Descrição de chapéu Nova Escola

Quem é e o que pensa Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização do MEC

Ministério da Educação prepara texto que prioriza método fônico, defendido por ele

Crianças em escola de educação infantil em São Paulo
Crianças em escola de educação infantil em São Paulo - Diego Padgurschi - 30.mar.16/Folhapress
Pedro Annunciato Marian Trigueiros
Nova Escola

Uma das primeiras medidas do ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, foi criar uma Secretaria de Alfabetização. A decisão é compreensível diante dos enormes desafios do país, como vencer o analfabetismo entre adultos, que atinge 11,8 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais, segundo dados do IBGE.

O que causou surpresa foi o nome escolhido para comandar a subpasta: Carlos Francisco de Paula Nadalim. Não o conhece? Carlos Nadalim, de fato, é pouco conhecido. Suas obras não aparecem nos currículos de formação docente, ele não é autor de pesquisa científica, tampouco participou dos debates que influenciaram a gestão pública nas últimas décadas.

Suas ideias, porém, circulam na internet desde 2013, quando ele criou o blog Como Educar Seus Filhos, e agradam aos entusiastas da educação domiciliar, os combatentes dos pensamentos de Paulo Freire e os defensores do método fônico de alfabetização. Representam, assim, uma ruptura histórica com todo o trabalho que o país vinha desenvolvendo no campo da alfabetização durante as últimas duas décadas.

Nadalim é formado em Direito pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com especialização em Filosofia e mestrado em Educação pela mesma instituição. Ele também foi aluno do Curso Online de Filosofia ministrado por Olavo de Carvalho, e a proximidade com o seu mestre, influente figura entre os ultraconservadores que apoiam Jair Bolsonaro (PSL), o alçou a novos voos.

O secretário, coautor do curso on-line Ensine seus Filhos a Ler - Pré-Alfabetização, composto de seis módulos com duração de 12 semanas, ao valor de R$ 2.622,36 —e do e-book gratuito "As 5 Etapas para Alfabetizar seus Filhos em Casa - o Guia Definitivo"— fala sobre a alfabetização com a propriedade de quem foi coordenador pedagógico durante oito anos da escola Mundo do Balão Mágico, em Londrina.

Fundada pela mãe de Nadalim há mais de 30 anos, a instituição fica em um bairro residencial operário rodeado de pequenas propriedades rurais. As famílias pagam cerca de R$ 500 pela mensalidade e a escola tem por volta de 150 alunos, sendo uma turma de cada série do Ensino Fundamental 1, com aproximadamente 20 crianças por sala, e turmas de Educação Infantil.

É nessa escola que Nadalim tem aplicado um método fônico de alfabetização que ele mesmo desenvolveu e aprimorou. Nova Escola tentou durante o mês de janeiro visitar a instituição e conversar com a direção pedagógica para conhecer de perto o funcionamento do método, mas sem sucesso.

Os pedidos de entrevista feitos à assessoria de imprensa do MEC e por mensagem de texto para o telefone pessoal de Carlos também não foram atendidos. Se na escola não foi possível atestar as ideias de Nadalim, na internet há farto material a ser explorado.

O método

A maior parte do conteúdo do blog Como Educar seus Filhos é pedagógica. Em seus vídeos, no YouTube, Nadalim ensina exercícios que, segundo ele, têm o objetivo de promover o desenvolvimento linguístico das crianças desde cedo, como soprar canudos para equilibrar bolinhas no ar e executar padrões rítmicos com palmas e músicas para melhorar a articulação e a coordenação motora.

Cerca de 175 mil pessoas o seguem. O secretário também ensina algumas brincadeiras e jogos lúdicos para crianças a partir de 2 anos, usando objetos como blocos, copos coloridos e palitos de fósforo, que, de acordo com ele, fazem com que as crianças dominem técnicas de codificação e decodificação.

“Quando preparamos uma criança para ouvir, reconhecer e manipular as unidades sonoras da fala, estamos ajudando-a a desenvolver a consciência fonológica”, resume Nadalim, no artigo "Antes de Aprender a Ler, o que seu Filho Precisa Saber?".

Além dessas dicas e de cursos pagos, o blog tem espaço para críticas severas de Nadalim a todo o sistema básico educacional, sobretudo —é claro— à alfabetização.

O secretário rejeita o método global (que trabalha a partir das palavras), o método silábico (que considera a sílaba como a primeira unidade a ser aprendida) e o conceito de letramento, que, para ele, “nada mais é que a aplicação do construtivismo ao ensino de leitura e escrita, um conceito estritamente ideológico e político da arte de alfabetizar”, diz, no vídeo Letramento, o Vilão da Alfabetização no Brasil.

Ele acrescenta: “Um dos grandes erros dessa abordagem é acreditar que as crianças podem aprender a ler e escrever por meio de um jogo psicolinguístico de adivinhações”, o que, na visão dele, teria resultado nos altos índices de analfabetismo funcional.

Pesquisadores e educadores renomados, como Magda Soares e Paulo Freire (1921-1997), são os alvos preferenciais de Nadalim. Ao mesmo tempo, ele apresenta como referências o trabalho de pesquisadores como Luiz Carlos Faria da Silva e Fernando Capovilla, defensores do método fônico de alfabetização.

Outra influência no trabalho do atual secretário de Alfabetização é a sua formação católica. O secretário cita, em vários textos, a educadora e médica italiana Maria Montessori (1870-1952), além de Santo Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo e filósofo medieval.

A mudança

A nomeação de Carlos Nadalim reacendeu a polêmica sobre a alfabetização, que Nova Escola chamou, em uma reportagem de maio de 2016, de “guerra dos métodos”. Ela consiste em uma oposição básica entre duas visões sobre a aprendizagem da escrita.

A visão de Nadalim é de que a aquisição da língua escrita acontece mediante um processo que relaciona diretamente a escrita e a fala. Para aprender a ler e a escrever, o indivíduo precisa aprender os fonemas (menores unidades sonoras da língua) e como eles podem ser codificados (no ato da escrita) e decodificados (no ato da leitura).

Essa abordagem é bastante diferente da que se baseia nos estudos desenvolvidos nas últimas décadas por nomes como Emília Ferreiro e Ana Teberosky, referências nos cursos de formação de professores. Para elas, essa relação entre fala e escrita não é direta. A aquisição da língua ocorre pelo contato com a cultura letrada, a partir do qual as crianças desenvolvem hipóteses gradativamente.

“Para a corrente construtivista, os problemas colocados pelas práticas de linguagem nas diferentes situações comunicativas são o ponto de partida para compreender o funcionamento do sistema de escrita. Já os fônicos sustentam que as crianças devem primeiro explorar os sons, dando ênfase às relações entre fonemas e letras. Só depois de dominarem as relações entre os fonemas e as letras é que estariam aptas a entrar em contato com a cultura escrita”, explica Maria José Nóbrega, professora do curso de Especialização em Formação de Escritores do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, em São Paulo, e assessora do Time de Autores Nova Escola.

Nas políticas públicas, a influência construtivista vem pelo menos desde 1997. Em um depoimento ao jornalista Antônio Gois no livro "Quatro Décadas de Gestão Educacional no Brasil", Maria Helena Guimarães, braço direito do ministro Paulo Renato Souza durante os oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), lembra que Emília Ferreiro e Ana Teberosky, “que era a rainha da alfabetização” nas palavras dela, participaram ativamente da formulação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), que estabeleceram diretrizes para todas as políticas do ministério.

Mais recentemente, programas como o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic) mesclaram o contato livre com textos (característica da abordagem construtivista) e propostas mais sistemáticas, envolvendo tarefas de consciência fonológica. Tal inflexão reflete a influência de Magda Soares. A ideia de letramento como imersão do aluno na cultura escrita —alvo das críticas de Nadalim— é defendida por ela, sem desconsiderar a necessidade de atividades mais focadas na aquisição do código.

“A criança necessariamente terá de conviver com os textos que fazem parte do cotidiano e, em algum momento, passar por um processo mais sistemático de alfabetização”, resume Claudia Lemos Vóvio, professora do Departamento de Educação Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Essa é a visão que predomina na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que passou a ocupar o lugar dos PCNs: não há uma imposição de método determinado.

Além disso, no texto de abertura da Base, adota-se uma perspectiva reflexiva de ensino, com base nas contribuições de áreas como a Educação, a Psicologia, a Linguística e a Sociologia da Infância, entre outros.

Apesar das dificuldades que o Brasil ainda tem na alfabetização, não se pode desprezar o fato de que a adoção dessas políticas coincide com uma melhora nos indicadores. O Ideb, principal instrumento de medição da aprendizagem no Brasil, saltou de 3,6, em 2005, para 5,5, em 2017.

São estados como Ceará e Minas Gerais —alinhados a essas abordagens— que puxam a média para cima. A cidade de Lagoa Santa (MG), por exemplo, passou de 4,5 em 2005 para 6,5 em 2017 depois que a rede municipal implementou um novo projeto pedagógico com o auxílio da equipe de Magda Soares.

Não se sabe ao certo o que Carlos Nadalim pretende fazer na Secretaria de Alfabetização. Mas as críticas e as práticas pedagógicas do secretário permitem antever um projeto centrado em um método —algo inédito no Brasil, segundo Isabel Frade, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

“Nunca houve um governo no país que decretasse que todos os professores usariam o mesmo método. Até porque, o que temos de fazer é dar oportunidade às crianças de vivenciarem as mais diferentes formas e ver qual é o método que atinge melhor determinado grupo”, defende a especialista.

O Método de Nadalim

Segundo o e-book "As 5 Etapas para Alfabetizar seus Filhos em Casa"

1. Leitura Partilhada
O primeiro passo indica que os pais devem ler para as crianças diariamente, por pelo menos 15 minutos. Há uma recomendação explícita de que se dê preferência a livros ilustrados, “para que ela [a criança] possa acompanhar a leitura com atenção por mais tempo” e associe as palavras às imagens. O texto diz, ainda, que os pais podem começar a prática da leitura partilhada “desde o ventre materno”

2. Memória Auditiva de Curto Prazo
Nadalim defende que as crianças precisam exercitar a capacidade de reter informações auditivas para conseguirem se alfabetizar. Para isso, ele propõe um exercício de “emissão de comandos”, que pode ser uma brincadeira: pede-se que a criança faça alguma coisa, como “Filho, vá ao banheiro e pegue uma escova de dente. Mas espere que eu diga ‘já’. Um, dois, três, já!”

3. Consciência de Frases e Palavras
Após essa etapa, aparecem exercícios de reconhecimento das frases como unidades de sentido e das palavras, como as partes que a compõem. Recomenda o e-book: “Os pais podem usar blocos ou copos coloridos para representar cada palavra; e, assim que uma palavra for pronunciada, movimenta-se o objeto correspondente”

4. Consciência Silábica
Aqui, o método desce a uma unidade ainda menor, a sílaba, a partir de outro exercício: “Você deve segmentar palavras batendo uma palma para cada sílaba ao pronunciá-la, e a criança terá de ser capaz de dizer o número de sílabas da palavra. Use palavras que sejam familiares ao seu filho, como nomes de pessoas da sua família”, prescreve o autor

5. Consciência Fonêmica
No “momento mais importante”, explica que essa unidade é abstrata para as crianças e, embora diga que há inúmeros exercícios para aprendê-la, exemplifica apenas um. Ele consiste em criar cartões com imagens de objetos cujo nome começa com sons semelhantes, como “mala”, “mola”, “mula”, utilizando-os em dinâmicas que visam à associação entre os fonemas, as palavras escritas e as imagens

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