Time de várzea lança camisa contra racismo, homofobia e exclusão

Inajar de Souza cria uniforme para inclusão de minorias e combate de preconceitos

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São Paulo

Se o esporte profissional tem visto cada vez mais campanhas de conscientização social, no futebol amador essas pautas estão latentes há mais tempo.

Exemplos: existem times apenas com altetas trans; por muitos anos, foi na várzea que o futebol feminino resistiu; os campos de terra, muitas vezes, são o único lugar de inclusão, lazer e diálogo em comunidades; filmes já contaram a história do combate ao racismo nesses espaços.

Agora, o Inajar de Souza, time da favela da Divineia, no bairro da Vila Nova Cachoeirinha, zona norte de São Paulo, resolveu transformar seu uniforme para combater diversas formas de preconceito.

A camisa, lançada oficialmente na segunda-feira (26), tem traços antirracistas, contra o preconceito de gênero e de orientação sexual e pela inclusão de pessoas com alguma deficiência.

“Queremos chamar outras equipes de várzea a fazer esse mesmo movimento contra o preconceito e a discriminação. A gente nunca viu, nem nos profissionais, uma camisa com esse conceito tão abrangente de inclusão social”, diz Magrão, diretor esportivo. “Muito possivelmente podem aparecer pessoas com pensamento retrógrado [em reação ao uniforme], mas não nos preocupamos com isso, queremos conscientizar."

O uniforme traz, como sempre, o nome Inajar à frente. “Time de pobre não tem patrocinador”, brinca Magrão. Mas dessa vez, o inclui também em Libras (Língua Brasileira de Sinais) e em braille, com alto relevo, para pessoas com deficiência visual.

No ombro, aparece o símbolo da ONU para inclusão social. O número dos jogadores vem contornado com as cores do arco-íris LGBT. Nas costas, um punho cerrado pela luta antirracista e desenhos que remetem à inclusão de pessoas mais velhas, com síndrome de Down, autismo e em cadeira de rodas.

O escudo ainda carrega a figura de um índio, em homenagem ao fundador e primeiro presidente do Inajar, Ivan Jacaré, já falecido.

O mote do uniforme é “Xô preconceito”. O ensaio fotográfico foi feito pela fotógrafa que acompanha o time há anos, Juh da Várzea, e os modelos foram pessoas da comunidade: Jefferson, negro e ex-jogador profissional, Pamela, que tem síndrome de Down, Dega, cadeirante, e Pamella, representando a comunidade LGBT.

Fundado em 1978, o time também tem bloco de Carnaval, e foi da união com a folia que surgiu a ideia para o novo uniforme.

“Em 2021 não teve Carnaval, mas já havíamos pré-selecionado o tema do enredo na avenida. Foi quando surgiu a ideia do ‘Xô preconceito’, por causa dos acontecimentos do futebol e no esporte dos Estados Unidos. Eu resolvi então trazer esse conceito, essa temática, para o nosso novo uniforme”, conta Magrão.

O Inajar possui equipes do sub-11 a acima de 50 anos. Atualmente, está inscrito em três torneios para 2021: Copa Martins Neto, Supercopa Pioneer (conhecida como Champions da várzea) e Copa Negritude. Mas as competições ainda estão em dúvida devido às restrições impostas pelos governos para combater o coronavírus.

Durante a pandemia, o Inajar —assim como muitos outros times da várzea— assumiu papel de captador e distribuidor de cestas básicas para sua comunidade. Foram 24 toneladas de alimentos distribuídos até aqui, segundo o diretor.

Mas a chegada do coronavírus também afetou fortemente as já frágeis receitas da equipe. Magrão diz que precisa de cerca de R$ 40 mil para cada um dos grandes torneios que disputa.

Hoje, a receita vem quase inteira da venda de material esportivo. Em tempos normais, os patrocínios já são escassos e apenas em parcerias com o comércio local —pequenos negócios que pagam por volta de R$ 400 ao mês.

“Times de várzea têm dificuldade de atrair patrocínio. Acho que as empresas não despertaram ainda, é um nicho que está encoberto. [Para este ano], a gente firmou parceria com a padaria Sabor de Mel, mas nem recebemos nada ainda, porque os jogos nem começaram, e o comércio ainda está meio fechado”, relata o diretor.

Magrão projeta mais cinco ou seis acordos, mas nem pensa em cobrar o dinheiro por enquanto. Entende que o que deve prevalecer é o senso de comunidade. “É preciso ter bom senso."

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