Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
18/06/2000 - 19h50

Protestos contra violência no Rio revelam diferenças sociais

Publicidade

MÁRIO MAGALHÃES
da Folha de S.Paulo, no Rio de Janeiro

Duas manifestações diferentes neste domingo (18), com o idêntico propósito de protestar contra a violência, mostraram no Rio que habitantes de favelas e de bairros de classe média alta não se juntam nem quando há interesse comum.

Convocado inclusive na TV por moradores da favela da Rocinha para o local onde ficou parado o ônibus sequestrado segunda-feira, no Jardim Botânico (área nobre da zona sul), um ato ecumênico foi praticamente ignorado pelos habitantes do bairro.

Dos cerca de 270 presentes _cálculo da Folha, já que os organizadores e a Polícia Militar não fizeram estimativa_, 200, levados em quatro ônibus e vários carros, eram da Rocinha.

A classe média, contando moradores do Jardim Botânico, se concentrou numa segunda passeata, de aproximadamente 900 pessoas, nas praias de Ipanema e Leblon, a cerca de 3 km.

No ato da Rocinha, as pessoas foram vestidas de branco e com cartazes contrários ao governador Anthony Garotinho (PDT).

Na praia, a cor preferida foi o preto, e manifestantes com cartazes críticos ao governador e ao prefeito Luiz Paulo Conde (PFL) foram expulsos.

"O problema foi que o pessoal do asfalto sabia que aqui estaria a nossa comunidade", disse a presidente da União de Mulheres da Rocinha, Dalva Santos Roque.

Na praia, um dos maiores estudiosos da violência urbana do Rio, Ignácio Cano, professor da Universidade Federal Fluminense e pesquisador do Instituto Superior de Estudos da Religião, afirmou: "Essa divisão é um sintoma de como está a cidade".

Sem saber que estariam praticamente sozinhos no Jardim Botânico, os moradores da Rocinha levaram panfletos com a letra de uma canção chamada "Paz". Numa estrofe, dizia: "A paz que pede a favela, no eco que vem do alto, é a paz de Jesus Cristo, de Gandhi. Que seja a paz do asfalto."

Na linguagem cotidiana carioca, "morro" e "asfalto" sintetizam o abismo social entre favelados e populações de maior renda que vivem ao nível do mar.

É o contraste sintetizado pelo jornalista Zuenir Ventura no livro "Cidade Partida".

Na segunda-feira passada, um ônibus da linha 174 foi sequestrado por um homem identificado pela polícia como Sandro do Nascimento.

Na operação de resgate conduzida pela Polícia Militar, foi morta a professora de artes de uma creche da Rocinha Geísa Gonçalves. O bandido, sem ferimento a bala, morreu num camburão, asfixiado por policiais militares.

Um dos poucos moradores do Jardim Botânico no ato dos habitantes da favela, Paulo Henrique Souto disse que a classe média não foi por achar que "o pessoal da Rocinha" gera violência. "Há uma confusão de conceitos, a classe média está perdida."

O coordenador da organização não-governamental Viva Rio, o antropólogo Rubem César Fernandes, esteve primeiro no ato no Jardim Botânico e depois na passeata da praia, onde afirmou: "Nós vamos invadir a Rocinha. O asfalto vai subir a Rocinha. Vamos trabalhar na integração."

Na praia, Fernandes expulsou da manifestação o auxiliar de escritório Leonardo Bispo, que levou uma faixa com a inscrição "Segurança é assunto de gente grande; fora Garotinho".

"Vai embora! Vai andando", disse Fernandes para Bispo. "Não vamos misturar a manifestação com fins políticos pequenos." Depois, uma faixa contra o prefeito _ "Omissão também é crime; fora Conde"_ foi retirada da passeata, convocada, pela Internet, pelo ator Fábio Junqueira.

Um dos raríssimos manifestantes que estiveram nos dois atos foi o empresário Rômulo Costa.

Dono da empresa promotora de bailes funk Furacão 2000, em 1999 ele foi preso sob acusação de incitar a violência. Ontem, disse que "a importância das duas manifestações foi levar à reflexão sobre a raiz da violência".

Leia mais notícias de cotidiano na Folha Online
 

Publicidade

Publicidade

Publicidade


 

Voltar ao topo da página