Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Vélez faz dança das cadeiras no MEC em meio a críticas de Olavo de Carvalho

Escritor, que indicou ministro, pediu que alunos deixem governo Bolsonaro

Paulo Saldaña
Brasília

O ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, promoveu nesta sexta-feira (8) uma dança das cadeiras na pasta. As mudanças ocorrem após o escritor Olavo de Carvalho publicar nas redes sociais que seus ex-alunos deveriam sair do governo Jair Bolsonaro (PSL).

Entre as mudanças, deixará o posto o chefe de gabinete do MEC, Tiago Tondinelli,  O advogado  é um dos ex-alunos de Olavo que ocupam cargos-chave na pasta. 

Até então, Tondinelli era uma das pessoas mais próximas do ministro. Ele não quis comentar a saída. Alegou apenas que ela estava prevista antes dos comentários feitos por Olavo e que o motivo é pessoal. 

Olavo de Carvalho, guru ideológico de Bolsonaro e espécie de mentor da nova direita no Brasil, sugeriu ao governo os nomes dos ministros Vélez e Ernesto de Araújo, das Relações Exteriores.

Na quinta, ele disse em rede social que seus alunos deveriam deixar a administração federal, com o argumento de que há muitos inimigos entre os que cercam Bolsonaro, o que foi entendido como uma alusão ao vice-presidente, general Hamilton Mourão. Nesta sexta, ele voltou a atacar o general em redes sociais.

Nesta sexta o escritor voltou a fazer publicações que foram entendidas como ataques a Mourão: “Imaginem então o general, que, emergindo da tediosa e austera secura da vida militar, se vê de repente cercado de luzes, câmeras e gostosas repórteres. Cai de joelhos”, escreveu ele.

Silvio Grimaldo de Camargo, nomeado em fevereiro assessor especial do ministro, escreveu em uma de suas redes sociais que o MEC promove um expurgo de ex-alunos de Olavo.

"O expurgo de alunos do Olavo de Carvalho do MEC é a maior traição dentro do governo Bolsonaro que se viu até agora. Nem as trairagens do Mourão ou do [ex-ministro Gustavo] Bebianno chegaram a esse nível", escreveu na tarde desta sexta. Até a publicação desta reportagem, a exoneração de Camargo não havia sido oficializada.

Segundo Camargo, ele não foi expulso do MEC, mas avisado que seria transferido para um cargo sem expressão na Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

"Durante o Carnaval, estando fora de Brasília, fui avisado por telefone que perderia minhas funções no gabinete e seria transferido para a Capes, onde deveria enxugar gelo e 'fazer guerra cultural'. O cargo era apenas um prêmio de consolação pelos serviços prestados, uma política comum com os que se tornam indesejados no MEC", escreveu ele, que diz ter comunicado ao ministro seu desligamento. 

"Dada a absurdidade da proposta, que veio como uma decisão tomada e consumada, e vendo que o mesmo destino fora dado a outros funcionários ligados ao Olavo (apenas olavetes foram transferidos) e mais alinhados com as mudanças propostas pela eleição de Bolsonaro, não vi outra saída senão comunicar ao ministro meu desligamento", completou.

Camargo alega que a decisão de mudança partiu do "círculo técno-militar [sic] que o rodeia [Bolsonaro] e se borra de medo da [revista] Veja".

A Folha pediu entrevista com Camargo mas não obteve resposta.

O MEC é palco de disputa entre três grupos: militares, que ocupam cargos importantes, discípulos de Olavo (que incluem o ministro) e técnicos oriundos do Centro Paula Souza, a autarquia paulista que cuida das escolas técnicas.

Luiz Antonio Tozi e Tania Leme de Almeida, secretário-executivo e de Educação Básica do MEC, respectivamente, vieram de lá. Pelo menos outros dois ex-professores do órgão ocupam cargos na pasta. 

A insistência do ministro em pautas ideológicas tem preocupado integrantes das alas do Paula Souza e  militares, também representado por egressos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O ex-reitor do ITA, Anderson Ribeiro Correia, é o presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

As movimentações pegaram de surpresa até alguns auxiliares próximos do ministro. No Diário Oficial desta sexta-feira, cinco membros da pasta ou de órgãos ligados ao ministério foram dispensados.

Um dos exonerados é o coronel Ayrton Rippel, chefe de gabinete adjunto do ministro. A Folha apurou que, apesar da exoneração, é possível que Rippel seja deslocado para outro cargo. Mesmo exonerado, ele permanecia no MEC nesta sexta-feira.

O chefe de gabinete do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), André Monat, teve a nomeação tornada sem efeito. Monat também é egresso do ITA.

​Em meio as movimentações, o nome do assessor do MEC Murilo Resende também apareceu como um dos possíveis demitidos. À Folha, ele disse que não deve sair.

Defensor do projeto Escola sem Partido, Resende havia sido nomeado para uma diretoria responsável pelo Enem no Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais). Após repercussão negativa, acabou confirmado como assessor do MEC, mas mantém trânsito no Inep.

O MEC não quis se pronunciar sobre as mudanças. Segundo um auxiliar próximo ao ministro, as mudanças de cargo teriam motivação apenas administrativa e que os exonerados ou dispensados devem ser realocados em cargos que se encaixem ao perfil. 

Outras mudanças na equipe devem ocorrer nos próximos dias.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.