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'O trabalho ajudou nas finanças, ocupou a cabeça e recuperou autoestima', diz cozinheira de Frente Humanitária

Iniciativa do Centro Cultural Lá da Favelinha e da ACM Cafezal em favelas de BH foi premiada no Empreendedor Social do Ano na categoria Ajuda Humanitária

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Annamaria Marchesini
Florianópolis

Em fevereiro deste ano a cuidadora Maria Aparecida Martins, 46, mãe de 5 filhos, pediu demissão da clínica de idosos esquizofrênicos onde trabalhava em Belo Horizonte (MG).

Cota, como é conhecida, adorava os velhinhos, mas estava cansada. Esperava encontrar logo outro emprego, fosse como cuidadora ou cozinheira, já que antes do trabalho na clínica cozinhava e ajudava em restaurantes.

Enquanto estava em busca de uma vaga, a pandemia do coronavírus chegou e fechou literalmente todas as possibilidades. “Sou pai e mãe e única responsável pela casa”, diz ela, que vive atualmente com duas filhas e se prepara para ser avó.

A cuidadora Maria Aparecida Martins, 46, foi chamada para trabalhar na cozinha da Frente Humanitária, criada pelo centro cultural Lá da Favelinha e ACM Cafezal, no Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas do Brasil.
A cuidadora Maria Aparecida Martins, 46, foi chamada para trabalhar na cozinha da Frente Humanitária, criada pelo centro cultural Lá da Favelinha e ACM Cafezal, no Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas do Brasil. - Arquivo pessoal

Cota não conseguiu o seguro-desemprego porque as agências estavam fechadas, mas recebeu os R$ 1.200 das duas primeiras parcelas do auxílio do governo. “Só que eu precisava pagar as contas, comprar comida e as necessidades das crianças”, explica.

A agonia durou pouco mais de dois meses: em fim de maio Cota foi chamada para trabalhar na cozinha da Frente Humanitária, criada pelo centro cultural Lá da Favelinha e ACM Cafezal, no Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas do Brasil.

O convite partiu de Kika, presidente da Associação de Moradores da Vila Cafezal, que coordenou a Frente ao lado de Kdu dos Anjos, criador do centro cultural. A iniciativa foi um dos 30 destaques do Empreendedor Social do Ano em Resposta à Covid-19, na categoria Ajuda Humanitária.

Cota vive no Cafezal há 36 anos e diz que conhece todo mundo da comunidade. “Com a pandemia os moradores foram perdendo emprego, nosso dinheiro acabando e a gente não sabia como ia dar conta de viver.”

O trabalho na cozinha, erguida com parte dos recursos doados pelo rapper Djonga, mudou tudo e ela se dedicou a tarefa de alimentar os moradores com afinco.

“Acordava às 4h20 da madrugada, passava um batonzinho e às 5h abria a cozinha”, lembra. Cota começava o dia colocando 75 kg de feijão e 12 panelas de arroz para cozinhar. Preparava o café da manhã para as mulheres que começavam o turno depois dela.

Era preciso ainda preparar 200 kg de carne e os legumes que compunham as 2.000 marmitas distribuídas diariamente para os idosos, doentes e quem não tinha condições de preparar as refeições. “Às 10h30 elas tinham que estar prontas para a distribuição”, explica.

A cozinheira define a campanha como “uma experiência para sempre”.

“Neste período triste, o trabalho me ajudou nas finanças, ocupou a cabeça para eu não pensar na doença e me ajudou a recuperar a autoestima.” Cota diz que a convicção de que estavam ajudando muitas pessoas e “o desespero de fazer tudo certo para conseguir matar a fome de tanta gente” a fez descobrir uma pessoa que não sabia que era.

Mas o impacto da ação em sua vida não ficou por aí.

Com os R$ 2.000 mensais que recebeu durante os três meses de trabalho na Frente Humanitária, Cota pagou as dívidas que acumulou, comprou roupas novas para as filhas. Fez até festinha de aniversário para uma delas (“íntima, por causa do distanciamento”).

“E acertei meus dentes, que estavam feios demais. Agora já posso rir”.

A iniciativa emergencial acabou. Cota voltou a procurar serviço de cozinheira, babá ou cuidadora de idosos para sustentar Ana Letícia, 10 anos, e Maria Luiza, de 16. E se vier uma nova onda de Covid-19? “Aqui no Aglomerado já estamos prontos para a guerra”, garante.​

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