'The Square' lastima aquilo que se perdeu entre artista e público

Divulgação
No filme de Ruben Östlund, Terry Notary vive o artista performático Oleg, que imita um macaco num jantar de gala
No filme de Ruben Östlund, Terry Notary vive o artista performático Oleg, que imita um macaco num jantar de gala

SILAS MARTÍ
DE NOVA YORK

Um quadrado demarcado no chão de uma praça de Estocolmo é a obra de arte pivô da trama de "The Square", mais um filme que tenta satirizar os estranhos códigos e rituais que definem o mundinho da arte contemporânea.

Não é um acaso que a sala do apartamento minimalista mobiliado com o melhor do design escandinavo do curador Christian (Claes Bang) tenha uma tela de Josef Albers na parede, o artista alemão famoso por suas obsessivas ""e infinitas"" pinturas de quadrados coloridos.

O quadrado também é um sinal de segregação, o cercadinho VIP que separa os iniciados na arte contemporânea de um público leigo, as pessoas comuns que não vão a vernissages e pagam ingressos para entrar nos museus.

Ruben Östlund, o diretor, parece fazer um jogo duplo.

Seu filme –belíssimo na superfície– segue à risca a estética do cubo branco. Galerias, quase altares, brilham imaculadas diante do olhar de vigias mal humorados. Os banquetes são ao mesmo tempo suntuosos e constrangedores para os mecenas. E flertes, turbinados por taças e taças de champanhe, decolam sob o peso da chantagem.

Mas o retrato fidelíssimo de um mundo da arte cada vez mais pasteurizado –é igual em São Paulo, Nova York, Paris, Pequim e afins, com a diferença da qualidade da bebida– se revela estar a serviço de um ataque.

Östlund, ao apontar para o ridículo, é mais realista do que Paolo Sorrentino, cineasta que também tentou desancar o universo dos artistas plásticos no hilário ""e histriônico"" "A Grande Beleza".

Mesmo as sequências mais bizarras de "The Square" não fogem muito dos ares circenses que festas de museus já tomaram. A performer Marina Abramovic foi massacrada pela crítica quando fez discípulos enfiarem a cabeça em buracos nas mesas durante um jantar, servindo de adereço vivo.

O homem-macaco de Östlund também não é páreo para os garotos que causaram comoção na galeria Vermelho, em São Paulo, brincando de enfiar os dedos no bumbum de coleguinhas pelados.

Nada disso é novo. O ridículo, às vezes, abunda. Mas "The Square" parece buscar algo além. Mesmo um tanto pueril, existe aqui um lamento por algo que se perdeu entre o artista e o público, a constatação de que museus, tal como Hollywood desde sempre, viraram indústrias de sensações sujeitas aos gostos e desgostos do mercado.

Quando uma chefe do museu avisa o curador que o faux pas na divulgação de uma mostra teria consequências e que ela não poderia exigir muito dos patrocinadores, Östlund escancara um jogo manjado de cartas marcadas.

No fundo, "The Square" é um alerta aos que vivem fora do cercadinho VIP de que aquilo que museus entronizam depende de forças muito além de tendências estéticas. E que esse circo todo cria uma aura de sofisticação impenetrável para que o caixa não esvazie.

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