Descrição de chapéu
Antonio Isuperio

Carta aberta à família de Moïse Mugenyi Kabagambe, que morreu de Brasil

Não há palavras em nosso vocabulário capazes de transmitir com respeito tudo que esse ato violento simboliza estruturalmente

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Antonio Isuperio

Arquiteto brasileiro, negro, lgbt+ que mora em NY. É filho de empregada doméstica e parte da equipe da consultoria da Alexandra Loras e Diretor do Retail Design Institute Brasil.

Começo este texto sem ter ideia do que escreverei porque não existe a possibilidade do racionalizar perante a barbárie. Não acredito que existam palavras suficientes em nosso vocabulário capazes de transmitir com altura e respeito necessários tudo que esse ato violento simboliza estruturalmente.

Como aprendi com uma querida amiga, Alexandra Loras, situações de crise devem ser tratadas com o rigor da máxima honestidade. Então, queridos familiares de Moïse, o Brasil nunca foi a nossa mãe e não será por muito tempo. É fácil perceber perante as declarações amplamente divulgadas de todos os possíveis presidenciáveis nos meios de comunicação nestes últimos anos. A ignorância e precariedade sobre a temática racial e suas correlações interseccionais pela branquitude acrítica que está no poder é assustadora.

Homem faz pose para foto
O jovem congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, 24, encontrado morto na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio - Facebook/Reprodução

Ivana Lay, minha querida mãe de consideração. A sua voz ecoará durante muito tempo em nossas cabeças. É impossível não se comover com o respeito que tem ao nosso país em sua fala, mesmo diante do caos da negligência instaurada por ele. Receba toda a minha solidariedade. Assim como a voz de Mirtes Renata (e de outras tantas) que fazem parte da história de todos os negros que vivem em nosso território.

Moïse, meu irmão que não tive a oportunidade conhecer. Espero que ao se tornar um símbolo de resistência essa carta possa chegar a muitos Moïses que, imigrados ou nascidos, aqui são adoecidos. Este país que insiste em não olhar no próprio espelho que trouxe em seus navios colonizadores a troca de nosso sangue.

Irmão, o Brasil te matou quando não olhou nos seus olhos quando você trabalhava servindo na beira da praia. Te matou quando te seguiu no supermercado e não permitiu que você fosse celebrar o seu primeiro salário com seus amigos. O Brasil te matou quando você estava indo para a escola em uma van que saía da comunidade. O Brasil te matou quando "inventou" que existe bala perdida. O Brasil te matou quando não te contou que a Anistia Internacional documentou que o assassinato de jovens negros no Brasil é maior que todas as mortes das guerra do Oriente Médio juntos.

O Brasil te matou quando vendeu a ideia que é um país da democracia racial, mas que nada mais era que uma arapuca para que recrutassem mão de obra preta precária sem que nem ao menos fizessem um programa digno de imigração. O Brasil te matou quando não explicou que a xenofobia somente acontece quando o imigrante retarda o projeto de eugenia.

O Brasil te matou quando gerou uma classe média sem cultura e sem capital que performa a vida de milionário, mas que tem somente a empregada doméstica precarizada (nossa mãe) para ostentar. O Brasil te matou quando te iludiu dizendo que você é da família, mas que não estará no testamento e nem na partilha da herança. Te matou quando pediu para você entrar no elevador de serviço e usar seus próprios talheres.

O Brasil te matou quando é o país que se tornará o maior produtor de alimentos do mundo nos próximos anos, mas deixa metade da sua população em insegurança alimentar que, ironicamente por "coincidência", é a mesma porcentagem das pessoas negras. O Brasil te matou quando vacinou as pessoas por idade ignorando que a nossa expetativa de vida é muito inferior ao da branquitude.

O Brasil te mata quando não te conta que no país mais negro fora da África tem um judiciário composto majoritariamente por pessoas brancas que provavelmente somente se relacionaram conosco na dinâmica de subserviência e ordem. Te matou também quando negou a educação para que não tivesse acesso aos seus direitos e para isso opera a favor das estruturas de poder.

O Brasil te matou quando você ligou a TV e não se viu. O Brasil te matou quando seus familiares ligaram a TV e te viram, morto. O Brasil sempre soube que ia te matar, ele só não te contou. E te matou com esperança. Te matou com sonhos. Te matou com perversidade. E vai continuar te matando sem direito a revolta e recompensa pelo seu trabalho.

Mas ele me mata também, porque ter que escrever esta carta desesperançosa em uma situação delicada como esta também é cruel.

Do seu irmão, aos pedaços, Antonio Isuperio

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