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30/10/2005 - 11h38

Seqüestradores de Diniz vivem "clandestinos"

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SÉRGIO DÁVILA
Enviado especial da Folha ao Canadá

Alguns crimes brasileiros nunca morrem. O seqüestro de Abilio Diniz é um deles. O caso é daquelas histórias que dariam não só um filme, mas um livro, um documentário e uma trilha sonora. Todos de suspense. Com pelo menos um mistério: "E os canadenses?"

No dia 11 de dezembro de 1989, dez pessoas participaram do seqüestro do empresário Abilio dos Santos Diniz, do Grupo Pão de Açúcar, hoje como então uma das maiores fortunas do país. Do dia (17) em que seu cativeiro foi estourado à libertação do último dos envolvidos, uma década depois, o assunto não saiu da mídia. (Volta e meia, é ressuscitado, como no lançamento da autobiografia de Diniz, em dezembro, na qual ele menciona o ocorrido.)

Entre os dez seqüestradores havia um brasileiro e sete outros latino-americanos diretamente ligados a movimentos guerrilheiros de esquerda de El Salvador, da Argentina e do Chile. À época, havia grupos também que, sob pretexto político, usavam o crime para proveito financeiro próprio --e nunca foi provado que os dez seqüestradores não agissem assim.

Destoava do grupo um casal de canadenses. Cabelos e olhos claros, escondidos por óculos fundo-de-garrafa, David Robert Spencer tinha 26 anos e parecia um daqueles criadores de uma pontocom destinados a ser bilionários. Quatro anos mais velha, mas aparentando mais, talvez pelos cabelos mal-pintados ou pela maquiagem pesada, Christine Gwen Lamont vinha de uma família de classe média alta dos subúrbios de Vancouver, na costa oeste do Canadá.

O primeiro mistério era: o que os dois faziam ali? A resposta varia conforme o indagado. Para sua defesa na época, eles eram jovens preocupados com a desigualdade social do mundo, como tantos no Canadá e em países europeus desenvolvidos. Ao visitar El Salvador e a Nicarágua nos anos 80, entraram de gaiatos numa operação destinada a ajudar financeiramente guerrilheiros de esquerda que deu no seqüestro.

Se feita para a Promotoria de então, para os juízes que cuidaram do caso e para pelo menos três autores de livros sobre o assunto, o casal sabia da operação e estava tão envolvido quanto os outros oito --David chegou a dirigir a Kombi que levaria Diniz ao cativeiro, Christine seria a responsável pelas armas da casa.

O fato é que, depois de muito vaivém jurídico, os dois foram condenados a 28 anos de prisão, ficaram quase dez no extinto Carandiru, em São Paulo, foram enviados para cumprir o resto da pena no Canadá, no final de 1998, num acordo entre os dois países, e saíram em liberdade condicional menos de três meses depois.

Naquele ano, 1999, eles e os pais dela, que lideraram uma campanha e bancaram um lobby incansável pela libertação da dupla tanto no Canadá quanto no Brasil, deram algumas entrevistas a órgãos de imprensa dos dois países, falaram de planos futuros, comemoraram a vitória. E sumiram.

O segundo mistério: como dois canadenses em liberdade condicional conseguem desaparecer no próprio país que os vigia?

Desde setembro do ano passado, a Folha tenta localizá-los, para saber como e do que vivem hoje em dia os seqüestradores canadenses de Abilio Diniz.

No mês passado, descobriu o esquema de "clandestinidade" que montaram e que é muito parecido com o da época em que viviam em São Paulo --com a imensa diferença de que agora estão dentro da lei.

Presos em condicional

No Departamento de Correções da Província da Colúmbia Britânica, em Vancouver, responsável pelo acompanhamento de presos em condicional, não consta o nome de David Robert Spencer nem de Christine Gwen Lamont. "Spencer... Lamont... Nada. Aos olhos da lei, eles são tão livres quanto eu e você", disse à Folha Dennis Finlay, chefe do setor.

Ele era a última esperança de uma busca que começara nos arquivos que sobraram das duas penitenciárias para onde os dois foram enviados em 1998, ela em Burnaby, ele em Abottsford (um dos prédios foi demolido desde então, assim como o paulistano Carandiru, que os "hospedou" no Brasil), e passara pelo Comitê de Condicional --"Nada consta, nem o endereço atual deles".

A mesma negativa resultava das consultas aos Lamont e Spencer que aparecem nas listas telefônicas do país. A última aposta era Langley, cidadezinha a 50 quilômetros de Vancouver, onde Christine foi criada e os pais, Keith e Marilyn, sempre viveram.

Nada nos jornais, arquivos ou documentos públicos. Era como se o sobrenome "Lamont" tivesse sido apagado da história, feito as fotografias oficiais soviéticas sob Stálin. Até que uma frase solta numa ata da reunião regular do Conselho da Cidade de Langley, realizada às 19h de 29 de maio de 2000, chama a atenção. "O sr. Mike Walker reclama que a cerca de cedro entre sua casa e a propriedade que foi dos Lamont se encontra em estado lamentável."

Mike Walker, com número na lista telefônica, era vizinho dos Lamont até que eles venderam a grande casa, de três acres, com piscina e muitas árvores, "depois daquilo tudo", conta à Folha. O terreno hoje deu lugar a três casas.

"Sei que eles mudaram para uma cidadezinha aqui perto. A sra. Omelaniec sabe onde é." A sra. Omelaniec "perdeu" o telefone, mas não se incomoda em dizer o nome da cidade. É Surrey, a 20 km. A Folha descobre o endereço e passa a tentar entrar em contato com os Lamont.

Assim que o primeiro telefonema é atendido, pela mãe, entrará em ação um "alerta vermelho" que envolverá as duas dezenas de pessoas, amigos, colegas e familiares com quem a reportagem conversará ou se encontrará nos dias seguintes: ninguém fala ou sabe nada de David e Christine.

"Os dois? Não vejo há oito anos", dirá a jornalista Kim Bolan, melhor amiga de Christine ainda hoje. "Eu tinha o e-mail dele em algum lugar, mas não consigo achar", falará Stephen Stewart, um dos melhores amigos de David. "Não estou autorizada a comentar esse assunto", responderá Heather, irmã de Christine. "Aqui não tem nenhum William", gritará o próprio pai de David, William, ao desligar o telefone.

Nomes falsos

Até que os pais de Christine resolvem abrir a porta ao repórter, depois de várias tentativas, com a advertência de que não responderão nada. Parecidos com os atores Henry Fonda e Rita Moreno na velhice, o ex-cirurgião, 75, e a ex-professora de piano, "72 e meio", não respondem mas fazem perguntas. Sobre o Brasil.

Como vai a saúde de dom Paulo Evaristo Arns, com quem tiveram muito contato durante a luta pela libertação da filha. Se ainda há muitas crianças de rua em São Paulo. Ainda existe a praça da Sé. Que tal anda o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O brasileiro foi a favor ou contra a invasão do Iraque. Se o filme "Cidade de Deus" é mesmo muito violento.

Da conversa com eles e com outros que aceitaram falar na condição de anonimidade, a Folha conseguiu refazer a trajetória do casal desde 1999 e descobrir como eles vivem hoje em dia. Primeiro, não usam mais os próprios nomes quando trabalham, mas pseudônimos desconhecidos --como na época do seqüestro, aliás, em que eram "Modesto" e "Susana".

Depois, moram em Vancouver, numa boa casa de uma cidade que foi escolhida em pesquisa recente como "a melhor do mundo para viver". Casaram-se em 2000, mas não têm filhos. Fizeram uma festa apenas para amigos em 6 de maio de 2002, quando a pena de ambos foi oficialmente extinta.

Almoçam esporadicamente aos domingos na casa dos pais dela, mas fizeram um pacto em que a palavra "seqüestro" e o nome "Abilio Diniz" estão proibidos. Christine, 46, pinta sempre o cabelo grisalho. Bem-humorado, David, 42, é o piadista da família e brinca com a vaidade da mulher.

Ele trabalha como roteirista de filmes na emergente indústria cinematográfica canadense --embora ninguém revele seu nome de guerra e o oficial não conste de nenhum dos três sindicatos de roteiristas do Canadá, todos consultados pela Folha, nem do banco de dados eletrônico IMDb, maior arquivo mundial do gênero.

Uma comédia sua, de alguns anos atrás, contava a história de um sujeito que ganhou na loteria, mas viu seu bilhete ser enterrado no caixão de um parente. Escreve textos como free-lancer para jornais locais, sempre com outros nomes. Escreve e deleta de seu computador repetidamente um livro de memórias há alguns anos.

Christine voltou a estudar, na mesma Universidade Simon Fraser em que conheceu o jovem idealista no começo dos anos 80 por quem se apaixonaria e da qual abandonou os cursos de comunicação e ciências sociais. Agora, tenta se graduar em criminologia.

O La Quena Coffee House, na Commercial Drive, em Vancouver, onde eles primeiro tiveram contato com membros ligados à guerrilha de El Salvador, fechou --virou uma galeria de arte e o escritório de uma pontocom.

Desde 1999, os dois não saíram do Canadá uma única vez, apesar de poderem legalmente desde 2002. Pretendem fazer uma viagem nos próximos meses, talvez para a Europa. Nunca visitariam os EUA sob George W. Bush, dizem os amigos, e o Brasil também não está nos planos imediatos.

Não que o contato deles com o país ou a turma de seqüestradores tenha sido completamente interrompido. Uma vez, em 2000, uma pessoa presenciou Christine conversar por correio eletrônico instantâneo com a chilena Maria Emília Marchi, a quem ficou muito ligada --elas ficaram presas juntas em São Paulo.

Já David freqüenta sempre o CoDevelopment Canada, também conhecido como CoDev ou CoDesarrollo Canada, uma ONG esquerdista que ajuda sindicatos e associações de professores da América Latina --Brasil incluído, onde a entidade já participou do Fórum Social de Porto Alegre.

O enviado da CoDev geralmente é Stephen Stewart, que fala português fluente. E é um dos melhores amigos de David Spencer.

Especial
  • Leia o que já foi publicado sobre o seqüestro de Abilio Diniz
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