Com Bielsa, Leeds troca anos de humilhação por vaga na Premier League

Técnico argentino conduz equipe tradicional do norte da Inglaterra de volta à elite

Rory Smith
Leeds | The New York Times

Na lateral, um membro da comissão técnica saltou para os braços do defensor Stuart Dallas, e o abraço parecia interminável. O dono do time, Andrea Radrizzani, estava em pé ao lado do túnel, abraçando cada jogador que se aproximava. Na arquibancada, o diretor técnico Victor Orta dava socos no ar e gritava de alegria.

O Leeds United estava quase lá. Há 16 anos o clube vinha ansiando por reconquistar seu lugar na Premier League: uma década e meia de humilhação e caos, falsas esperanças e profetas ainda mais falsos, nos perpétuos crepúsculos da segunda e da terceira divisões do futebol inglês. E então uma vitória difícil e magra sobre o Barnsley, na quinta-feira (16), havia deixado o time à beira do retorno: não matematicamente, não com certeza, não ainda, mas espiritualmente muito perto.

Em meio a toda a emoção, o arquiteto desse êxodo de volta ao paraíso, o excêntrico treinador argentino Marcelo Bielsa, caminhou na direção de seu colega do Barnsley, o alemão Gerhard Struber. Bielsa queria dizer a ele, daquele seu jeito meio sem graça e compenetrado, o quanto o time do rival o tinha impressionado e como ele admirava seu trabalho. “Ele encontrou as palavras certas para me dizer”, disse Struber.

Marcelo Bielsa celebra vitória que deixou o Leeds perto do acesso à Premier League
Marcelo Bielsa celebra vitória que deixou o Leeds perto do acesso à Premier League - Lee Smith - 16.jul.20/Action Images

Bielsa não estava preocupado com o que viria a seguir. Se qualquer dos dois adversários mais próximos do Leeds United, o West Bromwich Albion ou o Brentford, perdesse um ponto no final de semana, a tarefa estaria concluída e o Leeds conquistaria o acesso. E Bielsa disse que não pretendia assistir aos jogos de qualquer um dos dois.

Ele não considera “conveniente” passar o dia sonhando de olhos abertos, torcendo por um tropeço alheio que o torne treinador de um time de Premer League. “A situação não está resolvida”, ele disse. Em lugar disso, Bielsa faria o que sempre faz: estudaria os relatórios dos olheiros e as análises táticas do adversário e prepararia seu programa de treinamento.

Pouco mais de 24 horas mais tarde, a certeza espiritual se tornou certeza matemática. O West Brom perdeu do Huddersfield, e o Leeds United, depois de 16 longos anos, estava de volta ao topo. Milhares de fãs acorreram na hora ao estádio de Elland Road, se reunindo na Bremner Square, queimando fogos, acendendo tochas e decorando a estátua de Billy Bremner, o maior ídolo da história do clube, com cachecóis nas corres do Leeds.

Em um dos camarotes do estádio, lá no alto, o time –reunido para assistir ao momento do acesso– dançava e cantava com a torcida. Bielsa estava em casa em Wetherby, uma cidade comercial tranquila a 20 minutos de Leeds. Alguns vizinhos apareceram para congratulá-lo. “Obrigado”, ele respondeu. “Não falo inglês, mas obrigado”. Os vizinhos sorriram. “Você é Deus”, um deles respondeu.

Na adolescência, durante seus longos e sacrificados anos de treino, preparação e espera por uma oportunidade, Josh Warrington, campeão mundial de boxe na categoria peso pena, contemplava com inveja Liverpool, Manchester e Sheffield, cidades do norte da Inglaterra com uma “tradição forte no boxe”. Já a cidade dele, Leeds, não era assim. Seria sua responsabilidade, ele disse, “colocá-la no mapa”.

Leeds tem muitas tradições esportivas. A verdade é que talvez tenha até tradições demais. Aos olhos de Warrington, a cidade é conhecida antes e acima de tudo pelo futebol. “Se você lê as páginas de esporte do jornal, o futebol sempre domina”, ele disse. Mas é também uma cidade do rúgbi, um esporte que antecede o futebol em Leeds por algumas décadas. E uma cidade do críquete: o estádio local da modalidade, o Headingley, produziu pelo menos dois dos maiores momentos na história inglesa do críquete.

Nos últimos anos, Leeds ganhou fama em uma série de modalidades olímpicas. Em 2012, Yorkshire, o condado em que a cidade fica, se vangloriou orgulhosamente de que, se fosse um país separado, teria fechado a Olimpíada de Londres na 12ª posição do quadro de medalhas. (No Rio de Janeiro, quatro anos depois, o condado conquistaria uma ainda respeitável 17ª posição.)

Nos dez últimos anos, as pacatas cidades de Ilkley e Harrogate, na periferia de Leeds, onde o urbano e o rural se combinam harmoniosamente, ocuparam posição central no boom do ciclismo britânico. Leeds só formou um time de futebol relativamente tarde –a primeira encarnação do United apareceu apenas em 1905–, e o esporte jamais definiu a identidade da cidade da maneira que faz em Manchester ou Liverpool.

É um traço que se estende para além do esporte. Leeds, como cidade, testou diferentes visões de si mesma nos últimos 10 anos: uma sucessão de tentativas dos líderes cívicos empreendidas ao longo do século 20, a maioria das quais, de acordo com o escritor Anthony Clavane, “não conseguiram reverter a imagem de uma cidade industrial fuliginosa, da eterna cidade vitoriana”.

Na década de 1990 e pela maior parte dos anos 2000, Leeds tentou diversas identidades novas, como “a Barcelona do norte”, promovendo uma cultura de bares, cafés e estilo de vida urbano; como um polo de expansão financeira, que recebeu a primeira filial da luxuosa loja de departamentos Harvey Nichols criada fora de Londres; e mais tarde como um dos dois polos de poder do partido conservador no norte da Inglaterra.

A cidade tem uma orgulhosa tradição musical –Soft Cell, Sisters of Mercy. Utah Saints–, mas não tinha uma grande casa de música até 2013. É um polo cultural —Alan Bennett, Keith Waterhouse, o Northern Ballet, Opera North— que construiu sua “oferta cultural” em torno de “experiências passivas de consumo em massa”, de acordo com um estudo publicado em 2004 por acadêmicos da Universidade de Leeds.

A cidade está há muito tempo em busca de uma identidade que a defina, de alguma coisa que lhe sirva como cartão de visita.

Houve momentos em que o futebol cumpriu esse papel —nas décadas de 1960 e 1970, a era de conquista de títulos anterior à passagem desastrosa (e breve) do treinador Brian Clough pelo comando do “maldito United”, e de novo na virada do século, quando um time inspirador, alimentado por jovens talentos e pesadas dívidas, chegou às semifinais da Champions League.

Mais recentemente, para boa parte do país, a associação entre Leeds e o futebol vem sendo negativa. “Fazer como o Leeds” entrou no vocabulário do futebol como exemplo cautelar sobre os perigos de gastar mais do que o time ganha, de viver acima de suas posses, da arrogância que o excesso alimenta. Por uma década e meia, foi essa a identidade esportiva de Leeds.

Um par de anos atrás, Warrington conseguiu realizar sua ambição. Em 2018, nove anos depois de se profissionalizar, ele disputou contra Lee Selby o título mundial dos pesos leves pela IBF. A luta foi marcada para Elland Road. Diante de 25 mil espectadores, o boxeador, que torce desde a infância pelo Leeds United, saiu vitorioso por pontos. Isso fez dele o primeiro campeão mundial de boxe masculino da cidade. E colocou Leeds no mapa do boxe, como Warrington sempre quis, criando um novo aspecto para sua identidade.

“Aquela temporada foi desastrosa para o Leeds United”, recordou Warrington. “Torcedores que falavam comigo me diziam que eu tinha lhes dado motivos para torcer. Que eu tinha trazido alguma glória de volta à cidade. Que eles esperavam que isso empurrasse o time, de algum modo. Poucas semanas depois, Bielsa foi contratado. A fênix começou a renascer das cinzas."

Tradução de Paulo Migliacci

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