de dados e narrativas da favela do Jacarezinho.

Quinta-feira, dia 6 de maio de 2021. Menos de três semanas após a audiência pública do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre operações policiais no Rio de Janeiro, a população do Jacarezinho acordou com dois helicópteros, ao menos dois caveirões e muitos tiros. Duas pessoas foram baleadas no metrô a caminho do trabalho. Até a publicação deste artigo, 25 pessoas haviam sido mortas na favela.

A operação, liderada pela Polícia Civil com apoio da Polícia Militar, também teve ao menos um policial morto e outros dois feridos. O Jacarezinho sabe o que isso significa.

Em pesquisa que analisa dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) entre janeiro de 2010 e dezembro de 2015, a pesquisadora Terine Husek Coelho demonstra que a morte de um agente de “segurança” aumenta a probabilidade de homicídios contra cidadãos na mesma localidade em 1150% no mesmo dia; 350% no dia seguinte, e 125% entre cinco e setes dias mais tarde.

Os dados ilustram um conhecimento que o morador do Jacarezinho e de outras favelas já tem. Em 2017 e 2018, respectivamente, quando um policial da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) da Polícia Civil morreu em outra operação como a de hoje e um delegado foi encontrado morto nas proximidades do morro, a Polícia Civil realizou duas semanas de operações-vingança na favela do Jacarezinho. Se hoje foram 25, quantos serão amanhã e depois, especialmente considerando a pesquisa mencionada acima?

Ainda estamos em pandemia, além disso. Os moradores precisam se vacinar, afinal, a saúde pública é um serviço essencial do estado. Mas mesmo sabendo que uma operação impediria a saída de pessoas para a vacinação, ela foi aprovada, o que nos mostra que talvez o serviço mais essencial do estado seja justamente o assassinato da população preta e favelada que mora no Jacarezinho, no Alemão, na Cidade de Deus, na Baixada Fluminense...

Em reportagem ao vivo no Bom Dia Rio, uma moradora relatou que iria se casar nesta manhã, mas que não conseguiria sair de casa; outra testemunhou que estava planejado que desse a luz nesta manhã e não conseguia sair e chegar ao hospital, ou seja, uma que não pode trazer seu filho ao mundo ao mesmo tempo que em que outras mães choram a morte.

Voltando à audiência pública do STF, uma das determinações do ministro Edson Fachin era que as operações fossem previamente aprovadas pelo Ministério Público (MP) estadual. Em vista do contingente de policiais e de mandados autorizando a operação, há uma indicação de que o MP aprovou essa operação. O que mostra que as instituições estão funcionando, mas que isso também pode ser um problema.

Mas além de autorizar uma ação, o MP também deve garantir que todos os cuidados sejam tomados pelas polícias, controlando assim a ação policial, o que não acontece. O MP legítima a operação que até o momento matou 25 pessoas, além de não garantir o cumprimento de direitos constitucionais. Quero dizer que as polícias puxam o gatilho, mas nunca sozinhas.

Este artigo foi originalmente publicado no site Labjaca

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