Após hesitação, é nomeado o novo presidente do Inep, responsável pelo Enem

Engenheiro foi indicação de grupo ligado a militares e participou de discussões na etapa de transição

Brasília

​O engenheiro e ex-consultor organizacional Marcus Vinícius Carvalho Rodrigues, 63, foi nomeado nesta terça-feira (22) para o cargo de presidente do Inep, instituto do Ministério da Educação responsável pela realização do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e pela avaliação do ensino no país.

A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União. Ex-professor adjunto da FGV, Rodrigues é uma indicação do grupo ligado aos militares no governo de Jair Bolsonaro.

 

Antes de ser nomeado, participou das discussões ainda na etapa de transição para o novo governo.

Na plataforma Lattes, que reúne seu histórico acadêmico, Rodrigues já aparecia nesta terça como novo presidente do Inep, além de ter sido “executivo, consultor organizacional, palestrante, professor em cursos de pós-graduação e escritor”.

Formado em engenharia elétrica pela UFC (Universidade Federal do Ceará), ele tem mestrado em administração de empresas pela UFMG e doutorado em engenharia de produção pela UFRJ. Também atuou por quase 20 anos como executivo dos Correios.

Apesar de Rodrigues ter sido anunciado como cotado para o posto desde o início de janeiro, a demora para publicação da nomeação foi interpretada por alguns membros do setor como uma demonstração de que a equipe de Bolsonaro estava com dificuldades em oficializar um nome. Segundo o Inep, no entanto, Rodrigues já atuava na montagem da equipe nas últimas semanas. 

Em nota divulgada nesta terça, Rodrigues disse que pretende trabalhar para "melhorar a qualidade, aumentar a confiança e diminuir os custos para que o Inep consolide sua excelência em avaliação, estatísticas e estudos educacionais”.

Sua nomeação ocorre cinco dias após o governo recuar e suspender a nomeação do economista Murilo Resende Ferreira para assumir a coordenação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Ele ficaria subordinado ao presidente do Inep no cargo de diretor de avaliação da educação básica  do instituto. 

Sem experiência prévia na área, defensor das ideias do programa Escola Sem Partido e crítico do que classifica como "ideologia de gênero", Ferreira chegou a chamar, em 2016, os professores brasileiros de "manipuladores" que não querem "estudar de verdade".

Sua indicação foi criticada por educadores e inclusive por um dos coordenadores do MBL (Movimento Brasil Livre). Segundo Renan Santos, Ferreira já havia integrado o movimento, mas fora expulso por ser "lunático, conspiratório, fora da realidade".

ENEM

A escolha para a presidência do Inep era uma das mais esperadas da nova gestão devido à polêmica em torno de declarações recentes de Bolsonaro sobre o Enem.

Crítico de perguntas feitas no exame de 2018, como uma menção a linguagem da comunidade LGBT, Bolsonaro disse em novembro que pretendia "tomar conhecimento" das questões com antecipação, para privilegiar "questões realmente voltadas ao que interessa”.

"Essa prova do Enem, vão falar que eu estou implicando. Agora pelo amor de Deus. Esse tema da linguagem ‘particulada’, aquelas pessoas, o que isso tem a ver? Vai estimular a molecada a se interessar por isso agora. No ano que vem, pode ter certeza, não vai ter questão dessa forma. Nós vamos tomar conhecimento da prova antes”, afirmou.

A intenção provocou reação de educadores, para quem há risco à credibilidade técnica e ao sigilo do exame, que no último ano teve 5,5 milhões de inscritos.

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