Poeta Leide Moreira morre aos 70

Autora sofria de ELA e escrevia com tabela especial que lhe permitia soletrar com os olhos

Leide Moreira, na maca, participa de evento de seu terceiro livro em auditório da Folha
Leide Moreira, na maca, participa de evento de seu terceiro livro em auditório da Folha - Marlene Bergamo/Folhapress/27.ago.2015
São Paulo

Num post em suas redes sociais, publicado na noite de quinta (22), a cineasta e produtora cultural Leide Jacob replica "Dilema", poema de sua mãe, a poeta e advogada Leide Moreira: "Minha vida se esvaindo/ Não sei se vou chorando ou sorrindo/ Sorrindo pondo fim a uma agonia que não aguento mais/ Chorando por deixar para trás pessoas que amo demais".

Jacob lembra que os versos foram as primeiras coisas ditas pela mãe por meio de uma tabela especial, que a permitia soletrar palavras utilizando apenas os olhos. Moreira havia descoberto pouco antes, em fevereiro de 2005, que sofria de esclerose lateral amiotrófica (ELA), doença degenerativa que leva à paralisia. Em novembro do mesmo ano, precisou fazer uma traqueostomia, e logo perdeu a fala.

"Pesquisando na internet, descobri um médico que indicava essa tabela, e falei: 'Mãe, vamos testar'. Aí de primeira ela já falou a poesia, estava pronta", conta Jacob. "E a gente falou, 'poxa, que lindo'. Depois de engolir a seco, porque o conteúdo [de 'Dilema'] é muito duro."

Logo Moreira indicou à família que buscasse numa pasta de seu computador outros arquivos, poemas antigos que ela tinha costume de escrever, mas nunca mostrou aos outros. Os versos antigos e novos, agora ditados por meio da tabela, deram origem ao livro "Letras da Minha Emoção", publicado de forma caseira em 2006.

A coletânea repercutiu, e depois a advogada publicou outras duas obras. "Poesias para me Sentir Viva" foi lançado em 2008 no auditório da Folha, com a presença de Leide Moreira, de maca e UTI móvel —a primeira vez que ela saía de casa nessas condições, segundo a filha.

Já "Não Espere de mim Apenas Poesias" (2015), também lançado no jornal, reunia não apenas poemas, mas também relatos do cotidiano de Moreira, que perdeu todos os movimentos e só tinha controle de seu globo ocular.

"Esse trabalho [na escrita] empoderou muito ela, que conseguiu mostrar que tem muito conteúdo para ser dito", conta a filha. Mais que isso, Moreira acabou se tornando uma voz nos casos de ELA. Protestou contra a obrigação de comprar quatro ingressos para ver um show musical em São Paulo —devido à maca que ela utilizava—, e seu caso inspirou uma lei que proíbe as casas de shows de seguirem a prática.

A história deu origem ao curta documental "Pagar 4 Nunca Mais" (2018), dirigido por Jacob, que já havia feito outro filme sobre a mãe: em 2007, entregou uma câmera às cuidadoras de Moreira, para que registrassem os momentos em que ela escrevia. As gravações deram origem ao documentário "Minha Poesia", selecionado para o NYC Independent Film Festival.

A advogada vivia em seu apartamento paulistano num sistema de home care, com uma UTI em seu dormitório.

Nos últimos meses, foi parando de se comunicar. "Da última vez, disse: 'Hoje leram para mim o jornal errado, o de ontem'. Fiquei imaginando ela ouvindo o jornal todo, e sabendo que estava errado. É ao mesmo tempo engraçado e bom, saber que ela tinha toda essa consciência, mas também difícil, porque ela está lá e não consegue se comunicar."

Moreira morreu na noite de quinta (22), aos 70 anos. Ela foi velada na manhã desta sexta (23), na Catedral Metropolitana Ortodoxa, e cremada durante a tarde, na Vila Alpina. Além de Leide Jacob, deixa outros dois filhos e quatro netos.

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