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28/11/2006 - 11h05

"DNA e pobreza" definem a futura top model brasileira

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LAURA CAPRIGLIONE
da Folha de S.Paulo

"Já teve mãe que chegou à agência oferecendo a filha para ser modelo e, diante do argumento de que a altura dela era insuficiente, disse que a menina poderia implantar prótese nas pernas. O mais comum é o caso das que prometem fazer a filha emagrecer até 15 quilos para que ela se encaixe no biotipo de modelo. É óbvio que recusamos essas ofertas."

O depoimento é do presidente da Ford Models Brasil, Décio Restelli Ribeiro, que hoje realiza a finalíssima do hiperdisputado concurso brasileiro de modelos da agência. Seiscentas mil meninas se inscreveram em todo o país para participar da disputa, mas apenas 15 sobraram para o desfile de hoje à noite na passarela montada no hotel Unique, nos Jardins.

A vencedora será entregue à presidente mundial da agência Ford Models, Katie Ford, que a levará a Nova York, onde acontecerá a final mundial.

Maior celeiro de modelos do planeta, ao lado de países da Europa Oriental, o Brasil reúne os principais pré-requisitos para alguém querer e poder candidatar-se a sucessora de Gisele: "DNA e pobreza", conforme Décio Ribeiro admite.

"O mercado quer modelos com biotipo europeu -no mínimo 172 centímetros de estatura e magra, bem magra. Mas uma menina que provenha de família com posses terá mais dificuldades para encarar a vida de modelo, com cachês que começam na casa das dezenas de reais", diz o presidente da Ford.

Se fizer um editorial de moda, horas à disposição de fotógrafos e editores, R$ 70 a R$ 80. A São Paulo Fashion Week pagará uma média de R$ 400 por desfile dessas "new faces" (novatas). Se a marca de roupas ou acessórios quiser fazer desfiles exclusivos para suas clientes, o que se chama de "showroom", então a menina receberá de R$ 200 a R$ 400 por um dia inteiro de trabalho. Dessa quantia, a agência ficará com 30%.

Das 15 meninas finalistas, todas das regiões Sul e Sudeste, nenhuma negra ou oriental, três filhas de empregadas domésticas, 12 passaram por cursos de modelos, uma modalidade de escola que se multiplica pelo Sul do Brasil em velocidade maior do que curso de informática. Andar na passarela, etiqueta, noções de maquiagem e de cuidados com o cabelo são matérias obrigatórias.

Pai desempregado e mãe industriária, Vanessa da Cruz, 15 anos, 172 centímetros e 45 quilos, chegou a São Paulo vinda diretamente da cidade gaúcha de Morro Reuter, de 5 mil habitantes. Quando olhava pela janela do quarto, Vanessa via um morro verdinho ainda povoado por bugios, que são macacos selvagens. Em 2005, a cidade ganhou um curso de modelo de quatro meses ao custo de R$ 50 por mês. Vanessa foi uma das matriculadas.

As 15 meninas começaram a chegar a São Paulo na sexta-feira. Teve as que enfrentaram até 10 horas de viagem dentro de um ônibus, como Jéssica Alvaristo, 13 anos, de Jaraguá do Sul (SC), cabelos vermelhos, rosto cheio de sardas, sorridente, mãe diarista, pai distante, 172 cm estatura, 51,8 quilos.

Quando se perguntou a Jéssica se ela se considera ligada em grifes, a menina respondeu que não. "Mas já usei algumas, como Carinhoso, Menina Linda e Locomotivas", disse, referindo-se a marcas do segmento infantil. Armani ou Prada ainda estão longe demais.

Ronédi Engroff, 15 anos, 178 cm, 55,8 quilos, pai que conserta eletrodomésticos, nunca foi ao cinema. São Paulo, recém-descoberta, impressionou-a pelos carros novos e pelos "cachorros das madames -tão magrinhos e limpinhos".
"Onde é Nova York mesmo, tia?", pergunta uma menina à repórter. Depois, a candidata a Gisele volta, envergonhada, pedindo para não ser identificada como a perguntadora. Tá bom.

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