A vida de nossos idosos negros também importa

Grupo é o mais afetado em um momento em que o país acumula uma série de crises

Alexandre da Silva

Professor e PhD da Faculdade de Saúde Pública da USP, membro do ponto focal de questões raciais no Centro Internacional da Longevidade no Brasil (ILC-BR)​

Novembro é o mês em que parte da população entende a necessidade de pensar na consciência, no corpo, nas condições de vida e na identidade das pessoas negras no nosso país.

E é justamente nesse mês que o presidente da República transfere para cidadãos e cidadãs o fracasso do Estado no enfrentamento de uma sindemia, além de uma pandemia.

Idosa de uma comunidade rural da cidade de Valença (RJ) com uma imagem de Santo Onofre - Antônio Gaudério - 29.jun.2000/Folhapress

Sindemia pelo fato de ser um acúmulo de diversas crises: sanitária, política (em que impera o negacionismo), econômica (crescente número de desalentados e desempregados), conflitos raciais (isolamento e distanciamento não foram capazes de amenizar as práticas violentas contra grupos sociais desprivilegiados) e a Covid-19.

São essas crises que simbolizam as marcas do racismo, pois são as pessoas negras as mais afetadas. Estamos lutando pelo direito de respirar, parafraseando o filósofo camaronês Achille Mbembe, e os idosos negros talvez sejam o grupo a quem esse direito é mais proibido de vivenciar.

No contexto da Covid-19, a população idosa negra pode apresentar todos os fatores de risco cientificamente comprovados para maior adoecimento e óbito: pele escura, idosa e com comorbidades.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) apontam que negros somam 48% da população idosa brasileira —mais de 3 milhões de pessoas idosas pretas e 12,5 milhões de pessoas idosas pardas.

Historicamente, trata-se de um grupo cuja trajetória é marcada por racismo, machismo, capacitismo (a discriminação por alguma deficiência), idadismo (discriminação por ser uma pessoa velha) e outras discriminações associadas ao local de residência por conta das dificuldades de acesso a serviços, por si já insuficientes.

Some-se a isso as condições de trabalho que desrespeitam suas capacidades físicas e reformas previdenciárias que fazem da aposentadoria um sonho inacessível.

O envelhecimento ativo prega a boa saúde, a aprendizagem ao longo da vida, a participação e a segurança. Para a maioria das pessoas negras, essas são aspirações distantes.

As condições socioeconômicas construídas a partir de iniquidades raciais levam a um envelhecimento precoce e ruim. Mesmo quando uma enfermidade é identificada, a possibilidade de um tratamento eficaz é remota.

A aprendizagem ao longo da vida já é privilégio de poucos, que dirá para pessoas idosas negras. E o que dizer de segurança quando violências ocorrem dentro e fora de casa? Quantas mortes precoces de filhos, filhas, cônjuges e amigos levando à solidão e à insuficiência de redes de apoio e de afeto?

Nesse mês de novembro, é preciso resgatar a ancestralidade, o respeito e a admiração aos mais velhos e mais velhas que a cultura afro-brasileira sempre enalteceu. Essas qualidades não podem ser perdidas dentro de uma sociedade em que impera um capitalismo selvagem, que cria como padrão o corpo do homem branco e jovem.

Se hoje somos um Brasil repleto de belezas e de pessoas ávidas por liberdade de viver e crescer, estejamos certos de que foram as pessoas negras que criaram tantas belezas e moldaram nossos sonhos futuros.

Respeito a nossos Pretos Velhos e nossas Pretas Velhas. Suas vidas também importam. Hoje e para sempre!

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