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09/12/2003 - 03h44

Rio Tietê teve prova de natação por duas décadas

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KIYOMORI MORI
da Folha de S.Paulo

De sorriso fácil, o joalheiro aposentado Max Graber, 81, não esconde o orgulho ao exibir cinco medalhas "especiais" que ganhou na natação. Pequenas e escurecidas, elas não são de metal precioso nem têm valor comercial, muito menos se destacam entre as mais de cem que coleciona em casa.

Mas as inscrições nas medalhas confirmam a participação do ainda nadador em cinco edições de uma das mais tradicionais provas esportivas da história da cidade, a Travessia de São Paulo a Nado.

O evento, que acontecia anualmente, entre 1924 a 1944, chegava a reunir milhares de pessoas nas margens do rio Tietê para assistir à competição. "Era tão importante quanto a São Silvestre", afirma Graber, que até hoje pratica natação no Espéria, o mesmo clube que defendia nas provas de mais de meio século atrás.

A comparação não é exagerada. Na edição de 1941, por exemplo, 1.957 nadadores disputaram a prova. No mesmo ano, a São Silvestre reuniu "algumas centenas" de atletas, segundo relatos do jornal "Gazeta Esportiva" da época.

Das águas do Tietê saíram grandes nomes da natação brasileira, como Maria Lenk, que desenvolveu o estilo de nado borboleta, e até mesmo João Havelange. "Quem participava da prova virava uma espécie de ídolo. As pessoas cultuavam os nomes dos nadadores com respeito e inveja", conta Graber, que foi um dos responsáveis por introduzir o nado sincronizado no Brasil.

A largada, realizada a partir de batelões estacionados no rio, era realizada em etapas. "Primeiro as mulheres, por cavalheirismo e para evitar acidentes", explica.

"Acidentes", no caso, eram decorrência da disputa ferrenha que se travava na largada dos homens, logo depois. "Cada clube organizava sua tropa de choque, que eram as pessoas que deveriam abrir caminho para os nadadores de elite", diz. A melhor estratégia era nadar no meio do leito do rio, onde a correnteza favorável ficava mais forte. Graber, por exemplo, goleiro de pólo aquático do time do Espéria, tinha físico avantajado e sempre era escalado para o serviço "de choque".

"A gente puxava os calções de banho dos adversários, dava cotovelada, valia de tudo para impedir o nadador de outro clube de chegar na frente. Era muito divertido", lembra, rindo. "Depois havia uma grande confraternização e tudo acabava bem. As rixas dos clubes eram saudáveis, nada de violência gratuita."

O percurso, de 5.500 metros, começava na ponte da Vila Maria e terminava em frente ao clube Espéria, onde hoje fica a ponte das Bandeiras. Nas margens, a vegetação predominante era de mata ciliar. Algumas chácaras e pescadores compunham o cenário bucólico na beira do rio.

Mas, já na década de 40, o Tietê começava a enfrentar problemas de poluição. Com o desenvolvimento industrial de São Paulo, indústrias começaram a se instalar nas margens do rio, lançando dejetos e esgotos diretamente nas águas.

Para completar, o jornalista Cásper Líbero, organizador da travessia, morreu em um acidente aéreo em agosto de 1943.

Por esses motivos, no ano seguinte, foi realizada a última edição da prova. Com a voz embargada, Max Graber resume: "Foi muito triste, ninguém imaginava que um dia o rio acabaria desse jeito. Dá uma agonia muito grande olhar o rio hoje, morto e sujo, e lembrar dos momentos de glória da travessia. Ninguém acredita quando conto".
 

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