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Capacitação muda realidade e empodera empreendedoras no Nordeste

Programa une professor universitário e microempresárias em Alagoas

Cristiano Cipriano Pombo
São Paulo

Um negócio que não prosperava e um professor com vontade expandir para além dos muros da universidade o seu conhecimento e impactar a sociedade.

Foi neste contexto que o professor Mário de Souza, 35, e a empreendedora Dayane dos Santos, 23, se conheceram em 2018. Cada um a seu modo, eles tentavam transformar suas realidades.

Na Ufal (Universidade Federal de Alagoas), Mário leciona no curso de Ciência da Computação no campus de Arapiraca, a 120 km de Maceió. A 20 km dali, Dayane toca agora um empreendimento bem-sucedido, inspirado em sua filha.

Para ter sucesso, no entanto, a empreendedora precisou mudar o seu negócio. Na pequena cidade de São Sebastião (AL), ela comercializava rações de animais. Ter sua própria empresa era um sonho da infância passada na roça, no sítio da família.

A partir da esq., Dayane Maria dos Santos (23), Nathamyres dos Santos Rodrigues Silva (30), Ana Carolina Araújo Magalhães (25), Ylana Louise Costa Souza (44) e o professor Mário de Souza, em um dos encontros do Empreenda Santander
A partir da esq., Dayane Maria dos Santos (23), Nathamyres dos Santos Rodrigues Silva (30), Ana Carolina Araújo Magalhães (25), Ylana Louise Costa Souza (44) e o professor Mário de Souza, em um dos encontros do Empreenda Santander - Divulgação

Ao se mudar para a cidade com 15 anos, apostou numa loja de rações para animais. “Eu tinha a experiência do campo e a minha vivência estava ligada a questões da agricultura, do trato com os animais. Então a loja de ração foi algo natural para mim”, conta.

Mas faltavam alguns aprendizados para que o negócio prosperasse. “Eu não tinha noção de capital de giro. Até vendia bem, mas não tinha como repor e pagar todos os boletos. Foi triste”, lembra. 

"No processo de fechar a loja, conversei com uma amiga, que trabalhava na agência do Santander. Ela me falou que tinha um programa que oferecia R$ 5.000 a quem gravasse um vídeo e falasse sobre como pensava em expandir seu negócio.”

A alagoana fez o vídeo. “Foi de um minuto, meio amador mesmo, porque eu não queria perder o prazo.”

Ela foi uma das cinco selecionadas para o Empreenda Santander, um edital em que o banco buscava interessados em participar do piloto Universidade & Microempreendedor. Do lado da universidade, estava o professor Mário, que sempre teve a veia empreendedora.

Natural de Maceió, ele já tinha liderado uma empresa de tecnologia e acompanhava as criações da esposa no ramo de beleza. Na universidade desde 2009, lutava para dar novas perspectivas a universitários da região.

"Arapiraca é uma cidade muito interessante. Quando cheguei, vi como crescia diariamente, tanto que de 2012 a 2016 sempre houve ofertas de emprego. Mas ainda tinha o pensamento tradicional, de jovens buscando concursos públicos e muitas vezes deixando de testar todo seu potencial em um negócio ou uma causa. Era um pensamento voltado a negócios de famílias”, explica.

Com o professor do edital piloto selecionado de um lado e Dayane e outras quatro empreendedoras (Rafaela Brito, Nathamyres Silva, Ana Carolina Magalhães e Ylana Souza) escolhidas do outro, eles iniciaram uma jornada que intensificou o papel de educador e fez decolar o trabalho dessas mulheres.

Durante os seis meses do curso, as participantes resignificaram sua participação em casa, na família, nos negócios e na sociedade. O cronograma foi desenhado por Mário e contou com a participação de cerca de 40 pessoas, entre elas coaches, mentores, especialistas, oficineiros e universitários da empresa júnior da Ufal.

“Foi muito enriquecedor. Superou muito o que pensávamos. Ajudamos a romper preconceitos, como o de a mulher tomar a frente das ações”, afirma o professor.

Os entraves mais comuns eram as iniciativas estarem registradas no nome dos maridos e o fato de a mulher ter que, primeiro, dar conta dos cuidados da família e da casa para depois, de madrugada, trabalhar em seu empreendimento.

Na batalha diária para manter um negócio —e, no caso de Dayane, criar outro—, muitas vezes a empreendedora foi às capacitações com a filha Isabella, hoje com três anos, a tiracolo.

E foi Isabela quem a inspirou a tomar um novo rumo. "Já na época da loja, eu fazia lacinhos para a minha filha. Isso foi crescendo. E as capacitações que recebemos me ajudaram muito a melhorar minha comunicação com o cliente, minha atitude nas vendas e o controle sobre todo meu processo de produção”, afirma.

Dayane Maria dos Santos palestra, com a filha no colo, em São Sebastião (AL), no Ginásio de Esportes Municipal
Dayane Maria dos Santos palestra, com a filha no colo, em São Sebastião (AL), no Ginásio de Esportes Municipal - Arquivo Pessoal

A menina virou garota-propaganda do novo negócio da alagoana. “Ela vende na escola e me dá muitas dicas para inovar, colocar novas estampas, desenhos. Hoje, trabalho por ela”, diz Dayane, que é responsável por cerca de 60% da renda de sua família. Ela atende por volta de 150 pedidos por dia vindo de quatro cidades (São Sebastião, Junqueiro, Taquarana e Arapiraca).

“Se eu adquirir uma nova máquina de corte, posso dobrar minha produção e atender a pet shops também. E penso também em entrar na universidade.”

Enquanto Dayane, a mais novas das empreendedoras selecionadas, sonha, o professor provou o papel decisivo que a universidade pode ter em Arapiraca. Já o edital do Santander foi expandido a todos os estados do Brasil —no próximo dia 26 de junho, serão divulgadas as dez iniciativas finalistas de 2019, que serão capacitadas.

“A gente ajudou a empoderar essas mulheres, mas elas também ensinaram muito a toda a equipe. Foi um ganha-ganha”, diz Mário.
 

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