Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Com nome de Elis Regina, gremistas criam torcida feminista

Artista é homenageada por coletivo que combate preconceito no futebol

Paula Sperb
Porto Alegre

Datilografada, a ficha número 688 mostrava os dados da nova sócia do Grêmio: Elis Regina. Aos 17 anos, a cantora gremista que já havia trocado Porto Alegre pelo Rio de Janeiro em decorrência do sucesso marcou a história do clube ao se associar ao time tricolor em 1962.

Agora, a artista reconhecida pela defesa dos direitos das mulheres dá nome a uma torcida feminista do Grêmio que combate o assédio e todos tipos de preconceito, incluindo homofobia e o racismo, em alguns casos envolvendo a própria torcida gremista.

Torcedoras gremistas do coletivo Elis Vive mostram bandeira em frente ao estádio do time em Porto Alegre antes de partida do Grêmio na capital gaúcha
Torcedoras do coletivo Elis Vive mostram sua bandeira antes de partida do Grêmio em Porto Alegre  - Marcos Nagelstein/Folhapress

“O Grêmio tem que sair campeão, o racismo não! Racistas não passarão”, escreveu a torcida em sua conta no Facebook após o jogador do Fluminense Yony González ser xingado de “macaco” por gremistas depois de marcar o gol da vitória sobre o clube gaúcho, em Porto Alegre.

O Coletivo Elis Vive reúne cerca de 40 gremistas que lutam para fazer do estádio um espaço de diversidade e inclusão, com torcedoras trans, negras e com deficiência.

“Depois que me assumi, há 10 anos, deixei de frequentar jogos por medo. Eu fiquei sem turma. Sendo uma mulher trans, sei o que pode acontecer. O coletivo é unido, saudável. Aqui me sinto confortável e protegida porque não estou sozinha”, diz Luíza Eduarda dos Santos, 42, que milita pela causa transfeminista e integra a torcida.

O primeiro “trapo”, como elas chamam os tecidos com as mensagens do coletivo, com a imagem de Elis Regina foi feito para conscientizar sobre o Dia da Mulher, em 2018.

Elas ainda não eram um coletivo organizado, mas parte de uma torcida maior, com homens, a Tribuna 77. Eles se identificam como “antifa”, ou seja, contra o fascismo, um movimento de torcidas que existe em diversas partes do país. O coletivo segue integrando a Tribuna 77.

O trapo delas foi pendurado atrás das cadeiras superiores da ala norte da Arena do Grêmio. Depois disso, passaram a ser reconhecidas.

Bandeira de torcida do Grêmio contra o racismo escrito: "Ama o Grêmio FBPA, combate o racismo".
Bandeira de torcida do Grêmio contra o racismo - Divulgação

Em novembro passado, o discurso feminista da apresentadora gaúcha e gremista Fernanda Lima, durante o programa Amor e Sexo, da Globo, repercutiu positivamente no grupo de WhatsApp da Tribuna 77. Foi quando surgiu a ideia de organizar as mulheres em um núcleo próprio.

“A gente defende o direito de ir e vir, a qualquer lugar, do jeito que a gente quiser, sem importunação de assédio por causa da roupa. A gente passa o tempo todo desconstruindo o machismo”, explica a integrante Patrícia Ferreira, 41.

Um dos exemplos de ação é a distribuição de um “machistômetro dos estádios”. O material em forma de folheto indica aos homens, por exemplo, que não devem dizer que mulher não entende de futebol e não devem perguntar a uma torcedora a escalação do time ou a regra do impedimento para que ela prove conhecimento. Há indicações também sobre não forçar contato físico ou proibir namoradas e esposas de irem aos jogos.

O coletivo passou atrair mulheres que queriam ir ao jogo, mas não tinham companhia. Analu Oliveira, 28, viajou sozinha de Santa Maria a Porto Alegre para ver um show na capital e aproveitou para assistir à partida contra o Santos, pela primeira rodada do Brasileiro. Ela contatou as torcedoras pela internet e marcou de encontrá-las na Arena.

“O coletivo é importante para construir um território também feminino no estádio, para que todas, sejam mães, negras, se sintam à vontade. Isso constrói uma nova convivência, elas me receberam muito bem”, afirma Oliveira

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