Viagem que terminou com foto de Bolsonaro integrava atividade do Colégio Bandeirantes

Em meio a maioria que apoiava presidente, aluno fez L de 'Lula Livre'; chorei de orgulho, diz mãe

Angela Pinho
São Paulo

A viagem de alunos do Colégio Bandeirantes que terminou com uma fotografia ao lado do presidente Jair Bolsonaro (PSL) no sábado (20) fazia parte de uma atividade realizada todo ano desde 2013 pela escola, uma das mais tradicionais de São Paulo. O encontro com o presidente, no entanto, pegou pais de surpresa.

Assustada com a repercussão, parte das famílias de alunos contrárias ao presidente foi ao aeroporto prestar apoio à minoria de estudantes que se posicionou contra ele no encontro no Palácio da Alvorada.

O episódio ocorreu na noite de sábado (18), quando Bolsonaro foi à portaria de sua residência para cumprimentar o grupo de estudantes do Bandeirantes que, de longe, gritava "ô Bolsonaro, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver".

Bolsonaro fala com visitantes na porta do Palácio da Alvorada
Bolsonaro ganha camiseta de alunos do Colégio Bandeirantes - Daniel Carvalho/Folhapress

Ao chegar perto dos alunos, ele perguntou-lhes sobre as manifestações contra os cortes de verba na educação que ocorreram em mais de 170 cidades na última quarta-feira (15). "E esse movimento do pessoalzinho aí que eu cortei verba, o que vocês acharam?"

"Um lixo. A gente é estudante de verdade. A gente estuda", respondeu um dos alunos da escola, que tem mensalidade na faixa dos R$ 3.000.

"Contingenciamento", disse um outro aluno, após Bolsonaro falar em corte, evocando o argumento do governo de que se trata apenas de um bloqueio de recursos que pode ser revertido.

O presidente recebeu deles uma camisa da seleção brasileira de futebol.

Em nota, o Bandeirantes informou que a viagem a Brasília é realizada há seis anos.

"Acompanhados de professores de história e geografia, os alunos têm a oportunidade de conhecer o Palácio da Alvorada, o Senado e a Catedral Metropolitana de Brasília, entre outros espaços. A proposta é promover uma vivência em lugares onde a política brasileira acontece, saber mais sobre personagens da história do Brasil e, ainda, desfrutar da arquitetura e da arte presentes na capital", diz o texto.

Ainda segundo o comunicado, "para a surpresa da equipe pedagógica e dos próprios jovens, pela primeira vez um presidente da República recepcionou-os de forma não programada e casual". 

"Sem restrição ideológica, a instituição valoriza a pluralidade, o pensamento crítico e a liberdade de expressão de sua comunidade de estudantes", diz o texto. 

Durante a eleição de 2018, o diretor da escola, Mauro Salles Aguiar, fez postagens em sua rede social contra o PT e Fernando Haddad, candidato derrotado por Bolsonaro que é também ex-aluno do próprio Bandeirantes.

Do encontro dos estudantes com Bolsonaro, ficou uma foto que chamou a atenção para uma particularidade. Enquanto cerca de 25 jovens sorriem para a câmera ao lado do presidente, dois fazem um L com o dedo polegar e o indicador, em referência ao slogan "Lula Livre", que pede a soltura do petista. 

Alunos do Colégio Bandeirantes posam ao lado de Bolsonaro
Alunos do Colégio Bandeirantes posam ao lado de Bolsonaro - Daniel Carvalho/Folhapress

Tanto o encontro como a foto foram um susto, disse à reportagem a mãe de um desses alunos divergentes. 

"Meu filho ligou e falou: 'mãe, você não vai acreditar: estamos entrando para ver o Bolsonaro", disse ela. A Folha optou por não divulgar sua identidade. "Depois ele falou que estava só com 1% de bateria e desligou."

Apreensiva, a mãe só soube o que havia acontecido quando as imagens do encontro começaram a circular. "Quando recebi a foto [com o garoto fazendo o L], caí no choro de orgulho", diz ela, que é contrária às ideias de Bolsonaro e ao que ele representa desde antes da eleição.

Ela interpretou o gesto do filho não necessariamente como uma defesa de Lula, mas uma tomada de posição contra o presidente e a favor do direito de divergir.

No ano passado, em eleição interna no Bandeirantes, Bolsonaro obteve 32% dos votos, atrás apenas de João Amoêdo, que recebeu 34%.

A mãe relata que o adolescente, de 15 anos, gosta muito de história e esperava havia mais de um ano pela viagem a Brasília, que é optativa. Com a polarização do período eleitoral, porém, o menino cogitou desistir.

Após refletir, o jovem acabou decidindo participar da viagem, na qual, conta a mãe, teve que mudar de lugar no avião algumas vezes devido a provocações por seu posicionamento anti-Bolsonaro.

Segundo relatos, além dos dois alunos que saíram em posição divergente, um grupo de quatro a sete meninas se recusou a aparecer no retrato. Algumas teriam chorado diante do incômodo com a situação.

Para dar uma força a esse grupo dissonante, cinco mães de alunos, inclusive o que saiu na foto fazendo o "L", foram ao aeroporto com cartazes de apoio. Nesta segunda-feira (20), ela ainda refletia sobre a experiência, mas já tinha uma convicção. "Ele sempre foi sensato, mas, com o que aconteceu nesses dois dias, já amadureceu um ano", disse.

Erramos: o texto foi alterado

Diferentemente do publicado em versão anterior deste texto, o candidato João Amoêdo (Novo) venceu a eleição interna no Colégio Bandeirantes, com 34% dos votos. Jair Bolsonaro ficou com 32%. O erro foi corrigido.
 

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