Descrição de chapéu Palavra Aberta

Um prato colorido de comida e de informação

O que uma alimentação balanceada pode nos ensinar sobre o que consumimos na internet

São Paulo

Desde cedo nos ensinam —mas nem sempre aprendemos— que uma alimentação balanceada é a mais indicada para nossa saúde.

Para compor “um prato colorido”, a recomendação de médicos e nutricionistas é caprichar nas verduras e nos legumes e reduzir o consumo de alimentos processados e ultraprocessados. A ideia por trás dessa recomendação é que, quanto mais próximo de seu estado natural, mais saudável seria o alimento.

Tela do aplicativo WhatsApp - Tomas White/Reuters

Com a informação pode acontecer algo similar. 

Pense nas brincadeiras de “telefone sem fio”, em que uma mensagem inicial é transmitida, ao pé do ouvido, entre um grupo de colegas. 

Não raro, o recado que chega ao último da fila é completamente diferente daquele que iniciou o jogo. Ou seja, a informação processada por cada um dos participantes ganha novos contornos e significados, o que acaba distorcendo o conteúdo original.

Na brincadeira infantil, a graça está justamente na mudança de sentido da frase. Escola que vira sacola, que vira gaiola, que vira vitrola… Quanto mais distante do original, melhor.

Na vida real, no entanto, o telefone sem fio é um jogo perigoso. 

Com quantas mensagens encaminhadas e reencaminhadas nos deparamos diariamente nas redes sociais e em aplicativos de mensagens? E quantas vezes somos incapazes de identificar sua autoria e a intenção de quem iniciou seu compartilhamento?

O potencial explosivo de passar adiante qualquer conteúdo sem refletir fica mais evidente quando analisamos a capilaridade de ferramentas como o WhatsApp. 

Mundialmente, o número de usuários de aplicativos de mensagens deve alcançar 2,7 bilhões este ano, segundo estimativa da consultoria eMarketer.

Daí a importância de refletir antes de passar adiante qualquer conteúdo. Numa era em que a oferta de informação é abundante, é responsabilidade de cada um de nós escolher o que consumir e o que compartilhar em nossas redes. 

Essa é uma das ideias centrais do livro “A Dieta da Informação”, do americano Clay A. Johnson. O autor defende que, assim como os alimentos mais próximos da terra tendem a ser mais saudáveis, a informação mais próxima da fonte tende a ser mais fidedigna. 

E vai além: buscar ativamente um “prato de informação” mais diversificado, em vez de consumir  exclusivamente o que os algoritmos ou mesmo nossos grupos de amigos ou familiares nos apresentam, é um caminho interessante para ampliarmos nosso entendimento do mundo.

O professor de jornalismo Charles Seife, da Universidade de Nova York, também se vale de metáforas ligadas à saúde para refletir sobre a qualidade das informações com que nos relacionamos. 

No livro “Virtual Unreality: Just because the internet told you, how do you know it’s true?” ("Irrealidade Virtual: Apenas porque a internet lhe disse, como você sabe que é verdade?", em tradução livre), Seife cita que os mesmos três fatores que determinam como uma doença se espalha —transmissibilidade, persistência e interconectividade— podem explicar como a informação (ou a desinformação) trafega pela internet. 

“No momento em que aprendemos a transformar todas as nossas informações em bits e bytes lançamos uma criatura inteiramente nova no mundo, com poderes —e riscos— que compreendemos apenas vagamente”, ressalta.

Há muitas iniciativas que podem contribuir para que esse novo mundo seja o mais saudável possível e algumas estão ao nosso alcance. 

Que tal incentivar as crianças e os jovens a buscar de forma ativa e intencional notícias de relevância para sua comunidade, sem consumir apenas os assuntos que já os interessava ou que são apresentados pelas plataformas?

Outra sugestão é apresentar aos alunos, de maneira habitual, pontos de vista diferentes sobre um mesmo tema, estimulando-os a debater divergências com empatia e respeito. 

A construção dessas habilidades mostra-se imprescindível neste momento, em que é grande o risco de nos fecharmos em nossas próprias bolhas, consumindo mais do mesmo. Tal dinâmica, além de nos privar de um olhar mais abrangente e plural sobre o mundo, é um atalho fácil para a radicalização do discurso. Ou seja, se estamos tão acostumados a só ouvir ecos de nossas próprias opiniões, fica mais difícil aceitar os pontos de vista diferentes.

É nesse contexto que uma dieta informacional mais balanceada pode nos ajudar.

Daniela Machado

Coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta

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