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The New York Times Maratona

Franqueza inédita de Jordan fala mais alto que defeitos de sua série

Entrevistas do astro do basquete dão ao documentário um peso duradouro

Marc Stein
The New York Times

Mesmo com um impecável histórico de seis vitórias nas seis séries finais que disputou na NBA, e de 27 vitórias em 29 séries de playoffs nos anos 1990, Michael Jordan dificilmente conseguirá calar completamente o debate sobre quem foi o maior jogador de basquete de todos os tempos.

Sempre haverá quem prefira Bill Russell, Kareem Abdul Jabbar ou, sim, até mesmo LeBron James.

Mas uma sucessão de vitórias como a dele gera imensos privilégios. Nenhum outro dos luminares da história da liga conseguiu aquilo que Jordan acaba de realizar.

“His Airness” [algo como “sua alteza”, um dos apelidos de Jordan] fez com que a NBA guardasse imagens inéditas de bastidores de sua sexta e última temporada campeã pelo Chicago Bulls, em 1997/1998, por mais de 20 anos, e depois disso conseguiu que a série em dez episódios que ele enfim aprovou sobre aquele período atraísse entre 4,9 milhões e 6,3 milhões de telespectadores por episódio nos Estados Unidos.

No Brasil, o conteúdo está disponível na Netflix.

Michael Jordan nas finais da NBA de 1997, quando conquistou seu quinto título
Michael Jordan nas finais da NBA de 1997, quando conquistou seu quinto título - Vincent Laforet - 4.jun.97/AFP

À medida que avançamos na história de “The Last Dance” [no Brasil chamada de "Arremesso Final"] , as críticas sobre o controle sem precedentes que Jordan –e dois de seus associados de negócios mais próximos, Estee Portnoy e Curtis Polk, atuando como produtores executivos– exerceram sobre o conteúdo vêm ganhando intensidade.

Sopan Deb, do The New York Times, ressaltou esse aspecto da série desde o começo, mas nada causou tanto barulho quanto o ataque feroz que o renomado documentarista Ken Burns escreveu para o The Wall Street Journal. Burns afirmou que o controle de Jordan sobre o projeto “não é a maneira certa de fazer bom jornalismo” e “não é a maneira certa de escrever a história”.

Os números impressionantes sobre a audiência, no entanto, deixaram uma coisa bem clara: o público não estava em busca de um documentário ao estilo de Burns.

Os espectadores só queriam ver Jordan, sentado em uma poltrona e falando às câmeras com franqueza maior do que em qualquer momento do passado, não importa o que tenha tido de ser sacrificado para gerar essa situação.

As pessoas queriam recordar a sensação de comunhão em torno de uma experiência de basquete compartilhada, em meio a uma crise mundial de saúde, sabendo que ainda não está decidido quando o reality show dos playoffs da NBA com que contamos a cada abril, maio e junho voltará para ocupar o vazio. Mesmo os jogadores atuais da liga tuítam sobre a série.

Nós precisávamos de algo assim, e nos deixamos envolver pela série –mesmo jornalistas esportivos resmungões como eu, que, em meio aos episódios duplos do domingo e aos disparos que eles geram no Twitter, decidiram compilar listas longas dos defeitos da série.

Vão persistir questões sobre o “bullying” de Jordan contra colegas de equipe, mesmo quando ele estava claramente passando dos limites com Scott Burrell (e outros), e por que isso passou sem contestação durante 10 horas de narrativa.

O mesmo se aplica à escassez de vozes que falem em defesa de Jerry Krause, o diretor-geral dos Bulls naquele período (morto em 2017), e ao esforço do proprietário do time, Jerry Reinsdorf, para evitar perguntas duras sobre os motivos para que ele não tenha afirmado sua autoridade (ou gastado mais dinheiro) a fim de manter unida uma equipe que se tornou dinastia.

Os saltos cronológicos constantes, da temporada de 1997/1998 para episódios na vida passada de Jordan que influenciaram seu ano final em Chicago, foram causa frequentemente comentada de consternação entre os espectadores.

Que o relacionamento entre Jordan e seus pais não tenha sido tratado na série, apesar do elo fortíssimo que ele tinha com seu pai, James, é outro motivo de crítica, da mesma forma que a recusa de Jordan em admitir sua influência na decisão de manter Isiah Thomas fora da equipe olímpica dos Estados Unidos em 1992 —algo que ele havia reconhecido previamente, em um livro de Jack McCallum sobre o Dream Team.

Michael Jordan ao lado de Larry Bird, Scottie Pippen e Clyde Drexler no pódio da Olimpíada de 1992
Michael Jordan ao lado de Larry Bird, Scottie Pippen e Clyde Drexler no pódio da Olimpíada de 1992 - Ray Stubblebine - 8.ago.92/Reuters

Mas não considero que a produção seja apenas um infomercial promovendo o nº 23, ao contrário do que alguns dizem. Não estamos diante de um relato definitivo e balanceado, ao modo Burns, mas a franqueza de Jordan, nas três entrevistas que deu ao diretor de Jason Hehir, por um total de cerca de oito horas, dá ao documentário um peso duradouro.

Para convencer Jordan a conceder as entrevistas necessárias e que ele teria de admitir que houve momentos em que foi um colega de equipe tirânico, Michael Tollin, da Mandalay Sports Media, um dos produtores executivos de “The Last Dance”, enfatizou fortemente, ao propor o projeto em 2016, que Jordan precisava do documentário.

Seria a oportunidade ideal, explicou Tollin, de informar devidamente uma nova geração de consumidores —ou seja, pessoas que compram calçados que levam o nome de Jordan, mas nunca o viram jogar.

O imenso sucesso comercial da série garante que a porta fique aberta para futuros projetos. Prepare-se para documentários, podcasts e livros que prometem um estudo mais rigoroso de, por exemplo, o preocupante hábito de Jordan de apostar em resultados de esportes, ou sua relutância em falar sobre questões políticas e sociais —e com a participação de entrevistados dispostos a ser mais críticos do que os vistos em “The Last Dance”.

O problema com futuras produções que devem ser definidas como “a verdadeira Last Dance” é que nenhuma delas terá cooperação nem próxima à oferecida por Jordan agora. Hehir e seus colegas tiveram de aceitar produzir a série nos termos ditados por Jordan para conseguir essa cooperação.

Mas conseguir a participação de "His Airness" depois de anos de virtual isolamento? Até mesmo Krause teria de reconhecer que qualquer um na NBA faria essa troca.

Tradução de Paulo Migliacci

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