Em 11 anos, ensino médio dá salto de qualidade apenas em quatro estados

Avaliação federal de português e matemática traz de novo à tona gargalo nessa etapa

Sala de aula na Escola Estadual Antonio Vieira de Souza, em Guarulhos (SP)
Sala de aula na Escola Estadual Antonio Vieira de Souza, em Guarulhos (SP) - Rivaldo Gomes - 29.mar.16/Folhapress
Paulo Saldaña Estêvão Gamba
São Paulo

Nos últimos 11 anos, apenas 4 das 27 redes estaduais do país conseguiram fazer com que seus alunos do ensino médio tivessem avanços significativos de aprendizagem em português e matemática. O quadro geral nesse período é de estagnação, em níveis muito baixos. Há queda em diferentes estados, mesmo entre aqueles que apresentam os melhores resultados.

O ensino médio é considerado o maior gargalo da educação básica brasileira. De cada dez alunos na etapa, oito estão em escolas estaduais.

Os resultados da prova de 2017 do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica) foram divulgados nesta quinta-feira pelo governo federal. A avaliação de português e matemática, com as taxas de aprovação, compõe o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de escolas e redes de ensino do país.

Essa avaliação federal é feita com estudantes ao fim de três etapas de ensino: anos iniciais (5º ano) e finais (9º ano) do ensino fundamental e ainda o ano final do ensino médio.

As notas dos dois ciclos do ensino fundamental melhoraram no ano passado, considerando as redes pública e privada de todo o país. Só nove redes estaduais tiveram avanço em português e matemática no ensino médio na comparação com a prova de 2015. Mas a situação é ainda mais dramática ao se ver a série histórica.

Somente Espírito Santo, Goiás, Pernambuco e Sergipe obtiveram avanço considerável desde 2007. No intervalo, essas redes subiram ao menos 12 pontos na escala de notas nas duas disciplinas. Essa variação é considerada relevante por estudiosos e representa a progressão de um ano inteiro de aprendizado.

Em matemática, 15 redes tiveram queda de desempenho de 2007 a 2017. Na média, os alunos aprendiam mais há 11 anos do que aprendem agora.

Já em língua portuguesa, o salto relevante ocorreu em oito estados, e cinco caíram.

A Folha comparou os resultados da avaliação de 2017 com os de 2007, quando houve criação do Ideb. O Ideb será conhecido apenas na segunda-feira (3). Esses dados são produzidos a cada dois anos.

Em 2017, o Espírito Santo lidera o ranking das redes, com 281 pontos em matemática e 277 em português. São consideradas ideais notas de 350 e 300, respectivamente.

O histórico de resultados do ensino médio desde 2007 não é positivo nem mesmo para aqueles estados com as melhores notas no ano passado.

As redes de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, por exemplo, estão entre as cinco maiores médias de matemática. Mas, além de as notas estarem abaixo do adequado, são piores do que eram há 11 anos.
Também há redes que avançaram consideravelmente, como Sergipe e Piauí (em português), e permanecem abaixo da média nacional. 

“Não dá pra dizer que há redes boas, há as menos piores e algumas boas escolas isoladas”, diz Ernesto Faria, diretor do instituto Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional).

O ministro da Educação, Rossieli Soares da Silva, disse que o ensino médio está falido. “Os resultados demonstram o quanto o ensino médio não está agregando ao jovem brasileiro”, disse.

O governo Temer se esforça para aprovar ainda neste ano o texto final da Base Nacional Comum Curricular referente à etapa. A base define o que os estudantes da educação básica devem aprender. 

A parte até o ensino fundamental já foi finalizada. Já o texto do ensino médio está em fase final de discussão no CNE (Conselho Nacional de Educação), mas a versão encaminhada pelo MEC tem sofrido muitas críticas. Pressionado, o governo se comprometeu a melhorá-la, mas há o risco de não aprovar neste ano.

O educador Mozart Neves Ramos também ressalta a importância da base. “Não dá mais para continuar sem uma mínima unificação que a base pode oferecer”, diz ele, que é diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna.

Professor da Universidade Federal Fluminense, Paulo Carrano diz que a etapa tem problemas, mas o governo apresenta um “remédio precário”, referindo-se à base e à reforma do ensino médio.

“É uma rede que cresceu recentemente para amplas maiorias e não se adaptou, não se investiu, não se construiu laboratórios”, diz. “Não adianta dizer que vai melhorar só porque vai fazer arranjo curricular ou lei para institucionalizar a desigualdade”.

Mesmo com alta taxa de evasão, de 11%, o percentual de jovens de 15 a 17 anos no ensino médio cresceu nos últimos anos. Em 2001, eram 41% dos jovens da faixa etária na etapa. Passou para 63% em 2015. 

A definição da base tem ligação com a reforma do ensino médio, aprovada por medida provisória pelo governo Temer em 2017. A reforma prevê flexibilização e parte da grade curricular será escolhida pelo aluno a partir de cinco áreas: ciência humanas, da natureza, matemática, linguagens e educação profissional. Isso só passa a valer após a base. 

Com relação ao ensino fundamental, os anos iniciais mantiveram a tendência consistente de melhoria. A etapa passou de 219 para 224 em matemática —um ponto do considerado adequado. Em português, a média foi de 208 para 215, já acima dos 200 pontos exigidos como adequados.

Nos anos finais, matemática passou de 256 para 258 (adequado é 300) e foi de 252 para 258 em português. O adequado nessa matéria é de 275.

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