Após acesso à água, artesãs do semiárido cearense voltam a lucrar com arte

Programa permitiu que tempo gasto para buscar o bem fosse aproveitado para confecções

Patricia Pamplona
São Paulo

O semiárido tem sede e não é apenas de água. Após obter o acesso do bem escasso diretamente na torneira, a comunidade descobriu que anseia também por conhecimento para poder aproveitar as seis horas a mais que ganhou por dia ao não ter que se deslocar para as fontes da região.

No projeto do Museu A Casa, em parceria com a Ama, marca da Ambev que levou água para 11 comunidades rurais do semiárido nordestino, cerca de 90 artesãs do interior cearense reencontraram na palha da carnaúba uma forma de obter renda.

Antes feito em pequena escala e de maneira mais rudimentar, a arte do sertão ganhou força e design profissional. “Era um projeto simples. A gente achou que era só para aprender”, conta Ana Claudia da Silva Barbosa, artesã que fez o curso.

No início, no entanto, a iniciativa foi recebida com certa descrença. “Procuramos quem estava interessada em fazer a trança. Muitas não queriam porque ganhava muito pouco. Elas faziam esteiras rústicas, ganhavam centavos”, explica Renata Mellão, diretora-geral do Museu A Casa.

“A equipe foi para lá e começou a desenvolver uma série de produtos. Deu certo o trabalho para elas acreditarem e fazerem coisas que renderiam mais, para poder vender um preço melhor.”

Os sete modelos de bolsas, cestos com flores, fruteiras com o talo da carnaúba feitos pelas artesãs, que tiveram aula com um profissional de tranças para desenvolverem além do conhecimento que já tinham, foram expostos no fim de 2018 no museu em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 

Enquanto estavam na capital paulista, as peças despertaram interesse de comerciantes que queriam revendê-las, o que resultou em contratos. “Não foi só o projeto realizado lá, mas houve também o componente econômico, o contato para futuras vendas”, afirma Andrea Matsui, gerente de sustentabilidade da Ambev.

Segundo Renata, as mais jovens, com pensamento mais ágil em relação ao virtual, conseguiram entrar melhor no mundo das vendas. Os artesanatos chegam a Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, em regiões com hotéis cinco estrelas.

Além do bem econômico, a elaboração dos produtos também traz vantagem para o fortalecimento comunitário. “Esses encontros fazem muito bem. Elas ficam isoladas, então isso vira um ponto de encontro.”

Após o pontapé e com água na torneira, Ana Cláudia diz que, agora, o sonho é aprender muito mais. “A carnaúba tem muitos artesanatos para aprender. A gente agora tem água e quer aprender cada vez mais.”

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