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Estudos do cérebro estão distorcidos por falta de dados, alertam cientistas

Pequeno número de participantes nas pesquisas não possibilita que os resultados sejam confiáveis, argumenta grupo

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Matt Richtel
The New York Times

Os pesquisadores vêm usando tecnologia de ressonância magnética há duas décadas para identificar de que forma a estrutura e a função do cérebro de uma pessoa se conectam a uma série de problemas de saúde mental, de ansiedade e depressão às tendências suicidas.

Mas um novo estudo, publicado na quarta-feira (16) pela revista científica Nature, coloca em questão se muitas dessas pesquisas estão de fato produzindo resultados válidos.

Muitos estudos desse tipo, constataram os autores do trabalho, tendem a incluir menos de duas dúzias de participantes, o que fica muito aquém do número necessário a gerar resultados confiáveis.

Realização de uma ressonância magnética no Hospital de Amor, em Porto Velho (RO)
Realização de uma ressonância magnética no Hospital de Amor, em Porto Velho (RO) - Beethoven Delano - 23.jul.18/Folhapress

"Milhares de indivíduos são necessários para um estudo", disse Scott Marek, pesquisador de psiquiatria na Escola de Medicina da Universidade Washington, em St. Louis, e um dos autores do estudo.

Ele descreveu a constatação como "um golpe severo" contra os estudos típicos que empregam a ressonância magnética a fim de tentar compreender melhor a saúde mental.

Os estudos que usam tecnologia de ressonância magnética para registro de imagens cerebrais costumam apresentar conclusões precedidas por uma ressalva quanto ao tamanho pequeno da amostragem.

Mas obter participantes para esse tipo de pesquisa pode ser um processo demorado, e o trabalho é caro, com custos de entre US$ 600 e US$ 2.000 por hora, de acordo com Nico Dosenbach, neurologista na Escola de Medicina da Universidade Washington e outro dos autores do estudo.

O número mediano de participantes nos estudos relacionados à saúde mental que empregam ressonância magnética cerebral é de cerca de 23, ele acrescentou.

Mas o estudo publicado pela Nature demonstrou que dados extraídos de um número de participantes inferior a duas dúzias de pessoas são em geral insuficientes para oferecer conclusões confiáveis e na verdade podem propiciar resultados "fortemente distorcidos", disse Dosenbach.

Para sua análise, os pesquisadores examinaram três dos maiores estudos que usaram tecnologia de ressonância magnética cerebral para chegar a conclusões sobre a estrutura do cérebro e a saúde mental.

Os três estudos continuam em curso: o Human Connectome Project, com 1.200 participantes; o estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente (ABCD, na sigla em inglês), com 12 mil participantes; e o estudo do Biobank do Reino Unido, com 35,7 mil participantes.

Os autores do estudo publicado pela Nature estudaram subconjuntos de dados desses três estudos a fim de determinar se avaliações baseadas em números menores de participantes eram enganosas ou "reproduzíveis", o que significa que seus resultados poderiam ser considerados cientificamente válidos.

Por exemplo, o estudo ABCD avalia, entre outras coisas, se a espessura da massa cinzenta do cérebro pode apresentar correlação com a saúde mental e a capacidade de solução de problemas.

Os autores do estudo publicado pela Nature avaliaram pequenos subconjuntos de dados dentro do estudo mais amplo e constataram que os subconjuntos produziam resultados indignos de confiança, se comparados aos resultados oferecidos pelo conjunto completo de dados do ABCD.

Ressonância magnética com amígdalas destacadas
Ressonância magnética com amígdalas destacadas - Reprodução/Frontiers in Neuroscience

Por outro lado, os autores descobriram que quando resultados são obtidos de amostras envolvendo alguns milhares de participantes, as conclusões tendem a ser semelhantes às encontradas com o uso do conjunto de dados completo.

Os autores realizaram milhões de cálculos usando tamanhos de amostra diferentes e as centenas de regiões cerebrais exploradas em diversos dos grandes estudos. E repetidamente determinaram que subconjuntos de dados obtidos de amostras menores do que alguns milhares de participantes não produziam resultados compatíveis com os do conjunto de dados pleno.

Marek disse que as constatações do estudo se aplicam "completamente" a outros campos que não o de saúde mental. Outros campos, como a genômica e a pesquisa de câncer, já enfrentaram dificuldades por conta da limitação causada pelo tamanho pequeno das amostras, e tentaram corrigir seu rumo, ele apontou.

"Meu palpite é que isso se aplica muito mais à ciência da população do que a qualquer desses campos", ele disse.

Tradução de Paulo Migliacci

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