Grandes clubes de SP projetam perda de mais de R$ 200 milhões sem bilheteria

Campeonato Brasileiro chega à metade longe de uma definição sobre volta da torcida

São Paulo

Após reuniões virtuais acaloradas entre dirigentes, federações e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), o Campeonato Brasileiro da Série A chega ao final do primeiro turno sem perspectivas concretas de ter torcida nas arquibancadas e com estimativa de perdas de centenas de milhões.

Os quatro grandes clubes de São Paulo, somados, preveem R$ 244 milhões de perdas.

A restrição ao público, medida necessária para mitigar a transmissão do coronavírus, interrompeu lucros com a comercialização de ingressos e toda a cadeia comercial do evento, incluindo serviço de estacionamento, venda de produtos do time e consumo de alimentos e bebidas.

Maracanã vazio durante vitória do São Paulo sobre o Flamengo neste domingo (1º), pela última rodada do primeiro turno do Campeonato Brasileiro
Maracanã vazio durante vitória do São Paulo sobre o Flamengo neste domingo (1º), pela última rodada do primeiro turno do Campeonato Brasileiro - Ricardo Moraes/Reuters

Outro impacto significativo é no programa de sócio-torcedor, uma possibilidade de negócio ainda em processo de amadurecimento entre as equipes brasileiras.

Nessa modalidade, o torcedor paga ao clube uma quantia mensal e consegue, com variações entre os modelos adotados, adquirir ingressos com exclusividade ou descontos.

Segundo estimativa da empresa de auditoria EY, os times da elite nacional deverão deixar de embolsar R$ 605 milhões ao longo desta temporada com seus estádios de portões fechados.

As 20 equipes mais bem colocadas no ranking da CBF arrecadaram, juntas, R$ 952 milhões em 2019 com o matchday –nome atribuído no mercado ao somatório de receitas de bilheteria, sócio-torcedor, comercialização de camarotes e venda de produtos dos clubes, alimentos e bebidas. Se confirmada a projeção, somarão neste ano cerca de R$ 347 milhões.

A reportagem questionou os times da Série A sobre a estimativa de prejuízos com a falta de público. Entre os que responderam, Palmeiras, Corinthians e São Paulo projetam perdas, respectivamente, de R$ 86 milhões, R$ 82 milhões e R$ 65 milhões. O Santos tem projeções mais baixas, de R$ 11 milhões.

“O Corinthians entende que a volta [do público] só deverá ocorrer ao mesmo tempo para todos os times e com aval médico. Mas é inegável como esse dinheiro vai fazer falta”, disse à Folha o presidente corintiano Andrés Sanchez.

Fora de São Paulo, as projeções de prejuízo são variadas entre Bahia (R$ 50 milhões), Ceará (R$ 20 milhões), Fortaleza (R$ 10 milhões), Atlético-GO e Goiás (aproximadamente R$ 15 milhões cada um).

O Flamengo foi quem mais ganhou com o matchday em 2019, ao faturar R$ 175 milhões. Em seu último balancete, atualizado até o dia 30 de setembro deste ano, a equipe carioca contabilizou ter recebido R$ 21 milhões com a venda de ingressos em 2020 ante os R$ 61 milhões arrecadados no mesmo período em 2019.

Do total de R$ 21 milhões, R$ 11 milhões são referentes ao Estadual do Rio de Janeiro. Os demais têm origem na Libertadores e na Recopa, em partidas realizadas até março, antes da paralisação do futebol pela pandemia e de sua volta sem torcida nos estádios.

Só no Campeonato Brasileiro até o dia 30 de setembro de 2019, o time campeão acumulou uma renda bruta de R$ 29 milhões.

Embora na elite o matchday seja a terceira maior fonte de renda dos times, geralmente atrás da venda dos direitos de transmissão e da negociação de atletas, sua perda é praticamente irrecuperável.

“Há uma previsão de perda de até 75% sem o público no estádio, um impacto expressivo. O sócio-torcedor está muito atrelado à facilidade para conseguir um ingresso”, afirma Fernando Trevisan, da Escola de Negócios Trevisan.

No bolo da composição de arrecadações dos times, o matchday responde por uma fatia de 16% desde 2017. As cotas de TV representaram até 40%, e transferências de jogadores variaram de 19% a 27%.

De 2018 a 2019, com incremento de 24%, o matchday passou de R$ 796 milhões para os atuais R$ 952 milhões, conforme levantamento da EY. Para este ano, a previsão pré-pandemia era ultrapassar R$ 1 bilhão.

“Embora a taxa de ocupação dos estádios ainda esteja longe das principais ligas europeias, a média de público no Brasil vem crescendo consistentemente ao longo dos últimos 15 anos”, afirmou André Monnerat, diretor de negócios da Feng, empresa especializada em programas de sócios e engajamento de torcedores.

De volta à primeira divisão neste ano, o Atlético-GO arrecadou R$ 2 milhões com matchday quando estava na B. “A Série A nos daria um retorno muito maior. Em um jogo contra o Flamengo, em Goiânia, a gente arrecadaria R$ 3 milhões”, diz Adson Batista, presidente do clube.

A falta de arrecadação com a torcida no estádio é um problema sentido em vários países, principalmente por times de divisões inferiores, que não contam com contratos de TV vantajosos. Mas mesmo os mais ricos do mundo vêm amargando perdas significativas.

O Manchester United (ING) registrou prejuízo de 23,2 milhões de libras (R$ 173 milhões) na última temporada do futebol europeu, e o Barcelona (ESP), de 100 milhões de euros (R$ 670 milhões).

"Nossa principal prioridade é levar os torcedores de volta ao estádio com segurança e o mais rápido possível", afirmou o vice-presidente executivo do clube inglês, Ed Woodward. Mas o aumento recente do rigor nas medidas de combate à pandemia na Europa tem apontado para outra direção.

Representantes de clubes brasileiros e a CBF se reuniram por videoconferência, no último dia 16, e mantiveram a proibição à presença de torcida no Nacional. No fim de setembro, posição isolada do Flamengo a favor do retorno provocou divergências e bate-boca entre os cartolas.

A CBF afirma que o retorno gradual só deverá ocorrer de forma isonômica, com aval das autoridades de saúde locais e de acordo com medidas protetivas previstas no estudo encaminhado ao Ministério da Saúde.

Esse estudo prevê no máximo 30% da capacidade dos estádios liberada aos torcedores e apenas para o time mandante, enquanto os visitantes seguirão sem acesso.

“A volta é incerta e, quando ocorrer, não atingirá 100% da capacidade e não vai suprir essa necessidade dos clubes, que já não devem considerar essa receita tão cedo”, diz Trevisan.

Erramos: o texto foi alterado

A perda financeira estimada pelo São Paulo sem arrecadação com bilheteria nos seus jogos é de R$ 65 milhões, não R$ 18 milhões, conforme publicado anteriormente. Isso eleva a soma das estimativas de perdas dos quatro grandes clubes de São Paulo para R$ 244 milhões. A informação foi corrigida.

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