Entenda por que testosterona elevada oferece vantagem a Semenya

Tribunal vetou participação de estrela do atletismo em provas femininas

Gina Kolata
Nova York | The New York Times

O Tribunal Arbitral do Esporte, em Zurique, decidiu que mulheres que apresentem níveis muito elevados de testosterona –bem acima da faixa normal– não poderão competir com outras mulheres em provas de 400 metros rasos a uma milha, a menos que usem medicamentos para suprimir a produção do hormônio.

A decisão impede que Caster Semenya, 28, atleta de elite e medalhista olímpica sul-africana, concorra em futuras provas nessas distâncias, por ter nível naturalmente elevado de testosterona em seu organismo. Ela contestou as tentativas de desqualificá-la de competir como mulher.

A ciência que embasa a decisão é complicada, e levanta questões difíceis sobre biologia, equanimidade e identidade de gênero.

O que é testosterona? De onde ela vem, em uma mulher?

Trata-se de um hormônio, um androgênio, que tem diversos efeitos sobre o corpo. Mulheres e homens podem produzir testosterona, mas o volume produzido pelas mulheres é menor.

Nos homens, os testículos produzem níveis elevados de testosterona. As glândulas adrenais, que ficam acima dos rins, também produzem a substância, em nível muito menor.

As mulheres também produzem testosterona em suas glândulas adrenais, e em seus ovários. Mas o volume produzido pelos testículos é muito maior: de 295 a 1.150 nanogramas por decilitro de sangue, ante um nível de entre 12 e 61 nanogramas por decilitro de sangue, nas mulheres.

Por que isso importa para os atletas?

A testosterona "constrói a musculatura", disse Benjamin Levine, médico que estuda a diferença de desempenho atlético entre os sexos no centro médico da Universidade Texas Southwestern. "Constrói músculo esqueletal, constrói músculo cardíaco. Eleva o número de glóbulos vermelhos no sangue".

Os efeitos são vistos quer o hormônio esteja naturalmente presente, quer seja introduzido por meio de medicação. Em um dos exemplos mais infames, mulheres que representaram a Alemanha Oriental em jogos olímpicos realizados nas décadas de 1970 e 1980 conseguiram sucessos notáveis depois de serem dopadas, sem que soubessem, com anabolizantes esteroides que continham testosterona.

"O lado científico é bem claro", disse o médico Aaron Baggish, do Massachusetts General Hospital, especialista em efeitos da testosterona. "Um corpo com mais androgênios tem vantagem de desempenho".

Mas corpos diferentes não costumam ter vantagens competitivas distintas? Por que o destaque para esse hormônio?

A maioria dos médicos especializados acredita que a testosterona seja excepcional, e diferente de braços alongados, no caso de um nadador, por exemplo, ou de outras vantagens físicas naturais.

Em um estudo, Levine submeteu homens e mulheres jovens e sedentários a um ano de treinamento atlético. No começo, os homens e mulheres tinham corações de tamanho semelhante. Um ano mais tarde, os corações dos homens tinham crescido muito mais, como resultado da criação de músculos propiciada pelo hormônio.

Os efeitos do hormônio são amplificados entre os atletas, alterando o corpo de maneiras que podem fazer grande diferença em termos de desempenho. Os homens campeões em todos os esportes são sempre muito mais velozes e fortes do que mulheres que estabelecem recordes mundiais.

A disparidade desempenho pode ser muito grande. As corredoras de elite jamais venceriam corridas disputadas contra atletas de elite masculinos, de acordo com Doriane Coleman, ex-atleta que competia em provas de média distância e hoje é professora de direito na Universidade Duke.

Coleman estudou os melhores desempenhos de três mulheres que foram as corredoras mais velozes da história nos 400 metros rasos (e não receberam injeções de testosterona).

Só em 2017, ela constatou, 10 mil homens e meninos que disputaram provas de 400 metros superaram os melhores tempos que essas corredoras registraram em suas carreiras.

Caster Semenya comemora conquista da medalha de ouro na final dos 1.500 m nos Jogos do Commonwealth, em 2018
Caster Semenya comemora conquista da medalha de ouro na final dos 1.500 m nos Jogos do Commonwealth, em 2018 - Saeed Khan - 10.abr.18/AFP

Por que o tribunal esportivo só decidiu sobre provas em distância de 400 metros a uma milha (1.609 metros)?

A decisão é compatível com a exigência de que estivesse estreitamente vinculada às evidências. Atletas que se identificam como mulheres mas apresentam níveis de testosterona na faixa comuns nos homens têm representação superior à media nas provas de corrida femininas de média distância, segundo um estudo recente.

Coleman disse que, nessas provas, os resultados das atletas com alta testosteronas "demonstram que elas desfrutam de vantagem de desempenho clara".

Atletas dessa categoria conquistaram 30 medalhas em olimpíadas e campeonatos mundiais, em provas de 400 a 1.500 metros. A incidência delas na população geral é de apenas uma em 20 mil, o que significa que sua representação nos pódios era cerca de 1.700 vezes superior à expectativa, o estudo concluiu.

Os cientistas acreditam que níveis de testosterona muito elevados ofereçam vantagem competitiva às mulheres em todos os esportes. Mas especialistas como Baggish e Levine –que foram consultados pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF)– endossaram uma decisão limitada, porque as provas de média distância são aquelas nas quais a testosterona faz mais diferença.

Uma decisão como essa não conflita com as definições mais amplas quanto a gênero que a sociedade vem adotando?

A decisão do tribunal não se refere a aceitar na sociedade pessoas intersexuais ou transgênero, disse Coleman. Seu objetivo é promover a igualdade de condições nas provas entre atletas femininas de elite.

Mas isso desperta outra questão interessante: Por que segregamos os atletas com base em ideias datadas sobre gêneros, para começar?

"A questão é: por que deveríamos ter esportes femininos", disse Levine. "Acredito que proteger as mulheres seja essencial, e lhes dar uma chance de sucesso". Com um limite de corte estabelecido para a testosterona, "algumas atletas se sentirão excluídas", ele admitiu.

E Levine tem uma pequena proposta quanto a isso: os atletas deveriam ser divididos em dois grupos: uma divisão feminina e uma divisão "aberta". Homens e qualquer pessoa com nível de testosterona superior à faixa feminina normal competiriam na divisão aberta.

Dessa forma, ele disse, "qualquer pessoa que deseje competir poderá competir".

Tradução de Paulo Migliacci

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