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Professores e alunos fazem WebTV na periferia

Educadores apontam que trabalho produzido por estudantes incentiva permanência na escola

Patrícia Vilas Boas
São Paulo | Agência Mural

Kevin Guilherme Souza, 13, é estudante do 8º ano do ensino fundamental. Mas, neste ano, se tornou também apresentador de TV.

Ele comanda o quadro Nerd Mania na escola estadual Professor Amador dos Santos Fernandes, que desde o ano passado lançou uma WebTV.

“Por mim eu ficava aqui [no programa] no 1º, 2º, 3º [ano do ensino médio]”, diz Kevin. “As escolas que frequentei nunca tinham um negócio assim para os alunos. Eram mais lição, no máximo um interclasse e só.”

Isadora e Kevin, que participam de programas da WebTV de escola pública na zona leste de São Paulo
Isadora e Kevin, que participam de programas da WebTV de escola pública na zona leste de São Paulo - Patrícia Vilas Boas/Agência Mural/Folhapress

A escola fica no Jardim Robru, no distrito da Vila Curuçá, zona leste de São Paulo. A ideia da WebTV foi do professor de artes, história e geografia Silas Maciel, 48. Foi criado um pequeno estúdio e o trabalho tem sido publicado no Youtube. 

A inspiração veio de um projeto realizado na escola Ayrton Busch, de Bauru, interior de São Paulo, onde alunos faziam reportagens. No caso da Amador, no entanto, novos quadros foram incorporados após sugestões dos estudantes. “A ideia do nosso canal é ser diversificado”, diz Maciel.

Há, por exemplo, jogos de perguntas e respostas, entrevistas com ex-alunos, dicas de língua portuguesa e matemática e a cobertura de eventos regionais. “A gente tentou construir junto com eles”, ressalta o educador. “Esse [quadro] Desafio Amador foi o próprio aluno que sugeriu”, explica, citando um programa de perguntas e respostas que leva o nome da escola.

Kevin começou a participar do Nerd Mania após ser incentivado pelo professor eventual de história Marcos Vinicius Santos Brasileiro, 35, que apoiou a criação do quadro e ajudou na montagem de cenário. “O professor Vinicius conversa muito com a gente”, conta o jovem.

“Ele viu que alguns alunos tinham mais interesse em HQs, filmes. Chegou em nós e conversou: ‘pessoal, a gente está querendo formar um novo canal na WebTV, vai tratar de assuntos [como] filmes, animes, HQs. Tudo do mundo nerd.”

Além de Silas e Vinicius, outros professores apoiam a ação de forma voluntária, como o coordenador, Cássio Nascimento Souza, 38. Ele auxilia na produção de conteúdo para o canal há um ano e, atualmente, é voluntário responsável pela edição dos vídeos. 

O professor Silas (esq.), criador do projeto, o coordenador Cássio, os alunos Isadora e Kevin e o professor Vinicius
O professor Silas (esq.), criador do projeto, o coordenador Cássio, os alunos Isadora e Kevin e o professor Vinicius - Patrícia Vilas Boas/Agência Mural/Folhapress

“A tecnologia tem que caminhar junto com a educação. A gente vê que o aluno se envolve mais com a escola, aprende de uma forma diferente”, diz Souza. “Os alunos que participam querem viver na escola. Acaba o horário e querem continuar aqui.”

A produção de conteúdo, assim como a estruturação dos cenários e os materiais usados, é realizada pelos alunos e educadores de forma colaborativa. Cada professor ou aluno traz seu pôster para compor os cenários ou equipamento para auxiliar nas gravações. 

“A gente tem tripé, usa meu celular, usa o microfone que é do Silas, que ele trouxe para a escola. Fizemos um banner para ser o fundo do nosso Desafio Amador. Tudo dinheiro nosso. Porque a gente quer ver os alunos participando da vida escolar”, relata Cássio.

Estudante do 9º ano, Isadora Pedrosa Barbosa, 15, é repórter da WebTV Amador (ainda não há um nome oficial, mas costumam usar a denominação da escola). A jovem já entrevistou figuras como a primeira-dama Bia Doria e Viviane Senna, irmã do piloto Ayrton Senna. “O pessoal aqui da escola falou que eu levo muito jeito para jornalismo”, diz.

Os educadores comentam que a falta de tempo para dar andamento aos quadros é um desafio. “Gostaríamos de envolver mais pessoas, mas a gente não tem estrutura. Muitos professores não participam e não é porque não querem”, diz Cássio.

Há até uma fila de espera para participar das gravações do canal. Em média, 20 alunos estão envolvidos.

Além das habilidades desenvolvidas pelos alunos com a atividade extracurricular, os jovens também ganham apoio dos familiares. 

“Minha mãe adora. Ela assiste a todos”, afirma Isadora, que diz notar evolução entre os primeiros e últimos vídeos. “Meu pai prefere que eu fique aqui do que na rua. Eu aprendo também”, diz Kevin, que complementa. “Ele fala comigo: ‘essa escola está te ajudando bastante’.”

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