'Já precisei contar aos alunos que sou negra', diz professora do Vera Cruz

Vivian Ferreira Penteado, 47, leciona para o 4º ano do fundamental

Vivian Ferreira Penteado
São Paulo

Eu me formei em desenho industrial e, depois de uns anos trabalhando na área, entendi que minha vocação era mesmo ser professora.

Entrei em pedagogia na USP (Universidade de São Paulo) e lá já encontrei um cenário diferente do que imaginava. Eu era a única aluna negra da turma.

No meu primeiro estágio em uma escola particular de Higienópolis, as únicas professoras negras eram as auxiliares de sala. Na segunda, na Granja Viana, também só havia uma professora negra.

Eu nunca sofri preconceito nas entrevistas ou processos seletivos para as escolas, mas acredito que a forma de seleção não contribui para que mais negros sejam contratados para o corpo docente das unidades da rede particular.

Professora Viviam Ferreira Penteado, que dá aulas no Colégio Vera Cruz
Professora Viviam Ferreira Penteado, que dá aulas no Colégio Vera Cruz - Arquivo pessoal

No colégio Vera Cruz, onde estou há 9 anos, eu entrei depois de preencher um formulário no site e enviar meu currículo. Fui chamada e participei do processo junto com outros candidatos. Mas, dificilmente, esse é o procedimento de contratação nas escolas.

Os colégios optam, cada vez mais, por contratar por indicações ou encaminhamento das faculdades. E é aí que mora a dificuldade, as indicações são quase sempre de pessoas brancas, que têm em seu círculo profissional apenas outras pessoas brancas.

Eu mesma, se tivesse que indicar um professor para um colégio, não sei se conheceria algum docente negro para recomendar. Afinal, eu era a única na graduação e nos locais em que trabalhei.

A porta de entrada para as escolas precisa ser repensada, porque os professores negros, muitas vezes, não têm nem mesmo a oportunidade de se candidatar, de concorrer a uma vaga. Não é uma questão de qualificação, mas de acesso.

Eu, por exemplo, se dependesse da indicação de alguém, nunca teria trabalhado nos colégios onde trabalhei.

Na etapa em que dou aula (do 3º ao 5º ano do ensino fundamental), sou a única professora negra. Não sinto que tenho uma responsabilidade maior, mas sim a possibilidade de desconstruir padrões que estão sendo criados nas cabecinhas delas.

Aos poucos, elas vão criando padrões de onde estão os brancos e os negros na sociedade pelo que elas vivenciam. Quero mostrar que esse padrão não é o normal: só ter professores, coordenadores, diretores brancos. Tenho a possibilidade de mostrar a eles que ter um negro nesses espaços não é diferente.

As crianças não são preconceituosas, mas elas adquirem o preconceito. Em sala de aula, já tive de contar aos meus alunos que sou negra. Porque eles não me enxergavam como diferente, mas é importante que eles entendam as diferenças de tratamento que a sociedade nos dá.

Em uma aula sobre escravidão, eu disse às crianças que, se tivesse nascido naquela época, eu teria sido escravizada. Elas ficaram tristes, vi os olhinhos enchendo de lágrimas. Porque eles não querem essa violência e discriminação a uma pessoa querida por eles.

Eu sempre estudei em escolas particulares e o primeiro professor negro que tive foi no ensino médio.

Eu nunca tive dúvidas de que poderia ocupar qualquer lugar, que eu poderia ser o que quisesse. Para mim, esse professor era como os outros, não me chamava atenção o fato de ele ser negro.

Sempre me reconheci e me entendi como negra e me disseram que eu poderia ocupar qualquer espaço. Acho que faz mais diferença para crianças brancas ter aula com professores negros, porque são elas que precisam ser ensinadas que é natural nós, negros, ocuparmos todos os lugares, assim como elas podem.

Trabalho há 12 anos em colégios particulares e nunca tive alunos negros em nenhum dos lugares em que dei aula. Isso é o que eu gostaria de ver: a mesma presença de alunos e professores negros e brancos em uma escola.

Vivian Ferreira Penteado, 47 anos, professora do 4º ano do ensino fundamental do colégio Vera Cruz

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