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07/08/2003 - 03h30

Roberto Marinho influiu durante sete décadas

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da Folha de S.Paulo, no Rio

Nenhum brasileiro acumulou tanto poder ao longo do século 20 como o jornalista e empresário Roberto Marinho, criador do maior conglomerado de mídia e entretenimento do Brasil.

Seu império começou a ser erguido a partir do jornal "O Globo", herdado do pai, Irineu Marinho, e cresceu sem interrupção ao longo de sete décadas.

Com uma fortuna pessoal de US$ 1 bilhão de dólares, ele consta da lista dos homens mais ricos do mundo elaborada pela revista "Forbes".

A história das Organizações Globo pode ser dividida em três grandes fases. A primeira delas começa em 1925, com o lançamento do "Globo", percorre os anos 30 e 40, com o sucesso das revistas de quadrinhos norte-americanos, e passa pela aquisição da rádio Globo (44).

A segunda começa em 1965, quando entra no ar a primeira emissora de TV, que se tornaria porta-voz do regime militar.

A terceira começa em meados dos anos 90, quando o grupo abre o capital, investe em novas mídias e dá início ao processo de sucessão de Marinho.

O começo

Roberto Pisani Marinho nasceu no Rio de Janeiro no dia 3 de dezembro de 1904. Seus pais --Irineu Marinho Coelho de Barros e Francisca Pisani Barros-- tiveram cinco filhos (três homens e duas mulheres).

Irineu Marinho foi um jornalista importante do início do século 20. Fundou, em 1911, "A Noite", um jornal de oposição que logo conquistaria a liderança no mercado de vespertinos.

Em 29 de julho de 1925, lançou "O Globo", com duas edições diárias e uma tiragem inicial de 33.435 exemplares. Roberto Marinho tinha 20 anos e foi trabalhar com o pai, como repórter e secretário particular.

Vinte e um dias depois, Irineu Marinho morreu de infarto, enquanto tomava banho. Instado por sua mãe a assumir a direção do jornal, Roberto Marinho preferiu confiá-la a um colaborador do pai, Euricles de Matos, enquanto continuava seu aprendizado dentro do jornal.

Apenas em maio de 1931, quando Euricles de Matos morreu, Roberto Marinho assumiu definitivamente a direção do jornal.

Tinha então 26 anos. Fizera os estudos primários em escolas públicas, depois cursara uma escola profissionalizante e interrompera o curso de humanidades para trabalhar com o pai no "Globo". Não chegou, portanto, a concluir curso superior.

"O Globo" surgiu como um jornal noticioso, em oposição ao jornalismo partidário que ainda se praticava na época, e defensor, simultaneamente, de causas populares e da entrada no país de capital estrangeiro.

"O Globo" apoiou o governo provisório instituído pela Revolução de 30 e, em 1932, a Revolução Constitucionalista.

Com posição editorial sempre cautelosa, fez do combate ao comunismo uma de suas marcas.

O jornal fez restrições ao golpe que gerou o Estado Novo (1937), mas Marinho participou do Conselho do Departamento de Imprensa e Propaganda, responsável pela censura a jornais.

Na Segunda Guerra Mundial, "O Globo" foi a favor do rompimento com a aliança da Alemanha, Itália e Japão e tomou posição a favor do fim da ditadura de Getúlio Vargas.

Embora o jornal fosse o cartão de visita de Marinho, o crescimento financeiro do grupo se deu por causa da edição de gibis, histórias em quadrinhos norte-americanas e de empreendimentos imobiliários.

Em dezembro de 1944, Roberto Marinho comprou a rádio Transmissora, da RCA Victor, e inaugurou sua primeira emissora, a rádio Globo.

Com a eleição de Vargas, passou a lhe fazer forte oposição. Em 53, o jornal fez campanha contra a criação da Petrobras.

Naquele mesmo ano, a rádio Globo foi franqueada ao jornalista Carlos Lacerda (1914-1977), que a usou para atacar Vargas e os empréstimos do governo a Samuel Wainer (1912-1980) para o lançamento do jornal "Última Hora". Embora o próprio "Globo" tenha se beneficiado de empréstimos oficiais.

O suicídio do presidente, em agosto de 54, provocou grande comoção popular, durante a qual duas caminhonetes da rádio Globo e dois caminhões do jornal foram incendiados.

Em 1955, elegeu-se Juscelino Kubitschek (1956-61), a quem Marinho fez oposição moderada e de quem ganhou a primeira estação de TV, a Globo do Rio.

Na eleição seguinte, apoiou Jânio Quadros, mas em seguida discordou de sua política externa e se decepcionou com a renúncia, em 1961.

Ele inicialmente foi tolerante com o sucessor de Jânio, João Goulart (PTB), mas logo passou a conspirar para derrubá-lo. Colocou seus veículos à disposição da oposição e apoiou o golpe militar de 1964.

No entanto, foi durante o governo de João Goulart que Roberto Marinho ganhou sua segunda concessão de TV, a Globo de São Paulo.

Os militares

As Organizações Globo, "integradas no processo revolucionário", deram seu total apoio aos governos que se estabeleceram a partir de 64.

Sob o regime militar, Marinho deu um salto decisivo na expansão de seus negócios ao inaugurar, em abril de 65, a TV Globo do Rio. Seu jornal estava entre os mais vendidos na cidade e a rádio era líder de audiência.

A TV Globo se firmou rapidamente por três razões: um acordo financeiro e operacional com o grupo norte-americano Time-Life, a colaboração com o regime militar e o declínio das TVs Tupi e Excelsior.

O acordo com o grupo Time-Life (injeção do equivalente hoje a US$ 25 milhões, mais assessoria técnica e comercial) recebeu inúmeras críticas, porque Marinho ignorou o artigo 160 da Constituição de 1946, que vetava a participação acionária de estrangeiros em empresas de comunicação.

O relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar o acordo concluiu que a Constituição fora de fato desrespeitada, mas o procurador-geral da República, em 67, e o presidente Artur da Costa e Silva, em 68, decidiram que a operação havia sido legal.

A TV Globo conquistou os cariocas no verão de 1966, quando fez com exclusividade a cobertura ao vivo das enchentes que deixaram dezenas de mortos e feridos no Rio.

A idéia da cobertura ao vivo foi do executivo Walter Clark (1936-1997), que viria a implantar, nos anos 70, o famoso "padrão Globo de qualidade".

A "lua-de-mel" da emissora com o público duraria até 82, quando a Globo foi identificada com a tentativa de se impedir a vitória de Leonel Brizola para o governo do Rio, no episódio conhecido como Caso Proconsult.

Roberto Marinho teve grandes adversários, como Assis Chateaubriand (1892-68), Carlos Lacerda, Samuel Wainer. Brizola foi outro desafeto de décadas. Em 15 de março de 94, o locutor Cid Moreira leu, no Jornal Nacional, texto de Brizola, que ganhou na Justiça um direito de resposta. "Tudo na Globo é tendencioso e manipulado", teve de afirmar o locutor.

A TV Globo ficou associada ao regime autoritário por ter sido porta-voz dos militares e por ter crescido naquele período. As empresas jornalísticas do grupo se adaptaram às regras impostas pelos governantes: o noticiário político desapareceu e o econômico fazia eco aos "milagres" de Delfim Netto e sucessores. Caso célebre de colaboração foi "Amaral Neto, o Repórter", programa em que supostos documentários ajudavam a construir a imagem positiva do regime.

Em 1972, o então presidente Emílio Médici chegou a afirmar: "Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário. Porque, no noticiário da TV Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz".

Esse tipo de procedimento tendencioso acabou permeando o conteúdo editorial dos veículos de Marinho até a década de 80, já no correr do processo de transição democrática.

A mudança de rumo

Em 1983, Roberto Marinho começou a mudar os rumos de seus compromissos políticos. Naquele ano, ele informou ao presidente João Baptista Figueiredo (1979/ 85) que daria apoio a um projeto que previsse a alternância de poder no governo federal.

Mas, no primeiro semestre de 1984, a Rede Globo ignorou completamente as manifestações populares em favor de eleições diretas para presidente da República. Somente a partir do comício da Candelária, no Rio, quando a campanha já tinha se consolidado e eram grandes as pressões e as hostilidades contra a emissora, a TV transmitiu reportagem completa, ao vivo.

Com a derrota das Diretas-Já, a disputa pela sucessão de Figueiredo foi para o Colégio Eleitoral. Marinho passou, então, a apoiar a candidatura moderada de Tancredo Neves (PMDB) contra Paulo Maluf (PDS). Tancredo foi eleito pelo voto indireto, mas morreu antes de tomar posse.

Roberto Marinho manteve sua influência no governo herdado por José Sarney (1985/90): nomeou os ministros Leônidas Pires Gonçalves (Exército) e Antonio Carlos Magalhães (Comunicações) e influiu na escolha de titulares da área econômica, como Maílson da Nóbrega.

Com Sarney, a família Marinho conseguiu mais quatro concessões de TV.

A má imagem

A imagem politicamente antipática do grupo nasceu durante o governo militar e se cristalizou no início da década de 80, quando se acelerou o processo de redemocratização.

Casos como as coberturas parciais e enviesadas das greves dos metalúrgicos do ABC (79), da eleição para o governo do Rio de Janeiro (82), a relutância na cobertura da campanha das Diretas-Já (83/84), a polêmica edição do debate entre os candidatos a presidente Fernando Collor e Lula (89) marcaram não só a imagem da emissora como de todo o grupo de Marinho.

O slogan "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo" vem, desde então, sendo repetido em diversos episódios históricos.

Na eleição presidencial de 89, Marinho apoiou Fernando Collor de Mello. O segundo turno foi disputado por Collor e Lula. O último debate foi transmitido ao vivo pela Globo. Mas, no "Jornal Nacional", a emissora apresentou uma edição do debate francamente favorável a Collor, que teve um minuto e 12 segundos a mais de tempo de exposição. Era uma evidência da parcialidade da emissora.

Collor e Marinho se entenderam até agosto de 92, quando a campanha pela destituição do presidente já tinha sido encampada por toda a sociedade.
Em 1994 e 1998, Roberto Marinho apoiou a candidatura de Fernando Henrique Cardoso.

A partir de 1995 as Organizações Globo iniciaram um processo de reconstrução de sua própria imagem. A TV Globo, que então completava 30 anos, mudou a orientação jornalística, em busca de um noticiário mais isento e despolitizado, e inaugurou o Projac (Projeto Jacarepaguá), maior complexo de estúdios, auditórios e produção televisiva da América Latina.

A construção do Projac, aliás, foi cercada de polêmica porque o empreendimento recebeu empréstimo de US$ 38 milhões da Caixa Econômica Federal, operação que contrariou parecer técnico da CEF e que foi questionado na Justiça.

A partir de 1995, passou a ficar mais nítida a dificuldade enfrentada pela emissora para manter os mesmos índices de audiência e sua liderança em horários estratégicos.

Vencido pela idade, Roberto Marinho foi participando cada vez menos das atividades de suas empresas. Em depoimento gravado no final de 2000, a memória já estava fraca e seletiva, fixada apenas em "O Globo", o vespertino de Irineu Marinho que deu origem ao império.

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