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São Paulo

Odisseu levou dez anos em sua viagem de retorno a casa. Vagueando pelos mares do mediterrâneo, enfrentou monstros, deitou-se com deusas, sobreviveu a naufrágios. Uma jornada mítica, mas também pessoal.

Esse encontro entre particular e épico é relido na versão da Cia. Hiato para a "Odisseia" de Homero, que chega a São Paulo neste sábado (9) depois de uma estreia na Grécia, em abril —a montagem é coproduzida pelo Centro Cultural Onassis, de Atenas.

A trama mítica do poema, uma das obras fundadoras da literatura ocidental, ganha paralelos com a biografia dos artistas. "Quisemos aproximar o mito da gente", afirma o diretor Leonardo Moreira. "Não precisamos de heróis, mas da história do homem comum."

Faz parte da linguagem da Hiato unir histórias pessoais à ficção. Já no primeiro espetáculo, "Cachorro Morto" (2008), personagens tinham os nomes dos próprios atores.

Em "O Jardim" (2011), dados biográficos dos artistas pincelavam uma narrativa ficcional sobre três gerações de uma família. O grupo foi mais longe em "Ficção" (2012), série de monólogos em que os atores falam de si mesmos, mesclando verdade e invenção.

Sua "Odisseia" é feita em partes, com cada ator subindo ao palco a sua vez —como cada uma das ilhas que o protagonista percorre em sua jornada. Começa com relatos bastante privados, em tom de conversa com o público.

Aura Cunha conta do pai, que saiu de casa quando ela era criança. Ali, lembra de Telêmaco, filho de Odisseu, que cresce sem conhecê-lo —o protagonista passa dez anos na Guerra de Troia e outra década retornando a casa.

A atriz Luciana Paes fala da desilusão de um amor seu e remete a Calipso, a ninfa que manteve Odisseu cativo por sete anos. Tentava entretê-lo e ofereceu-lhe a imortalidade, mas não conseguiu tirar dele a ânsia de voltar para Ítaca, lar do protagonista.

É só depois que ficção de Homero ganha mais forma no palco. "A gente busca muita delicadeza nessa construção [do mito] para não criar um distanciamento", diz Luciana.

"Se você vai ao teatro e encontra uma deusa no primeiro ato, dá medo. Como você chega e logo vê um ser extracotidiano mega suado, e você com jaqueta de frio, acabando de pegar o tíquete do estacionamento? Você se sente um bosta", brinca a atriz.

Essa aproximação ganha força antes da sessão e nos dois intervalos (são pouco mais de quatro horas de peça).

O espaço cênico é dividido ao meio por um telão. De um lado, o palco. Do outro, uma área de convivência onde são servidas comidas (sopa e pão) e bebidas (cachaça), e o grupo conversa com o público.

É uma referência à "philoxenia", a recepção dado ao estrangeiro, tão citada na epopeia de Homero. Segundo a mitologia, era preciso acolher bem o outro caso se tratasse de um deus disfarçado.

(Já visões históricas creditam a prática ao processo de dominação: caso o povo não fosse "civilizado", via-se uma justificativa para colonizá-lo.)

O público, por sinal, vai aos poucos entrando em cena. Odisseu não é vivido pelo elenco: é a plateia, por vezes no palco ou em seu assento, que representa o protagonista.

"Nossa proposta era não repetir o mito do homem que vai embora, mas ver quem são os Odisseus que ficam", explica o diretor. "A gente se reconhece na 'Odisseia', é uma obra muito reveladora da nossa natureza. Por isso a peça é tão aberta, tão cheia de pessoas entrando, para criar esse encontro."

"A gente não está precisando de uma boa Lady Macbeth", segue Luciana. "Precisamos que as pessoas se encontrem, tenham mais compaixão."

Outras passagens ecoam assuntos contemporâneos. Quando a deusa Atena (Paula Picarelli) entra em cena, fala da guerra e remete a conflitos atuais, como a crise de refugiados e o conturbado clima político e social do Brasil hoje.

Penélope (Aline Filócomo), esposa de Odisseu que aguarda o marido por duas décadas, começa sentimental, cantando músicas melosas num karaokê, mas logo questiona seu papel resiliente, assim como o de outras tantas mulheres.

"Vemos como uma ficção [escrita provavelmente entre os séculos 8º e 7º a.C.] forma uma sociedade", diz Moreira.

"É a história que se repete. A primeira tradutora de 'Odisseia' para o inglês [a classicista britânica Emily Wilson] mostra como as mulheres do poema são tratadas como paisagens por onde Odisseu passa, estão a serviço do herói."

Mas, continua o diretor, "o espetáculo não é sobre o que é ser homem ou mulher. No final das contas, é sobre o que nos une. O mítico é isso".

Odisseia

  • Quando Qui. a sáb.: 19h. Dom.: 17h. Até 8/7
  • Onde Sesc Avenida Paulista, av. Paulista, 119
  • Preço R$ 9 a R$ 30
  • Classificação 18 anos

 

Curiosidades sobre a 'Odisseia'

  • Nada se sabe a respeito da vida de Homero, mas estudiosos situam a escrita da "Odisseia" e da "Ilíada" no fim do século 8 a.C ou começo do século 7 a.C
  • A tradição, contudo, diz que ele era um bardo cego que vagava de cidade em cidade
  • A "Odisseia" não é contada em ordem cronológica: sua primeira parte é a "Telemaquia", a busca de Telêmaco por seu pai, Ulisses (tradução latina para Odisseu), que só surge no canto 5.
  • O nome do protagonista mais famoso da literatura grega, surpreendentemente, nem da Grécia é. "Odusseus" é um nome que indica uma origem não helênica
  • Diferentemente da "Ilíada", que é linear, a "Odisseia" tem uma estrutura narrativa mais sofisticada —definida como "in media res", ou seja, que começa no meio do caminho. A estrutura seria repetida em poemas como a "Eneida" e "Os Lusíadas"
  • Há algumas incoerências na história, que podem ter surgido na consolidação da versão que chegou até nós. No canto 2, o livro diz que um certo personagem foi comido pelo Ciclope; no canto 17, ele aparece vivo. O poeta romano Horácio, em "Arte Poética", falava de questões assim como "sonecas" de Homero

Por Maurício Meireles

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